“A China é nossa parceira mas não é nossa aliada”

Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros

“Os Direitos Humanos são pelo menos tão importantes como o comércio”

Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu

“Podemos chegar a um grande acordo comercial com a China num espaço de quatro semanas. As coisas estão a correr bem”

Donald Trump, presidente dos EUA

 

A China ainda não ultrapassou os EUA no valor da sua economia e ainda faltarão algumas décadas para poder desafiar a liderança indiscutível do exército americano.

Mas a grande história das primeiras décadas do século 21 já é a ascensão de Pequim no palco mundial.

Quase todos os livros e artigos sobre política internacional e geoestratégia dos últimos anos lançaram um aviso, entre a preocupação e uma certa perplexidade: o domínio americano tem mesmo os dias contados.

A “retração” de Washington começou na fase final da presidência Bush, acentuou-se com Obama e agravou-se com a plataforma unilateralista e nacionalista do “America First” da presidência Trump.

Enquanto isso, a Europa vive entre o pânico e o estado de choque -- Trump hostil ao projeto europeu e a subir a fasquia de exigências aos aliados da NATO; Brexit em contagem decrescente e ainda sem acordo que trave o desastre; Le Pen e “coletes amarelos” a ensombrar a liderança Macron, que parecia ser a última esperança europeia; Merkel de saída da chancelaria de Berlim; Orbán, Salvini, novos nacionalismos e populismos autoritários a ameaçar o resultado das eleições europeias de maio.

Em 2013, o então Presidente Obama lançou a ideia de um megaespaço americano-europeu (político, económico, social) para fazer frente ao crescimento chinês. Mas as diferenças de “standard” entre os dois lados do Atlântico fizeram com que um grande acordo falhasse, preso ao diabo dos detalhes.

A eleição de Donald Trump para a Casa Branca, em novembro de 2016, matou de vez esse sonho de fazer do Oceano Atlântico um grande lago de cooperação e prosperidade.

A hora da China

Sem as restrições de processos eleitorais ou sustos de ordem política, a China avançou decisivamente na última década.

O Presidente Xi, legitimado em 2017 com poderes só equiparados ao que teve Mao no Partido Comunista Chinês, assumiu o objetivo: fazer da China a maior potência global nas próximas décadas.

Ao mesmo tempo que, de Washington, assistimos nos últimos anos a promessas de retiradas militares e reduções de influência económica em diversas partes do mundo, de Pequim surgiram planos de investimento e construção na Ásia, em África e na Europa.

A China ultrapassou o Japão no segundo lugar das maiores economias mundiais em 2012. Nesse ano, a economia chinesa representava 59% da americana. Em 2018, essa percentagem já era de 75%. É mesmo uma questão de tempo.

Nem tudo têm sido sinais animadores para o caso chinês, no entanto.

O crescimento anual de 10% registado desde os anos 90 reduziu-se, desde 2017, para cerca de 7% ao ano – ainda assim mais do dobro do que tem ocorrido nos EUA e o quintúplo do crescimento económico na UE.

A China foi, claramente, o país que mais beneficiou com a globalização. Aquele que melhor soube aproveitar a revolução digital. E a junção desses dois trunfos está a permitir-lhe ser o grande investidor global do nosso tempo.

Pequim já rivaliza com Washington em artigos científicos publicados por ano, no número de patentes registadas (num só ano, de 2017 para 2018, a China reduziu de 7500 para 1500 a desvantagem para os EUA nesse indicador) e até na conquista espacial.

Os chineses compram portos importantes na Europa, adquirem capital maioritário de setores estratégicos em países africanos e europeus (incluindo Portugal), apostam no desporto, no lazer e nas novas tecnologias.

O grande projeto global deste final de segunda década do século 21 é chinês, na conjugação marítima e terrestre da Nova Rota da Seda.

Isso é bom, porque significa entrada de novos capitais para empresas que estariam em risco de cair.

Isso é mau, porque o modelo de crescimento chinês não se coaduna com os nossos parâmetros de exigência ao nível das relações laborais, das realidades salariais e dos direitos dos cidadãos.

EUA vs China: grande acordo ou escalada brutal?

Pelo meio, a tensão EUA/China marca o tom do comércio internacional.

A retórica de campanha de Donald Trump foi muito agressiva contra os chineses, acusando-os de serem desleais e prejudicarem os interesses americanos. Mas a prática do atual Presidente dos EUA ainda não fez confirmar o pior.

A política de tarifas impostas pela Administração Trump tem um efeito duplamente negativo (também é negativa para as empresas americanas), mas afeta sobretudo a China, que é quatro vezes mais dependente das exportações para os EUA.

O momento atual parece dar esperança à ideia de que Donald Trump e Xi Jinping querem verdadeiramente chegar a um grande acordo comercial nas próximas semanas ou meses.

No mínimo, é de prever que americanos e chineses evite a escalada do conflito comercial – que geraria uma retração dramática da economia mundial – e encontrem uma espécie de paz estável nas suas relações económicas, apesar da desconfiança crescente ao nível da espionagem industrial e empresarial, cujo ponto mais crítico tem estado no tema escaldante da Huawei e do controlo pela difusão do “5G”.

Quanto à Europa, poderia ver na China o parceiro ideal para compensar a hostilidade americana enquanto Donald Trump continuar na Casa Branca.

Mas o problema europeu tem um nome: chama-se liderança. A quem deve “telefonar” Xi Jinping quando quiser negociar com a “Europa”.

A Cimeira UE/China, que ontem decorreu em Bruxelas, não nos desfez esta inquietação.

Queremos os chineses para beneficiar do investimento, mas o nosso “mindset” é ainda muito mais americano do que chinês – na estética, no imaginário, no modo de vida, na forma como buscamos um certo equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal.

Ao mesmo tempo, desejamos mas tememos o triunfo chinês.