Lembram-se de uma conhecida “socialite” ter afirmado há uns bons anos em entrevista a uma revista de mexericos que “estar vivo é o contrário de estar morto”? É uma lapalissada mas não é um oxímoro. Um oxímoro é, por exemplo, o inolvidável “prognósticos só no final do jogo” (creio que dito por João Pinto, antigo defesa central do FC Porto). A “boutade” de Lili Caneças, vista em contexto, tem sentido: quem não aparece nos media (no seu caso, revistas de mexericos e sucedâneos) não existe e “morre”. É a lei da “vida” mediática. A “vida” mediática, entretanto, mudou muito deste que a Lili e o João disseram o que o que disseram. Ou talvez não. Nos tempos que correm estar morto (para os media “tradicionais”) não é necessariamente não estar vivo.

Embora nas redes sociais e na opinião publicada a situação política no Brasil esteja ao rubro, o assunto não foi destacado nas televisões e jornais, esta semana. Nas redes e nas páginas de opinião multiplicam-se apelos, abaixo-assinados, manifestos e comentários face à provável eleição de Jair Bolsonaro. O tom geral é de alerta, choque e repúdio, perante a possibilidade de uma criatura com perfil de ditador fascista, saudoso da ditadura militar, apoiado pelos movimentos evangélicos e pela elite económica e financeira, chegar à chefia do governo no Brasil. A “boutade” da Lili aplica-se, de forma paradoxal, à situação política do Brasil. Quem morre, neste caso, continua vivo e a subir nas sondagens. Bolsonaro fez-se de morto, após o seu esfaqueamento, mas continua vivo. Na ecologia mediática do Brasil, centrada nas redes sociais, estar morto para o debate televisivo é estar vivo eleitoralmente. Bolsonaro é, ele próprio, um oxímoro: faz-se de morto para estar vivo.

Notas breves sobre os principais destaques: a geringonça chegou ao fim, quer dizer, levou a bom porto a apresentação de 3 (três) orçamentos de estado (sem retificativos), sempre com o diabo à espreita. É obra! Com a entrega do quarto começa, para a geringonça, “o primeiro dia do resto da (...) vida” dela. A geringonça morreu, viva a geringonça.

Tancos é uma novela policial, com contornos trágico-cómicos. Mais trágicos do que cómicos. Os presumíveis implicados na coisa foram prolixos em usar oxímoros para justificar o injustificável. Algumas das suas tiradas merecem figurar na lista de oxímoros dicionarizados, para memória futura. Furtos que não são furtos, desaparecimentos que aparecem, polícias policiando-se. E a melhor de todas: “estou arrependido mas de consciência tranquila”. Dicionarize-se, já.

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.