Vários estudos realizados no último ano indicam que a pandemia de covid-19 teve um impacto significativo no número de casos de ansiedade, que registaram um aumento entre os adultos, mas também nas faixas etárias mais jovens. Mas este problema não se verificou apenas entre os seres humanos - também os animais de companhia sofreram (e continuam a sofrer) com a ansiedade, sobretudo a ansiedade por separação, tal como adiantou à CNN Portugal Sílvia Machado, diretora-geral do Instituto do Animal, em Marvila, Lisboa.

“Desde que a pandemia começou, (...) quase 50% dos problemas que aparecem hoje em consulta são de ansiedade por separação”, indicou, acrescentando que, anteriormente, este era um “problema minoritário”, que raramente surgia em consulta.

Mas o que é, afinal, a ansiedade por separação? De acordo com Gonçalo da Graça Pereira, médico veterinário especialista em comportamento animal, trata-se de uma síndrome que se manifesta quando os animais de companhia são deixados sozinhos ou separados da figura de vínculo. Este problema tornou-se mais evidente, por isso, "nos períodos pós-confinamentos", altura em que os animais, que já estavam habituados à companhia dos donos durante todo o dia, ficaram novamente sozinhos em casa durante largos períodos de tempo, com o regresso à "vida normal" dos donos. 

Destruição, a vocalização e eliminação - os principais sinais

Segundo Gonçalo da Graça Pereira, existem "três sinais típicos" da ansiedade nos animais, nomeadamente "a destruição, a vocalização e a eliminação das necessidades fisiológicas dentro de casa".

Isto acontece porque o animal "perde o controlo quando fica sozinho, e então destrói aquilo que o separa dos tutores - a ombreira da porta, ou até o chão debaixo da porta, na tentativa de ir procurar o dono", explicou o especialista, em declarações à CNN Portugal.

Mas "há outros sinais mais discretos", acrescentou, como "fazer uns cumprimentos muito exagerados" quando o dono chega a casa, ou ser o que o médico especialista designou por "cão-sombra", o que acontece quando o animal "segue o tutor por todo o lado da casa", mesmo quando se tratam de ausências curtas.

"Alguns animais também começam a tremer quando vêem que os donos vão sair, começam à procura de mais atenção ou , em alguns casos raros, chegam até a manifestar alguns comportamentos de agressividade na tentativa de evitar que a pessoa saia de casa", apontou o médico veterinário.

Além destes sinais, o especialista salientou também os comportamentos compulsivos, que se manifestam, por exemplo, quando o animal lambe as patas excessivamente ou arranca o próprio pelo. Isto acontece porque o animal procura "uma forma de compensar algo que, na sua perspetiva, não está equilibrado e, portanto, vai tentar compensar com atividades que lhe dê prazer".

Não há "solução milagrosa", mas sim "dedicação" dos tutores

Questionado sobre o que devem os donos fazer nestas situações, o médico-veterinário salientou que este é o problema que "não se deve adiar" e que requer ajuda especializada, até porque, apontou, "não há uma solução milagrosa". 

"Se adiarmos, o problema não tem tendência a melhorar, mas sim a piorar. Muitas vezes decidimos esperar para ver se melhora - não façam isso", alertou.

Os tutores devem "procurar ajuda habilitada" para fazer um diagnóstico correto, uma vez que, "no caso destes problemas e de muitos outros do foro comportamental convém sempre descartar outras doenças", considerou. Depois de descartados outros potenciais problemas, e tratando-se, de facto, de um caso de ansiedade, Gonçalo da Graça Pereira apelou à procura por "ajuda habilitada e certificada", com especialistas em comportamento animal.

Por último, o médico veterinário lembrou que "não há solução milagrosa" para resolver este problema, pelo que a sua resolução passa por "um trabalho que implica muita dedicação do tutor".  

Foi isso que fez a família Ribeiro, que, em abril do ano passado, decidiu adotar a Bloom através de uma página da Internet, uma cadela que tinha acabado de nascer e que precisava de um lar. Nos primeiros tempos, contudo, a adaptação da Bloom não foi fácil, e foi "relativamente complicado educá-la", como contou a família, em declarações à CNN Portugal.

"Ela era muito irrequieta e muito desengonçada, saltava para cima de tudo e mais alguma coisa, era muito dependente, ao ponto morder ou puxar as mãos se estivéssemos ao pé dela sem lhe fazer festinhas ou a brincar com ela, para chamar a atenção", começou por dizer Joana Ribeiro, a filha mais velha da família.

Apesar de dócil e meiga, Bloom "não sabe estar sozinha em casa", contou Lurdes Ribeiro, mãe da família. "Quando fica sozinha, só faz disparates", acrescentou, enumerando, de seguida, todos os percalços de que se recordava: "Roeu a parede, fez dois buracos na parede, roeu os móveis, mantas e toalhas. Chegou a roer um livro."

Entretanto, a família Ribeiro decidiu inscrever Bloom numa escola de treinos, o Instituto do Animal, onde, ao longo de três semanas, aprenderam a educar a cadela, na altura com pouco mais de um ano. 

"Foram seis aulas, três semanas, duas vezes por semana. O foco das aulas era sobretudo o dono, ensinar o dono a ensinar o cachorro, o que contribuiu muito para a socialização da Bloom", contou Joana, acrescentando: "Ao início a Bloom era muito possessiva, chegava a ir buscar a comida dos outros cães, mas não deixavam que lhe fizessem o mesmo. Essas aulas também nos ajudaram a conhecer a Bloom em várias situações, a perceber como é que ela respondia a determinadas situações. Hoje em dia conseguimos dar comida a outros cães e ela deixa, dá-se bem com todos."

Beatriz Céu