O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, destacou a importância da vida social, religiosa e política do arcebispo sul-africano Desmond Tutu, que morreu este domingo aos 90 anos, classificando-o como um “herói contemporâneo” e defensor da dignidade.

“Em primeiro lugar, quero lamentar a sua morte, ocorre ao fim de uma vida longa e preenchida, mas de qualquer forma é sempre de lamentar a perda de um destes heróis contemporâneos da humanidade, defensor intransigente da dignidade de todos, independentemente da raça, nascimento, condição, religião ou convicções”, afirmou o ministro dos Negócios Estrangeiros, em declarações à Lusa.

Santos Silva chamou à atenção para a importância da vida cívica, social, religiosa e política de Desmond Tutu, lembrando que este foi um combatente contra o apartheid (regime de segregação racial).

O ministro lembrou que, após as primeiras eleições livres, o arcebispo “desempenhou um papel essencial no refazer da sociedade africana, onde todos cabiam”, enquanto presidente da comissão da verdade e da reconciliação.

Por outro lado, o governante acrescentou que Desmond Tutu, a par de Nelson Mandela, “foi um dos que melhor percebeu que nessa sociedade sul africana, democrática e inclusiva, que sonharam e construíram, os portugueses também cabiam”.

Conforme apontou, a comunidade portuguesa na África do Sul “é bastante numerosa, muito bem integrada e influente económica e socialmente”.

Também com o esforço do embaixador José Cutileiro, que morreu em maio de 2020, foi possível que os novos dirigentes compreendessem que a comunidade portuguesa “era parte integrante dessa sociedade multirracial e pluralista, que eles estavam a construir”, concluiu Santos Silva.

Marcelo recorda "uma das grandes figuras do século XX"

O Presidente da República considera que o arcebispo emérito sul-africano Desmond Tutu, foi "uma das grandes figuras do século XX" e "deixa um legado para toda a humanidade".

Numa nota publicada no site da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa recorda o vencedor do Prémio Nobel da Paz de 1984 como um "lutador maior pela justiça social, direitos humanos, liberdade e pluralismo na África do Sul" e salienta que "deixa um legado para toda a humanidade".

"Desmond Tutu foi uma das grandes figuras do século XX. Um século maldito em tantos aspetos, mas com marcos de superação e exemplos de humanismo que prevalecem nas nossas memórias. Cabe a todos nós, líderes do século XXI, sabermos preservar as lições intemporais que gigantes pela paz, como o arcebispo Tutu, nos deixaram", defende.

O Presidente da República assinala também "a sua coragem contra o Apartheid" que "correu os quatro cantos do mundo, reconhecimento que lhe valeu o Prémio Nobel da Paz em 1984".

"As marchas pacíficas que liderou mudaram mentalidades e tocaram fundo as consciências internacionais, a sua liderança na Comissão de Verdade e Reconciliação permitiu à nova democracia sul-africana uma amplitude moral e inclusiva, onde se integrava também a comunidade portuguesa, cuja consolidação resultava já do peso histórico pelo exemplo de Nelson Mandela", salienta.

Na mesma nota, o chefe de Estado indica que "neste dia de tristeza e de saudade", envia as "mais sentidas condolências" em seu nome e de "todos os portugueses" ao Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, bem como ao "povo amigo da África do Sul".

Desmond Tutu, arcebispo emérito sul-africano e vencedor do Prémio Nobel da Paz de 1984 pelo seu ativismo contra o regime de segregação racista do apartheid, morreu hoje aos 90 anos, anunciou o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.

Num comunicado emitido, o presidente confirmou o falecimento e enviou as condolências à família.

"A morte do arcebispo emérito Desmond Tutu é um novo capítulo de luto na despedida da nossa nação a uma geração de sul-africanos excecionais que nos legaram uma África do sul liberta", acrescentou o presidente na nota.

Desmond Tutu ganhou notoriedade durante as piores horas do regime racista na África do Sul, quando organizava marchas pacíficas contra a segregação, enquanto sacerdote, pedindo sanções internacionais contra o regime branco em Pretória.

Com o advento da democracia, 10 anos depois, o homem que deu à África do Sul o nome de “nação arco-íris” presidiu à Comissão de Verdade e Reconciliação criada com o objetivo de virar a página sobre o ódio racial, mas as suas esperanças foram rapidamente frustradas. A maioria negra adquiriu o direito de voto, mas continua em grande parte pobre.

Depois do combate ao apartheid, Tutu empenhou-se na reconciliação do seu país e na defesa dos direitos humanos.

Contra a hierarquia da igreja anglicana, defendeu os homossexuais e o direito ao aborto, tendo nos últimos anos aberto como nova frente de combate o direito ao suicídio assistido.

/ AG