Nápoles. Capital da pitoresca região da Campania, cidade com mais de um milhão de habitantes, quase todos eles fanáticos do clube local, um ícone do futebol da região, amado na cidade e odiado por quase todos os adeptos dos outros clubes italianos. É assim a cidade do Vesúvio, amável mas com um lado negro que nunca pode ser esquecido. E se o vulcão das proximidades não tem expelido lava, o do San Paolo está em permanente ebulição, entusiasmado com uma equipa que pratica do melhor futebol que se vê por terras transalpinas e, mais importante, vai lutando por coisas grandes.

É com este cenário que o Benfica se irá deparar esta quarta-feira, num encontro que ganha contornos de importância (quase) extrema, depois do inesperado golo de Talisca aos 93 minutos ter deixado a equipa encarnada sem dois pontos potencialmente preciosos na primeira ronda. O futuro na Liga dos Campeões pode não estar dependente do jogo do San Paolo, mas Rui Vitória e os jogadores por ele comandados sabem que uma vitória pode servir como rampa de lançamento para o exigível apuramento para os oitavos de final.

O desafio é considerável: os napolitanos venceram todas as partidas caseiras no campeonato até aqui e abriram a Liga dos Campeões com uma vitória muito meritória na sempre complicada e imprevisível viagem a Kiev. É um Nápoles que ainda não perdeu na temporada aquele que o tricampeão nacional irá enfrentar nesta segunda jornada. Uma equipa bem trabalhada e com uma estrutura sólida, com os fundamentos de um treinador sábio, experiente e peculiar.

Sim, falarmos do Nápoles atual significa não poder deixar de parte um técnico que é uma personagem querida dos conterrâneos e que demonstra uma personalidade invulgar. Maurizio Sarri, um ex-economista que começou a treinar clubes amadores no início dos anos 90, chegou à cadeira de sonho no ano passado, depois de um trabalho valorável no Empoli. Com ele, levou um modelo de jogo que faz da posse de bola e da pressão alta dos jogadores mais adiantados bases para o sucesso. Logo na primeira época, encantou adeptos e analistas, tendo levado a formação napolitana ao segundo lugar na Série A.

Para a nova temporada, no saldo entre entradas e saídas, pode-se dizer que o Nápoles não ficou, pelo menos para já, a perder. É verdade que perdeu o goleador Gonzalo Higuaín para um rival direto (a Juventus), recrutando para o lugar o polaco Arkadiusz Milik, ex-jogador do Ajax e que para já soma seis golos em sete partidas oficiais. De resto, apenas se registaram saídas de jogadores com protagonismo secundário, por contraponto com as várias chegadas, em particular de jovens promissores, como Diawara, Marko Rog, Zielinski, Maksimović e ainda dos italianos Tonelli e Giaccherini.

1-4-3-3 de vocação ofensiva, com armas perigosas na frente

ONZE-TIPO

O Nápoles de Sarri tem como sistema preferencial o 1-4-3-3, podendo o triângulo do meio-campo ser invertido consoante os momentos do jogo ou as características do adversário.

Espera-se que o «onze» inicial para o desafio frente à turma benfiquista não vá ser muito diferente da equipa-base de Sarri: o espanhol Reina estará na baliza; o quarteto defensivo será constituído por Hysaj, à direita, pelos centrais Raúl Albiol e Koulibaly e por Ghoulam do lado esquerdo; no meio-campo teremos Jorginho como base e centro das ações, acompanhado muitas vezes de perto pelo incansável Allan (ou por Zielinski) e com Hamšík como interior com liberdade para se mover por todo o meio-campo ofensivo; no ataque, ao que tudo indica, teremos o fixo Callejón na direita, Milik ao centro e Lorenzo Insigne ou Dries Mertens na esquerda.

Como já vimos, esta equipa do Nápoles gosta de ter o protagonismo no jogo, jogando com bola, apostando em jogar com as linhas próximas, de forma a ter muitas opções de passe e procurando acelerar o jogo no último terço, através das ações dos extremos e do apoio em profundidade e na largura dos dois laterais, Hysaj e Ghoulam, ambos dotados na arte do «overlapping» (ou seja, fazer a aceleração rumo à linha, ficando o ala numa posição mais recuada).

Um bom passo para derrubar este Nápoles passa por perturbar o médio Jorginho, brasileiro naturalizado italiano, que é a sustentação do trio do meio-campo napolitano. Taticamente evoluído, com boa leitura de jogo e critério no passe, pode sentir dificuldades se se vir apertado por uma marcação intensa e agressiva. Deixá-lo assumir a saída de bola pode ser perigoso, mas importa também condicionar a saída dos restantes médios e, em particular, de Hamšík, que muitas vezes baixa para se conectar aos outros médios e ganhar espaço para arrancar rumo à zona onde é mais influente. O eslovaco é, aliás, a peça-chave desta equipa, não só pela acutilância ao nível do passe e remate, como também das movimentações, refinadas e inteligentes, que buscam sempre o espaço livre, em ruturas surpreendentes.

Movimento de Hamsik, entre os centrais, fazendo a diagonal exterior e ganhando o espaço para apontar aquele que seria o segundo golo do Nápoles frente ao Chievo
 

Outro aspeto fundamental da organização ofensiva do Nápoles é o protagonismo que os centrais assumem na saída de bola. Tanto Albiol como sobretudo Koulibaly galgam metros com bola, com os restantes companheiros a oferecerem várias linhas de passe.

Saída de Koulibaly, com os apoios frontais bem definidos. Várias vezes é possível ver também os extremos mais por dentro oferecendo essas linhas de passe
 

As ações ofensivas do Nápoles são quase todas bem gizadas, em posse, mas de forma rápida e vertical. Os movimentos interiores dos extremos são chave, bem como as subidas dos laterais, além das já referidas ações de Marek Hamšík. No centro do ataque, têm alternado Milik e Gabbiadini, dois avançados com algumas diferenças, mas que oferecem também bons apoios e emprestam faro de golo à equipa. O polaco deverá ser o titular frente ao Benfica, portanto os «encarnados» que se cuidem: além de se mover de forma criteriosa e inteligente, atacando o melhor espaço, sabe segurar a bola e remata bem, dentro e à entrada da área, por norma de pé esquerdo.

Defensivamente, o Nápoles promove uma reação intensa e imediata à perda, em especial se esta ocorrer nas proximidades da área adversária. Os elementos do espaço ofensivo saem para «asfixiar» e tentar condicionar ao máximo a saída de bola rival.

Ação reativa à perda, uma marca de água do conjunto orientado por Maurizio Sarri
 

Noutras vezes, é possível ver como o Nápoles procura agrupar o bloco defensivo, baixando e juntando linhas quando o adversário tem a bola mais próximo da área de Reina. Os extremos acompanham o movimento dos laterais, que ficam a fechar mais por dentro. Uma das maneiras de o Benfica poder contrariar esta organização é procurar variar o centro do jogo de forma rápida, buscando surpreender o adversário e apostar em cruzamentos para as costas do lateral do lado oposto. Importa ainda referir que a técnica e a velocidade de jogadores como Cervi ou Pizzi pode ser importante no um-para-um perante Hysaj, um belíssimo lateral, mas que pode sofrer um pouco perante jogadores mais rápidos e imprevisíveis.

Organização defensiva do Nápoles. O quarteto defensivo fica a fechar por dentro e os alas (assinalados com círculos) ocupam o espaço exterior. Bem visível o trio de médios em linha, tentando controlar os centrocampistas contrários
 

Quanto às bolas paradas, é possível percecionar que do ponto de vista ofensivo, em livres laterais e cantos, há uma movimentação de quatro a seis homens, por norma, no ataque à bola. Os centrais (que procuram partir de trás para tentar ganhar em antecipação) e o ponta-de-lança são uma fonte de perigo, dadas as qualidades reveladas no jogo aéreo.

Em termos da defesa de bola parada, tanto em cantos como em livres laterais, é notória uma marcação zonal, com um preenchimento bem definido dos espaços.