Do ponto de vista dos destaques noticiosos, tivemos, ao contrário de tantas outros períodos, uma semana equilibrada. A demissão de Theresa May, num mês de maio onde assumiu o fracasso do Brexit, esperando-se agora pela nomeação do seu substituto; uma notícia de última hora [o Barómetro de Notícias é escrito às sextas-feiras] conseguiu o quinto lugar do pódio, a Operação Teia que levou já à detenção de dois presidentes de Câmara do Norte, além do presidente do IPO do Porto a uma empresária (mulher de um dos presidentes). Parece que em causa estão vários contratos entre estes municípios e a empresa da mulher do Presidente de Santo Tirso, a qual está já envolvida noutro processo, com o Turismo do Norte; alturas houve em que o “povo saiu à rua”. Esta semana foi o fisco que foi para a autoestrada mandar parar para cobrar o imposto de circulação a quem devia! Avança um jornal que foram paradas 4.500 viaturas e que foram apanhados 93 portugueses incumpridores. Houve quem visse o carro apreendido por não ter condições ou não querer pagar. Como esta ação foi notícia televisiva o Ministério das Finanças mandou parar a operação e a Autoridade Tributária afirmou que nem sabia que os inspetores tinham ido para a estrada cobrar dívidas... que engraçado é este país...

A segunda notícia com mais destaques, embora, com esta fragmentação, tenha garantido apenas 6% deles, prendeu-se com a conquista pelo Sporting da tão ansiada Taça de Portugal. Num jogo impróprio para cardíacos, o clube lisboeta ganhou, em penáltis, ao Futebol Clube do Porto depois de, aos 120 minutos, as duas equipas estarem empatadas a dois golos. Os sportinguistas deliram ainda com este triunfo, a segunda taça desta época, depois do seu clube se ter sagrado “campeão de Inverno” e o capitão, Bruno Fernandes, diz que a equipa quer mais. E o que quer é o campeonato. Talvez na próxima época. Esperar faz já, aliás, parte do ADN dos sportinguistas que, apesar do tanto que sofreram, tiveram esta semana bons motivos para sorrir. Já Sérgio Conceição... enfim, deu mais uma boa lição do que um verdadeiro líder não pode fazer. A bem do desporto.

Finalmente, foram os resultados das eleições europeias que mais destaques noticiosos mereceram. Nem sempre pelos melhores motivos. 49% dos europeus não foram às urnas. A inércia, a descrença, parece estar presente na cabeça do eleitorado. Mas, se este número é assustador na Europa em geral, quando se conclui que, em Portugal, 65% dos cidadãos com mais de 18 anos preferiu fazer outra coisa que não votar é assustador. É a taxa mais alta em qualquer eleição no nosso país, 1% mais alta que a obtida no referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez, há 21 anos atrás. Reforçamo-nos como povo que gosta de reclamar mas não usar dos direitos que tem e pelos quais tantos lutaram. Isto só não é grave para quem estiver a olhar para outro lado. Não querer fazer parte da escolha dos eurodeputados que, quer queiramos quer não, tomam todos os dias decisões muito importantes para o nosso dia-a-dia é abandonar a possibilidade que temos de decidir quais são as políticas, qual é a orientação do vento político na Europa, numa união de que fazemos parte há 33 anos. É tema que exige uma séria reflexão pois é de cidadania que se fala, da responsabilidade de assumir os direitos mas também o peso dos deveres. Que exemplo estamos a dar às novas gerações? Para onde caminhamos?

Nos partidos, nalguns casos festeja-se, noutros limpam-se as feridas. Pior que o resultado obtido pela direita, somados os votos do PSD e CDS, são as perspetivas para o futuro próximo, uma vez que as legislativas estão aí, daqui a quatro meses. A questão que se coloca é como é que Rio e Cristas conseguirão, neste período reverter uma situação que se perspectiva, neste momento, poder tomar proporções bíblicas. Uma sondagem recente coloca o PSD à impensável distância de 18 pontos para o PS, a roçar os 40% de intenções de voto.

Está calor enquanto escrevo mas, a este nível, o Verão perspetiva-se tórrido.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.