No país de Portalegre, no país onde surgiram algumas das mais interessantes inovações nas práticas democráticas dos últimos vinte anos, e no país que, em 2003, num momento de escalada securitária global no contexto da luta contra o terrorismo, com a eleição de Lula a presidente, pareceu mostrar que ‘outro mundo é possível’, é neste mesmo país que agora se parece cumprir aquela perversão do altermundialismo que é o populismo de direita.

Fóruns sociais, orçamento participativo, bancos éticos: novidades democráticas que, antes de serem teorizadas, absorvidas e por vezes distorcidas por entidades, atores e projetos muito diferentes (passando pelo FMI, ou pela agenda da ‘big society’) cresceram de baixo para cima envolvendo milhares de brasileiros anteriormente deixados fora de qualquer processo de decisão. Onde está tudo isso?

As eleições brasileiras confirmam que outro mundo é possível, sim, mas não é aquele que muitos tinham esperado e para o qual tinham lutado. E esse mundo é muito pior do pior que tínhamos previsto. Não é Trump, nem é Berlusconi o modelo de Bolsonaro. Segundo Federico Finchelstein, professor de história na New School em Nova Iorque e autor de ‘From Fascism to Populism in History’, o modelo dele seria Goebbels e a propaganda nazi (Jair Bolsonaro’s Model Isn’t Berlusconi. It’s Goebbels’, Foreign Policy).

Em termos de direitos sociais, ele quer que os criminosos sejam sumariamente mortos com ‘um tiro só’, em lugar de serem julgados por um tribunal. Apresenta os povos indígenas como ‘parasitas’, defende formas de controlo dos nascimentos discriminatórias e eugenéticas e é abertamente e violentamente misógino e anti-LGBT. Em termos de direitos políticos, defende que nunca aceitaria uma derrota eleitoral e que o exército deve concordar com isso.

Mas em termos de política económica e direitos sociais, ele afasta-se de facto de muitos outros populistas atuais, assim como das inspirações da extrema direita social, que defendem medidas de proteção para os cidadãos nacionais. Assim, seguindo as orientações do seu consultor económico Paulo Guedes – formado no berço dos Chicago Boys - ele anuncia uma série de duras medidas de austeridade, privatizações, e reformas ‘tributárias radicais’. Uma estranha amálgama embebida na extrema direita europeia e na longa tradição do ultraliberalismo das ditaduras sul-americanas, tornado ainda mais explosivo pelo deflagrante papel das redes sociais – e sobretudo WhatsApp – usadas pelos seus apoiantes.

Outro mundo possível está, de facto, à beira na segunda volta das eleições brasileiras e, talvez, ainda não tenhamos instrumentos para o decifrar.

 

 

 

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.