«Nunca recebi presentes do senhor Manuel Godinho, a não ser uma caixa de robalos e um equipamento desportivo para o meu filho», revelou Armando Vara aos jornalistas, à saída do Juízo de Instrução Criminal, no final do interrogatório do processo «Face Oculta».

Já passava da meia-noite quando o vice-presidente do Millenium BCP, que suspendeu funções na sequência do processo, saiu do JIC de Aveiro.

O interrogatório terminou, mas o arguido ainda terá de regressar a Aveiro, em data a fixar, para conhecer as medidas de coacção que o juiz António Costa Gomes decidir fixar-lhe.

Vara: «Estou satisfeito com as respostas que dei»

«Tive resposta para tudo», adiantou o ex-ministro que, ainda assim, não conseguiu ver terminado o «pesadelo» que confessou estar a viver desde que foi constituído arguido no processo.

Vara: «Espero que este pesadelo termine hoje»

Sobre as relações que mantinha com o empresário de Ovar, principal arguido e o único em prisão preventiva, Armando Vara referiu que se tratava de «um relacionamento bancário, primeiro na Caixa Geral de Depósitos e mais tarde com o intuito de ganhar um cliente para o Millenium BCP».

«Nunca tive nenhuma atitude que favorecesse o senhor Manuel Godinho. Tudo o resto são invenções».

O arguido que surge indiciado por crimes de tráfico de influências, designadamente por ter apresentado Manuel Godinho ao administrador da EDP Imobiliária, Paiva Nunes, alegadamente para que este favorecesse as empresas do sucateiro, em troca de contrapartidas, explica que o cruzamento de contactos «resultava da sua actividade profissional». «Fiz milhares desses telefonemas», diz.

A investigação refere que Vara pediu 10 mil euros por ter patrocinado esse encontro, facto que o ex-governante rejeita liminarmente.

«Há qualquer coisa inventada ali» e «se não for (ilibado) agora, será noutra fase do processo», afiança.

Finalmente, sobre a possibilidade de o procurador-geral da República tornar públicos os despachos que ditaram o arquivamento das escutas de Armando Vara com José Sócrates, o arguido é categórico: «Isso são conversas privadas que devem ficar privadas».

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Sobre o alegado pedido de 10 mil euros, fonte da defesa adiantou ao «tvi24.pt», tal como já o havia feito a 18 de Novembro, durante o primeiro dia de interrogatório, que nada constava dos elementos consultados, designadamente das escutas telefónicas.

O juízo de instrução criminal de Aveiro disponibilizou ao arguido os alegados indícios constantes dos autos, por forma a preparar a sua defesa, mas Vara nunca teve acesso às polémicas escutas com o primeiro-ministro, José Sócrates, cuja destruição o presidente do Supremo Tribunal de Justiça determinou. Refira-se que as intercepções telefónicas não foram ainda destruídas.

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Cláudia Rosenbusch