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Mamonas Assassinas: há 25 anos um acidente de avião acabou com o "roda, roda e vira"

Maria João Caetano

Em nove meses apenas, o grupo brasileiro Mamonas Assassinas vendeu mais de dois milhões de discos e pôs toda a gente a rir e a cantar o "Vira-vira". Os cinco elementos da banda morreram num acidente de avião, a 2 de março de 1996

A 2 de março de 1996, os Mamonas Assassinas viajavam num jato privado de Brasília, onde tinham dado um concerto, para São Paulo, a sua cidade. No dia seguinte deveriam viajar para Portugal, onde iriam atuar pela primeira vez e "confirmar se as mulheres tinham bigode".

Não chegaram a vir. Nessa noite, o avião onde seguiam despenhou-se, matando os cinco músicos que eram o grande sucesso do momento, tendo-se tornado populares com canções humorísticas como Vira-vira, Sabão Crá-crá, Débil Metal, Jumento Celestino ou Pelados em Santos (e quem consegue resistir àquele "você me deixa doidão"?).

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Uma Utopia falhada

Terminou assim de maneira abrupta a carreira do grupo que tinha começado como Utopia em São Paulo, em 1989.

A banda Utopia era formada inicialmente pelos irmãos Sérgio Reoli (bateria) e Samuel Reoli (baixo) e o amigo Bento Hinoto (guitarra). Tinham alguns temas originais, mas no seus concertos interpretavam sobretudo covers de grupos como Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Rush, entre outras. 

Num concerto em 1990, o público pediu uma versão de Sweet Child O'Mine, dos Guns'n Roses. Mas, como nenhum dos elementos dos Utopia sabia a letra, pediram ajuda aos espectadores. Foi nessa altura que subiu ao palco Alecsander Alves. Mesmo sem ser grande cantor, a sua atuação foi tão divertida que foi logo convidado a entrar no grupo - e tornar-se-ia conhecido como Dinho, o icónico vocalista.

Mais tarde, juntaram-se Márcio Araújo (teclas), que acabaria por ficar pouco tempo no grupo, e Júlio Rasec (que veio como roadie e acabaria a fazer percursão e teclas). 

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Com a ajuda de alguns patrocinadores locais, conseguiram juntar dinheiro para fazer uma edição de mil cópias do seu primeiro disco. Eles estavam entusiasmados, mas o disco foi um fiasco total. Venderam apenas 100 exemplares.

Mamonas Assassinas: comédia em forma de música

Nesta altura, os Utopia ainda ambicionavam tornar-se um grupo "sério", mas aos poucos foram percebendo que as palhaçadas que faziam nos ensaios e que de vez em quando levavam para os concertos eram muito bem aceites pelos fãs, que pediam mais temas divertidos e menos covers ou canções certinhas.

Com a ajuda preciosa do produtor Rick Bonadio, gravaram a primeira demo com este novo estilo, com as faixas Mina (Minha Pitchulinha), que depois mudaria de nome para Pelados em Santos, Robocop Gay.

Risadas e mais risadas. Bagunça total, eles eram divertidos, espontâneos e ali naquele momento nasceram as primeiras canções", contou sobre essa sessão de gravação o técnico de masterização Rodrigo Castanho.

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Foi nesta altura, em 1995, que nasceram os Mamonas Assassinas. O nome fazia um trocadilho entre a planta mamona e uma mulher com seios grandes. Os músicos passaram a apresentar-se sempre mascarados, com roupas de palhaços, prisioneiros ou outras, e adotaram uma atitude cómica em palco. 

A demo foi enviada para várias editoras, mas foi a EMI que decidiu apostar neste grupo desconhecido. A única exigência para gravar o disco era terem mais canções.

Fizeram letras umas atrás das outras. Era a chance de uma vida. E pensaram ‘que se é para escrever besteira, nós somos pós-graduados'”, conta Bonadio no documentário Mamonas para Sempre, lançado em 2009.

Eram para ser 15 faixas, só que a canção Não Peide Aqui Baby, uma paródia a Twist and Shout, dos Beatles, acabou por ser retirada por ter demasiados palavrões.

O primeiro disco, intitulado Mamonas Assassinas, foi lançado a 23 de junho desse ano e o tema Vira-vira estourou nas rádios. Nessa canção, que gozava com o "vira" português, Dinho muda o seu sotaque para imitar o modo de falar dos portugueses, pronunciando os "erres" carregados.

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O sucesso estrondoso

Mamonas Assasinas foi o disco de estreiaque mais vendeu no Brasil (mais de 5 milhões de exemplares vendidos até à atualidade) e também o que mais cópias vendeu num único dia: 25 mil cópias nas primeiras 12 horas depois de a canção Vira-vira ter passado na rádio.

As canções eram um gozo pegado. As letras caracterizavam-se pelo uso de duplos sentidos, palavras mal pronunciadas e um português gramaticamente incorreto, referência a temas sexuais e temas polticamente incorretos. A música, misturando rock, forró, ska e o que mais lhes apetecesse, apelava à festa e à dança, sem regras. 

Num concerto no pavilhão novo de Guarulhos onde, cinco anos antes, tinham sido recusados porque não eram então suficientemente conhecidos para atuar ali, Dinho deixou o público em êxtase com as suas palavras: 

Há cinco anos estava aí no vosso meio e queria estar aqui. Diziam-me que era impossível. Mandem-nos para a p*** que os pariu. É possível, sim. (…) Se você não acreditar, ninguém vai acreditar. Eu quero que saibam que nós vendemos mais de dois milhões de discos, somos o artista número um do Brasil, o que faz mais shows, o que ganha mais dinheiro, o que está na moda. E nós continuamos a ser de Guarulhos. (…) Ainda somos daqui. O sucesso não sobe à cabeça das pessoas. Sobe à cabeça das pessoas fracas e nós não somos fracos. Se fôssemos fracos, tínhamos desistido há cinco anos. E nós estamos aqui. O impossível não existe.”

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Do lançamento do disco ao fim do grupo passaram apenas nove meses. Mas foram nove meses de delírio. Os Mamonas eram um sucesso entre os fãs de rock, mas também entre o público infantil. Estavam em todo o lado. Apareceram em todos os programas de televisão - do Jô Soares ao Domingão do Faustão, passando pelo programa da Xuxa - e saíram em digressão pelo país.

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Os Mamonas Assassinas deram cerca de 182 concertos em apenas oito meses, ou seja, uma média de 22 espetáculos por mês. 

“Uma vez tiveram que reservar um jato privado porque tinham que ir ao Faustão e voltar para um concerto no mesmo dia. Eles piraram com a ideia de fazer o show e voltar para dormir em casa. E disseram: ‘Então queremos andar sempre de jato’“, recorda Bonadio no documentário.

Há 25 anos: o acidente fatal

No dia 2 de março de 1996, o grupo voltava a São Paulo depois de um concerto no Estádio Mané Garrincha, em Brasília. No dia seguinte tinham viagem marcada para Portugal, onde iriam atuar pela primeira vez. Não chegaram a aterrar em Guarulhos. Às 23:15, o jato Learjet 25D que transportava o grupo colidiu com uma montanha da Serra da Cantareira, a norte de São Paulo.

Todos os elementos dos Mamonas Assassinas morreram. O mais novo tinha 22 anos, o mais velho 28. Morreram também os dois pilotos e dois funcionários da banda. 

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Os corpos começaram a ser resgatados apenas seis horas depois, dada a falta de visibilidade do local do acidente. O relatório da investigação revelou que o mau tempo poderá ter sido causa do acidente. Mas também pode ter havido uma falha de comunicação entre a torre de controlo do aeroporto de Guarulhos e o piloto do avião. O cansaço da tripulação também pode ter tido influência no acidente.

Depois do acidente, o grupo recebeu inúmeras homenagens, deu nome a ruas e praças no Brasil, foi tema de samba-enredo em alguns carnavais e continua a inspirar músicos mais jovens. A canção Robocop Gay foi incluída na banda sonora da telenovela Caminhos do Coração (2007), da Rede Record, como tema do personagem Danilo, interpretado por Cláudio Heinrich.

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