Há novos pormenores sobre o caso da mulher que trabalhou durante 22 anos como psiquiatra na Escócia sem ter as qualificações necessárias. Zholia Alemi passou dezenas de receitas e tratamentos a vários pacientes, que preocupam as autoridades. As consequências das suas ações podem ter sido mais graves do que o que se pensava inicialmente.

Alemi, que nasceu na Nova Zelândia, trabalhou no sistema nacional de saúde britânico sem ter qualificações para o cargo de psiquiatria - ela abandonou o curso de medicina no seu país natal. Isto aconteceu porque um acordo da Commonwealth, união das antigas colónias inglesas, prevê que profissionais de determinados países não tenham de prestar provas que confirmem a sua aptidão para um cargo. 

A  farsa, que durou 22 anos, foi descoberta depois de Alemi ter alterado o testamento de uma paciente, colocando-se como a única beneficiária do documento. O testamento original beneficiava a família da paciente e algumas instituições de caridade, mas Alemi alterou o texto, que passou a beneficiá-la e aos netos. A herança estaria avaliada em cerca de 1,5 milhões de euros.

Assim que se apercebeu da alteração do documento, a vítima, de 87 anos, fez queixa à polícia, desmantelando o esquema que Alemi tinha construído nas últimas duas décadas. Em casa da acusada foram encontrados vários pertences da idosa, entre os quais alguns relógios valiosos e cartões bancários.

A estratégia de Alemi passaria por se aproximar dos pacientes, ganhando confiança durante as sessões de terapia que conduzia. Aproveitaria essas consultas para saber as condições financeiras de cada paciente, segundo disse ao The Herald a médica Catherine Calderwood, responsável pelo sistema de saúde escocês.

Agora, as autoridades mostram-se preocupadas com possíveis prescrições erradas, que poderão ter comprometido o estado de saúde dos pacientes ou a qualidade de vida dos mesmos.

Para apurar as consequências, Calderwood entrou em contacto com todos os hospitais em que Alemi trabalhou, para que seja feito um acompanhamento de cada paciente por ela atendido.

Além das consultas de psiquiatria, Alemi trabalhou 18 meses como avaliadora de saúde mental, cabendo-lhe decidir se os pacientes deveriam ou não ser internados à força. Ao longo deste período Alemi mandou internar 24 pacientes. A dimensão do processo continua a ser atualizada, mas recentemente foi descoberto que a psiquiatra terá enviado vários pacientes para a terapia de choques elétricos, prática que pode deixar graves sequelas nos pacientes. Os casos estão agora a ser revistos um a um, para se apurar quais as reais consequências para os vários visados da falsa psiquiatra.

Zholia Alemi foi acusada e está presa desde outubro de 2018, tendo sido condenada a cinco anos de prisão pelos crimes de roubo e fraude.

Devido a esta falha na lei, que não prevê a realização de provas para ingressar no sistema nacional de saúde, o Conselho Médico Geral do Reino Unido está, desde novembro, a rever as licenças de todos os três mil profissionais estrangeiros que trabalham como profissionais de saúde em solo britânico.