Ao marcar três golos num clássico entre FC Porto e Sporting, Cristian Tello conseguiu uma proeza que já não se verifica há mais de 32 anos. Foi, com efeito, a 30 de janeiro de 1983 que o sportinguista Rui Jordão marcou por três vezes, num empate com o FC Porto em Alvalade (3-3).



Para encontrarmos o último jogador do FC Porto a marcar por três vezes ao leão é preciso recuar 38 anos, até 27 de março de 1977, mais precisamente: foi nesse dia que  António Oliveira  conseguiu um hat-trick na goleada ao Sporting (4-1), no estádio das Antas. 

A proeza individual de Tello ficará para os livros, a marcar um clássico que mudou a tendência desta temporada: a primeira vitória do FC Porto de Lopetegui com um grande de Lisboa, e primeira derrota de Marco Silva como técnico dos leões diante de Benfica e FC Porto. Mas uma análise mais fria ao jogo do Dragão, com o apoio dos dados recolhidos pelo Centro de Estudos do Futebol da Universidade Lusófona, em exclusivo para o Maisfutebol, permite sustentar, com apoio dos números, um jogo que, na verdade, teve sentido único, à exceção dos primeiros 20/25 minutos.

Começando precisamente por Tello, uma curiosidade, que dificilmente pode ser considerada coincidência: o facto de os seus três golos terem nascido de lances praticamente idênticos, quer na forma como os passes aproveitaram deficiências na linha de fora de jogo do Sporting, quer no espaço escolhido para a sua entrada em velocidade – entre Jonathan e Tobias Figueiredo – quer, por fim, na forma como o extremo finalizou, sempre para o seu poste mais próximo, o lado esquerdo de Rui Patrício.



A análise aos dados do jogo sugerem que o Sporting manteve um aparente equilíbrio até ao primeiro golo, mas que a partir daí a resistência se esvaziou sem remédio – deixando no ar a dúvida sobre onde começou o impacto psicológico da desvantagem e onde acabou o desgaste físico do jogo com o Wolfsburgo, menos de 72 horas antes.

Os dois fatores terão concorrido para o acentuar da quebra leonina no segundo tempo, visível a olho nu, mas sustentado por dados. Na etapa complementar, só ao terceiro minuto de descontos, no último lance da partida – e na sequência de um livre... - é que o Sporting tentou visar a baliza de Fabiano. O total de remates (16/4 para o FC Porto) indica ainda duas coisas: por um lado o FC Porto teve rendimento equilibrado na criação de oportunidades durante o jogo, já que rematou oito vezes em cada meio tempo. Por outro, o Sporting foi de menos a mais, rematando três vezes na primeira meia hora, seguindo-se um deserto de quase 60 minutos na aproximação à área portista.



Nos restantes dados, salta à vista um fenómeno invulgar: o Sporting teve 91% de perdas de bola ainda no seu meio campo. São números de equipa sufocada, já que apenas nove por cento dos lances da equipa de Marco Silva permitiram recuperações do FC Porto em zonas recuadas, perante uma defesa leonina mais organizada. É básico: quanto mais atrás se perde a bola, menos preparada a equipa está, e mais se desgasta para compensar os erros. Isso ajuda a explicar a quebra de rendimento no segundo tempo, em conjunto com o já referido desgaste físico.



Por fim, outro sintoma da quebra leonina – e aí, mais psicológica do que física, já que está relacionada com questões de concentração - prende-se com os lances de bola parada, que o FC Porto tornou mais perigosos com o passar do tempo. Se, na primeira parte, a situação foi equilibrada, o acentuar do domínio portista traduziu-se num maior número de situações criadas no segundo tempo, com destaque para a bola na trave, de Marcano, já com o marcador em 3-0.



Como consequência de tudo isto, o FC Porto praticamente nunca perdeu uma bola no seu meio campo, e esteve sempre organizado quando o Sporting iniciava a construção ofensiva. Isso facilitava a recuperação mais à frente, logo na ligação entre a defesa e o meio-campo dos leões, e recomeçava o ciclo infernal de que o leão nunca se conseguiu livrar.
Nuno Madureira