Marcelo Rebelo de Sousa acabou por ser o convidado inesperado no arranque do primeiro debate para as legislativas, com o desejo de “virar a página” expresso na mensagem de Ano Novo. PS e Livre recuperaram a expressão. Só diferem no modo de fazê-lo.

“É preciso virar a página. Mas é preciso virar a página para a frente e não para trás”, começou Rui Tavares, cabeça de lista do Livre por Lisboa. António Costa lembrou que, à esquerda, com este rival, há semelhanças. “Mas, nestas eleições, a escolha é saber se a página que viramos é para prosseguir ou é uma página de retrocesso. E essa escolha faz-se entre quem é o primeiro-ministro, eu ou Rui Rio.”

Vídeo: Rui Tavares quer um acordo de esquerda, Costa só quer "estabilidade". O essencial do debate em três minutos

Um acordo para escrutinar, uma maioria para dialogar

Foi Rui Tavares o primeiro a colocar o cenário de um (novo) acordo à esquerda em cima da mesa, perante uma “geringonça que não se escangalhou sozinha”. “Podemos fazer um pacto para uma maioria social, progressista e ecológica”, assente num novo modelo de desenvolvimento económico, sugeriu. Mas foi com uma rima que resumiu, aos eleitores, a importância de um documento escrito: “Um acordo assinado é um governo escrutinado”.

Costa respondeu sempre com uma palavra, “estabilidade”, para que o "risco" de novos chumbos de Orçamentos do Estado não se repita. Apesar de insistir numa maioria nas urnas, não fechou a porta ao diálogo:

"A forma mais segura de termos estabilidade é dar-nos uma maioria. E dar-nos uma maioria não é governar sozinho. Agora, não podemos ficar na dependência dos humores, das jogadas políticas e das movimentações táticas dos outros partidos".

Mesmo que a relação com Bloco de Esquerda e PCP não esteja na melhor fase, Costa ainda acredita que será possível novas alianças. “Não vou reerguer os muros que derrubei", confessou neste primeiro debate.

O outro Rui, o inimigo número 1

Era Rui Tavares quem estava à frente de António Costa, mas o alvo foi outro Rui ao longo de todo o debate televisivo: o presidente do PSD, Rui Rio. “O que nós não podemos ter é um governo do Dr. Rui Rio” ou “Um voto no Livre não nos livra da Direita” foram apenas dois dos momentos para vincar quem é o verdadeiro opositor.

Do outro lado da mesa, Rui Tavares insistia nos riscos de um bloco central, mesmo que Costa e Rio descartem esse cenário – quanto muito, o líder social-democrata, diz negociar uma viabilização do governo socialista em caso de vitória. Para o fundador do Livre, tanto maiorias absolutas como blocos centrais são “indesejados”, “principalmente numa década em que vamos aplicar fundos europeus” para a recuperação pós-pandemia. “Termos os dois maiores partidos no governo, com interesses cruzados, nunca é bom para o país”, avisou.

A promessa da subida dos salários, para aliciar eleitores

E como é que Costa se distingue de Rio? Para já, pela promessa da subida dos salários, incluindo o mínimo para os 850 euros até 2025.

“Um governo de Rui Rio será um governo que nem o salário mínimo aumenta, quanto mais o salário médio”, atirou o secretário-geral do PS.

Da parte do Livre, que quer o salário mínimo nos mil euros, ficou um novo alerta, no sentido de um novo acordo: “um partido a governar sozinho não conseguirá dar resposta” à “armadilha dos salários baixos”. Para Rui Tavares, o grande motor de uma nova economia tem de ser o “conhecimento”.

Após o debate, o atual primeiro-ministro recorreu às redes sociais para vincar, uma vez mais, as diferenças face ao presidente social-democrata.