«Meglepetés»: é como se diz surpresa em húngaro e os franceses bem podem aprender a palavra.

Esta tarde, a campeã do mundo foi travada numa Arena Puskás em delírio, com a Hungria a empatar 1-1, protagonizando uma das maiores surpresas deste Euro 2020 até ao momento.

Foi arrepiante ver como uma equipa substancialmente superior pode afinal ser parada: por um público absolutamente incondicional e por uma seleção cheia de alma.

Um coração enorme pode esbater todas as diferenças.

O golo de Fiola, dois minutos depois dos 45, foi decisivo para o desfecho e gritado até durante as repetições nos ecrãs gigantes do estádio.

No entanto, tudo isto até começou dentro dos cânones. A Hungria num 3-5-2 que na maior parte do tempo era 5-3-2 mostrou-se mais atrevida do que contra Portugal nos primeiros minutos, mas os franceses haviam de tomar conta do jogo e tornar-se crescentemente mais perigosos com as combinações na frente entre Griezmann, Benzema e Mbappé.

Se em relação ao primeiro jogo, Marco Rossi trocou Lovencsics por Loic Nego (ex-sub 19 francês) no onze, Deschamps havia de lançar Digne no lugar de Hernández num 4-3-3, que se transformaria na segunda parte em 4-2-4.

Mbappé esteve com a mira desacertada e falhou o alvo em dois cabeceamentos, até servir com toda a classe de calcanhar Benzema para um falhanço do tamanho do estádio.

A França passou a primeira parte no desperdício, marcou a Hungria já nos descontos e foi para o intervalo a vencer.

Nota curiosa, apesar de a meio do jogo os gauleses terem o dobro da posse de bola (67%-33%) e mais do dobro dos remates (7-3) e dos passes completos (351-128), foram os húngaros a correrem mais três quilómetros e meio (53,8 contra 50,3 kms).

Coração e Pulmão. Haveriam de ser decisivos para os magiares travarem uma seleção com outros argumentos.

A perder, a França construía a partir de trás, com Kanté ou Rabiot a baixarem e laterais a ficarem bem abertos. Os espaços, porém, eram escassos. O harmónio húngaro encolheu e o jogo passou a jogar-se em 30 metros no meio-campo defensivo dos magiares.

Deschamps não esperou pela hora de jogo para tentar abrir a frente de ataque ainda mais: Dembelé no lugar de Rabiot.

A insistência haveria de ser parcialmente recompensada quando Griezmann finalmente encontrou o caminho da baliza de Gulacsi, quase intransponível esta tarde.

O resto foi sofrimento para os húngaros, com cada bola dividida a parecer uma batalha. Com Sallai a encarar os defesas com 50 metros pela frente e partir à aventura como se cada contra-ataque fosse uma expedição.

Heróis, como na Praça que encima a Avenida Andrassy, que tem ares de Campos Elísios.

Esta tarde, na Arena Puskás, o futebol húngaro terá alcançado um dos mais triunfais empates da sua história.

No final, depois dos 90 minutos, a comunhão entre equipa e adeptos nas bancadas foi intensa.

Um momento de celebração que se estendeu uns bons dez minutos com volta olímpica e uma enorme salva de palmas.

Coração enorme pulsa aqui em Budapeste.

Sérgio Pires / Arena Puskás, em Budapeste