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«Sinto que este ano não vou voltar a jogar futebol»

David Marques

João Daniel tem 17 anos e foi um dos cerca de 65 jogadores residentes que tiveram de deixar recentemente a Academia do Sporting, em Alcochete. O Maisfutebol conversou com ele

- Desde que dia estou em casa? Hmm… hoje é dia quê? 31?

- Sim, 31.

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- Desde dia 14 ou 15. Já perdi a noção. Estar em quarentena não é fácil…

Despertador às 09h00, pequeno-almoço, ginásio, treino, banho, almoço, escola até às 17h00 e regresso à academia.

Eis a rotina de longa data de João Daniel, médio de 17 anos residente em Alcochete desde os 13, quando deixou a Póvoa de Varzim para agarrar um sonho: «Jogar no Sporting sempre foi um dos meus objetivos: para mim, é o clube com a melhor formação de sempre, visto que já teve dois bolas de ouro», argumenta.

De um dia para outro a normalidade da vida dele, bem como a de milhares de milhões de pessoas espalhadas pelo Mundo, foi interrompida.

E João, um dos jogadores que melhor conhecem os cantos da Academia do Sporting, guardou os pertences e fez-se à estrada.

Data de regresso: incógnita, talvez já depois de atingir a maioridade e, por isso, na condição de ex-residente da academia. «Para o ano vou ter outro tipo de responsabilidades. Vou viver sozinho numa casa, terei de fazer a comida algumas vezes e ir de carro para o treino. É diferente, mas são responsabilidades que quero assumir. Também já são cinco anos da academia e longe da família. Já vivi grandes momentos e momentos que me fizeram crescer», explica ao Maisfutebol.

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O novo dia a dia de João Daniel:

Acordar «mais ou menos cedo», pesagem, pequeno-almoço, treino (por vezes bidiário), almoço, PlayStation, filmes e séries atrás de séries: Prison Break – «a melhor série que já vi» - Toy Boy, O Atirador e até uns filmes de Harry Potter. Eis a nova rotina de João Daniel, na qual vale quase tudo para que os dias, longe dos treinos, dos colegas, e dos pais e do irmão, custem um pouco menos a passar.

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«Não cheguei a ir para o norte. Não quis ir logo, porque achei que era arriscado andar de transportes públicos e os meus pais estavam a trabalhar e não conseguiam vir buscar-me. Acabei por ficar cá por baixo, em casa da mãe da minha namorada. Só saio para ir passear o cão da minha namorada à noite ou para fazer alguns exercícios num relvado aqui à frente de casa», diz à distância.

À distância. A palavra ganhou espaço e peso na sociedade, porque, hoje, a segurança só é possível cumprindo esse requisito.

É, também, dessa forma que é feito o acompanhamento dos jogadores por parte do Sporting, com grupos de Whatsapp mais ativos do que nunca.

É através daí que os preparadores físicos enviam os planos de treinos e que os nutricionistas monitorizam a alimentação. «De duas em duas semanas recebemos um plano de treinos diferente. E todos os dias também temos um treino diferente: um dia tronco, noutro pernas e assim sucessivamente. O nosso peso também é controlado durante a semana, tal como as horas de sono. Tem havido um controlo de tudo», conta João.

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Até quando vai isto durar? Na semana passada, a Federação Portuguesa de Futebol anulou todas as provas dos escalões de formação, decisão inédita que teve impacto em milhares de jovens. «Abdicámos de tanta coisa e foram muitas horas de trabalho ao longo do ano… Ver uma época sem campeão é estranho, mas penso que foi a decisão mais acertada, porque a saúde é o mais importante», compreende.

Esta época, João Daniel somou 22 jogos pelos juniores do Sporting e envergou algumas vezes a braçadeira de capitão. De pé está ainda possibilidade de voltar a jogar na Liga Revelação, onde fez quatro partidas, mas a expetativa é baixa. «Sinto que este ano não vou voltar a jogar futebol. Estou a trabalhar para qualquer cenário, mas acredito que já só se jogue na próxima época.»

A voz e o semblante do outro lado do ecrã esmorecem, mas o jovem médio faz, ainda assim, um balanço muito positivo da temporada. Estreou-se pelos sub-23 e em outubro de 2019 foi chamado por Silas durante uma pausa para as seleções.

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«Isso foi um sonho tornado realidade. Eu estava a vir de comboio para baixo e recebi uma chamada do meu mister a dizer-me que eu ia treinar com a equipa principal. Senti logo um frio na barriga. Estar no balneário e partilhar o campo com jogadores que vemos na televisão ou com que jogamos na PlayStation é incrível. Treinar com a equipa principal é o auge.»

«No início, quando cheguei ao Sporting a maior parte das vezes chorava com saudades:

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João Daniel tem o plano de uma vida traçado desde 2015, quando cruzou os portões da academia pela primeira vez e convenceu Aurélio Pereira a integrá-lo na formação do Sporting após ter passado por Varzim e Rio Ave.

Era um esboço. Agora, superadas há muito as dificuldades iniciais de adaptação com lágrimas à mistura, contrato profissional assinado e a equipa principal mais perto de ser uma realidade, tem contornos bem vincados.

Mas, agora, a luta imediata daquele que é um dos cerca de 65 jogadores residentes na academia de Alcochete é outra: ficar em casa. Pelo abraço verdadeiro da família à espera, o passeio perto da praia – «Hoje valorizo mais isso» – e o sonho de chegar lá acima e ser um entre aqueles que cresceu a admirar: William Carvalho, Rúben Neves e Busquets.

João Daniel e o primeiro treino com a equipa principal do Sporting:

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