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Trabalhar quatro dias por semana. Será possível em Portugal?

Patrícia Pires

Será que conseguimos fazer em quatro dias o que era suposto fazer em cinco? Já imaginou trabalhar apenas quatro dias por semana? Em Portugal já é possível, mas poucos ou ninguém adere a esta modalidade laboral

Há empresas, em Portugal, que já permitem aos funcionários trabalhar quatro dias por semana, mas nunca nenhum trabalhador pediu para usufruir desta modalidade, que implica um ajuste salarial. E este ano, outras empresas resolveram testar o modelo durante o mês de agosto, sem mexer nos salários, e apesar das experiências terem corrido bem e serem para repetir, nenhuma pensa, no imediato, assumir a fórmula 12 meses por ano.

É o caso da empresa tecnológica Feedzai, que explicou à TVI24 o motivo que levou à experiência.

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“Temos um CEO que está sempre a empurrar as pessoas para tentarem coisas novas e diferentes, para serem inovadoras e pensarem de forma diferente. Estávamos a falar sobre o equilíbrio entre a vida profissional e a vida familiar e de que forma podíamos melhorar esse equilíbrio. Essa foi uma das ideias que sugeri e ele respondeu, ‘claro, vamos tentar’. Tinha lido sobre o assunto, que na Islândia já se praticava e outras empresas também estavam a experimentar e resolvemos tentar”, conta Dalia Turner, vice-presidente com a área dos Recursos Humanos da Feedzai.

O primeiro país a apostar neste modelo foi a Islândia. Antes, o governo do país testou o modelo durante quatro anos – entre 2015 e 2019 - e concluiu que não houve perda de produtividade, os trabalhadores sentiram menos stress e o nível de bem-estar aumentou. Atualmente, cerca de 86% da população trabalhadora da Islândia já labora menos horas. E nenhum salário foi reduzido. Mas outros países querem seguir o exemplo, tal como Nova Zelândia, Espanha ou Japão.

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Na Nova Zelândia, por exemplo, uma empresa, a Perpetual Guardian, implementou esta modalidade em 2018, mantendo os salários. E não voltou atrás na decisão. Outros se seguiram, mas não a maioria. Já em 2020, após fechar as fronteiras do país, a própria primeira-ministra do país, Jacinda Ardern, abordou o tema e propôs aos empregadores considerarem a hipótese de uma semana de trabalho reduzida, como forma de impulsionar o turismo interno e ajudar os trabalhadores a arranjar um novo equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

Já em Espanha, em março passado, o partido de esquerda Más País, apresentou uma proposta neste sentido e o ministério do Trabalho decidiu estudar a possibilidade. Segundo o jornal The Guardian, o Governo aceitou a proposta e terá concordado em lançar um projeto-piloto para as empresas interessadas na ideia. Mas não ficou defenida uma data.

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Também em junho deste ano, o governo do Japão revelou planos para fazer avançar a semana de quatro dias de trabalho. O executivo alega que dessa forma os funcionários podem investir na sua educação, passar mais tempo com a família, arranjar um segundo emprego ou sair e gastar dinheiro. Em 2019, a Microsoft, no Japão, testou a semana de trabalho de quatro dias, durante o mês de Agosto e, segundo os dados revelados pela companhia, escreve o Washington Post, não só a produtividade subiu 40%, como foram reduzidos custos no consumo da eletrecidade e de papel.

E em Portugal? Este ano, em agosto, pelo menos duas empresas testaram a fórmula e são empresas que assumem que estão em busca do equilíbrio entre a vida profissional e familiar, tentando responder às necessidades dos seus funcionários.

“Em agosto, tivemos uma experiência que foi a semana de trabalho de quatro dias”, conta à TVI24 Irene Rua, da consultora Doutor Finanças, acrescentando que a experiência será repetida “sem ser num mês atípico e com tantas especificidades”, como o de agosto. Na base da decisão, um motivo: “Procurar que as pessoas tenham uma conciliação efetiva da vida pessoal, profissional e familiar”.

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Mesmo considerando que ainda é cedo para um balanço quantitativo, Irene Rua não tem muitas dúvidas do impacto positivo: “As pessoas ficaram efetivamente contentes com esta medida”. No mês em que o modelo foi testado, não houve nenhum ajuste salarial para os funcionários. E considera que “em termos operacionais, os resultados não serão muito diferentes daquilo que havia sido perspetivado”.

Antes da experiência, a Doutor Finanças já permitia e continua a permitir “o ajuste dos horários, com o ajuste de rendimento”, todavia, “nunca ninguém ativou a possibilidade de horário reduzido”.

A Feedzai, que também aplicou o modelo em agosto, vai repetir a experiência no próximo ano, mas admite algumas diferenças.

Uma das regras implementadas era que teria de ser o mesmo dia que tiravam, durante as quatro semanas do mês de agosto”, explica Dalia Turner. “Ainda temos tempo para pensar sobre o assunto, mas uma das coisas que talvez se faça é permitir que as pessoas tirem um dia diferente todos as semanas de agosto, o que for melhor para eles. Este é um exemplo de como pode mudar, mas ainda não há decisões definitivas”, assume a responsável. E, tal como este ano, o salário será igual.

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Sobre se algum dia este poderá ser um modelo de trabalho em vigor, Dalia Turner parece um pouco mais cética: “Não digo que não, mas penso que para ter realmente sucesso vai ser preciso que um número de diferentes empresas do ecossistema também o façam. Uma só empresa a fazê-lo será um desafio demasiado grande”.

Na New Work Portugal, ligada a uma empresa alemã, que desenvolve soluções de conciliação e work-life balance para empresas, a possibilidade de trabalhar quatro dias por semana é uma realidade com alguns anos.

“Se a nossa missão é para um mundo de trabalho melhor, tentamos estudar práticas e, sobretudo, comunicarmos sobre estas tendências”, afirma à TVI24 Miguel Garcia, diretor-geral da consultora em Portugal. Mas não só: “Experimentamos as coisas”.

“Estou na New Work há 4 anos e já tínhamos essa possibilidade. As pessoas podem efetivamente reduzir o seu horário de trabalho, nomeadamente um dia por semana, com uma correspondência na redução salarial, ou seja, cerca de 20%”, explica.

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Curiosamente, o modelo era abandonado uns meses depois: “Ou porque não funcionava, ou porque era algo transitório, que naquela altura fazia sentido, mas depois já não justificava” diz Miguel Garcia. Mas houve situações, destaca este responsável, em que “a performance das pessoas justificava um aumento salarial, que muitas vezes ia bater no mesmo valor que tinham antes”.

Tal como na Doutor Finanças, também na New Work Portugal o modelo não conquistou adeptos.

“Em Portugal, nunca tivemos nenhum caso de uma pessoa que quisesse aderir a este modelo de quatro dias, mas na Alemanha ainda tivemos bastantes pessoas a experimentar e ainda hoje continuam”, assume Miguel Garcia.

Sobre o motivo para esta ausência de interesse, são colocadas algumas hipóteses: “Já pensámos nisso varias vezes. A principal razão que nos parece tem a ver com a faixa etária” e a função na empresa, como por exemplo, a área da engenharia. Seja em Portugal ou fora do país. “Comparando, a mesma faixa etária e a mesma função, na Alemanha, vamos ter a mesma coisa”, acrescenta.

Outras áreas, “como vendas, marketing ou recursos humanos e faixas etárias um bocadinho mais velhas”, já procuram este modelo. Mas também há um peso cultural: “Do ponto de vista de cultura, somos um país onde este género de praticas não têm tradição, onde existe ainda muito preconceito”, admite.

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