Determinante para as contas do grupo I, a vitória de Portugal sobre a Sérvia (2-1) foi conseguida graças a um pragmatismo que tem tradução nos números. A análise feita pelo Centro de Estudos do Futebol da Universidade Lusófona, em exclusivo para o Maisfutebol confirma-o e aponta algumas pistas para o sucesso num jogo que, para utilizar uma expressão da moda, não teve nota artística especialmente alta mas se caracterizou pelo controlo quase total dos riscos.

Este «quase» é importante, claro: o golo de Matic, aos 61 minutos, foi uma exceção a esse controlo e poderia ter mudado o curso do jogo. Tanto mais que surgiu na sequência de um pontapé de canto, - um dos pontos fortes da Sérvia em situação ofensiva, identificado desde o início da operação. Nessa altura, a lentidão de Eliseu na saída para o fora de jogo imitou o comportamento de Ivanovic no primeiro golo português, comprometendo a estratégia lusa, curiosamente no primeiro remate da Sérvia enquadrado com a baliza.

Comecemos por aí: olhando para os números absolutos, a Sérvia superou o número de remates (9/11) e equilibrou a posse de bola (53/47). Mas a verdade é que, à exceção dessa falha defensiva lusa, num lance de bola parada, não conseguiu lances de real perigo para a baliza de Rui Patrício, que fez apenas duas defesas em todo o jogo: dos 11 remates sérvios, só três seguiram na direção da baliza portuguesa e, à exceção do golo de Matic, só uma cabeçada de Mitrovic, na única transição rápida que os sérvios conseguiram, lhes permitiu uma finalização na área, felizmente por cima (54 minutos).



Para explicar este controlo defensivo, foi fundamental a grande segurança de passe nas duas primeiras fases de construção: como os gráficos demonstram (fig.2, 3 e 4) Portugal nunca perdeu uma bola nas proximidades da grande área defensiva, ao contrário da seleção sérvia que, graças à boa pressão defensiva dos jogadores mais adiantados de Portugal, tropeçou algumas vezes nas imediações da baliza de Stojkovic. Isso, como se sabe, é o primeiro passo para retirar profundidade a uma equipa: com a saída bloqueada, os sérvios recuaram mais as linhas e atenuaram a pressão sobre a defesa lusa. A tentação de resolver os problemas na saída com bolas longas permitiu a Bruno Alves evidenciar toda a sua experiência e tempo de salto, mantendo Mitrovic longe da ação.



E quando os sérvios corrigiam esse aspecto – sensivelmente entre os 15 e os 30 minutos - emergia a ação de João Moutinho e Tiago, no duplo papel de temporizadores e de recuperadores, para devolver a Portugal o controlo do jogo. Os 30% de bolas recuperadas no meio campo da Sérvia, contra apenas 11% dos sérvios no meio-campo português (e sempre longe da área), acabam por ser a estatística mais relevante deste jogo.

Outro aspeto importante foi a arrumação tática de Portugal, novamente com Danny num papel híbrido, nas costas de Nani e Ronaldo. Em termos defensivos, isso traduziu-se em pressão sobre Matic, cuja influência na construção foi muitas vezes atenuada ou eliminada. Outra preocupação crónica, a sobrecarga no flanco esquerdo da defesa lusa, para resguardar Cristiano Ronaldo na frente, foi bem resolvida com o papel de Fábio Coentrão, uma das figuras da partida, com uma assistência e um golo. É justo, entretanto, sublinhar que na fase em que Coentrão acusou desgaste, e depois da sua saída, Cristiano Ronaldo revelou uma disponibilidade defensiva para a recuperação superior ao que vem sendo habitual, ajudando Portugal a manter fluidez e posse de bola, para uns minutos finais de gestão com poucos ou nenhuns sobressaltos.



Nem tudo foi positivo, porém, na vitória portuguesa. Alguns incidentes negativos, com destaque para a lesão prematura de Ricardo Carvalho, acabaram por não ter grandes consequências no filme – José Fonte manteve os padrões de segurança elevados, embora com menos soluções de construção – mas é verdade que Portugal não conseguiu tirar partido de um golo madrugador, e de uma conjuntura favorável para matar o jogo.

As transições ofensivas rápidas, fundamentais numa equipa em que homens rápidos como Nani e Cristiano Ronaldo são os homens mais adiantados foram demasiado escassas, como o próprio Fernando Santos reconheceu: «Sabíamos que a Sérvia tinha algumas dificuldades quando perdia a bola no seu terço de construção. Aí, em especial na primeira parte, houve algumas situações em que podíamos ter acelerado e parámos», admitiu o selecionador. Estaria, por certo, a pensar no exemplo do segundo golo português: do passe de rutura de Cristiano Ronaldo para a elipse saída dos pés de Moutinho, até à finalização do extremo Coentrão, esse foi um dos raros momentos em que o plano ofensivo foi cumprido de uma ponta a outra. Com mais exemplos destes a completar a segurança defensiva, o filme teria, por certo, ficado resolvido mais cedo.

Mas não vale a pena sermos picuinhas esquecendo o essencial: a meio caminho desta qualificação, Portugal recupera a falsa partida e chega ao lugar onde quer estar, deixando um dos rivais diretos a oito pontos de distância. O resto, é para ir melhorando com o tempo.
Nuno Madureira