Esta semana o Futebol está apenas em 7º lugar no “top 10” dos temas mais tratados pelos media em Portugal, e isso é para mim motivo de regozijo e festa. Viva o defeso da bola, que abre espaço mediático para os outros temas menores como a saúde, o emprego, a educação, a segurança social, o ordenamento do território, a paz, a guerra ou a Liberdade. Isso na semana em que o menino bonito do Benfica, João Felix, de apenas 19 anos, foi transferido para o Atlético de Madrid contra o pagamento de 126 milhões de euros, o que daria para construir mais de 20 teatros ou 40 escolas, pelo menos dois Centros Culturais de Belém e vários hospitais.

O valor é tão pornográfico que seriam necessários os salários mínimos de 15.000 trabalhadores, ao longo de um ano inteiro de trabalho, incluindo subsídio de férias e Natal, para comprar o passe deste trabalhador de 19 anos. Esta assimetria de rendimento e valor do trabalho destas estrelas pop desportivas com os rendimentos das pessoas comuns, que pagam os bilhetes para ir aos estádios, que compram as camisolas ou assinam os canais por cabo, é tão gritante e despudorada que nos deveria interpelar a todos. Nem a administração da EDP chegou a tanto.

O tema mais importante da semana para os media nacionais foram as nomeações dos cargos de liderança e chefia da União Europeia, que ainda assim aguardam aprovação do Parlamento Europeu. Depois de muitas horas de negociação e de vários reveses, entre as famílias políticas de esquerda e direita moderadas, chega a presidente da Comissão, uma senhora. Em tese, uma boa notícia. Imagino, e apenas imagino porque me falta a verificação empírica, que perguntados aos cerca de 500 milhões de Europeus, o que acham desta sua nova líder, diriam o mesmo que eu – que não têm o prazer de conhecer a Sra. Excepção feita a alguns cidadãos Alemães que talvez se recordem que era a sua Ministra da Defesa até há dias.

Era como se o sucessor de Donald Trump fosse um ilustre desconhecido dos Americanos, ex -Xerife do Arcansas, escolhido pelos governadores dos estados à revelia do voto popular. Como estratégia de liderança, de legitimação de poder e de recrutamento de elites, esta Europa é uma desgraça.  

O modelo obscuro de nomeação da liderança do executivo da União Europeia a lembrar o conclave do Vaticano para a escolha do Papa, só afasta os cidadãos das instituições europeias e da própria União. Este é o modelo que permite ter burocratas em vez de políticos, representantes de interesses privados em vez de defensores do interesse público. Enquanto o executivo não for eleito por sufrágio directo e universal não é de admirar que os cidadãos não liguem às instituições e não participem na eleição que, em boa verdade, não serve para muito.

Para nossa desgraça e alegria da alta finança foi parar ao Banco Central Europeu a Sra. Lagarde. Transita do FMI onde durante todo o tempo da intervenção externa a Portugal se encarregou de forçar a aplicação do modelo de austeridade e de venda a preços de saldo de vários ativos importantes como a REN, a EDP a ANA e por pouco a TAP, a RTP, ou as Águas de Portugal, e ainda tudo o que mexesse e fosse interessante para comprar a pataco. Espero o pior.

Enquanto isso Trump deu um passinho na fronteira da Coreia do Norte e jurou amizade eterna com o pequeno ditador local, um inimigo a abater há apenas uns meses. Imagino a linha de costa da Coreia do Norte abrilhantada com várias torres Trump, florescendo imobiliário, hotéis, casinos, protegidos pela sombra do poder nuclear americano, enquanto o império empresarial do presidente se salva das dificuldades em que estava mergulhado antes da sua eleição.

Por cá, as diversas greves de funcionários judiciais e sobretudo de médicos e enfermeiros sublinham o garrote a que está submetido o estado social e a dificuldade que tem em cumprir a sua missão. Também aqui os interesses do sector privado da saúde são aparentemente imunes às greves de médicos e enfermeiros que só protestam contra o SNS. Pergunto-me porque não haverá greves nos hospitais privados ou nas PPP, desde logo porque muitos dos funcionários são exatamente os mesmos?

No sector da Justiça o governo abriu uma caixa de Pandora ao permitir que os magistrados recebam acima do teto anterior, que era o ordenado do Primeiro-Ministro. Os funcionários judiciais já vieram reclamar que também eles merecem ganhar mais. É de imaginar que se sigam os militares, os professores, médicos, etc…

Fica bastante mal ao poder politico que está sob escrutínio do aparelho judicial com diversas  prisões de ex-políticos, aumentar a remuneração dos magistrados e procurar mexer no estatuto do Ministério Público, condicionando-o. Quando até já o actual e o ex-Presidente da Republica, General Ramalho Eanes, elegem a corrupção como um dos principais problemas da nação, o poder politico só pode seguir um de dois caminhos: ou dota as instituições judiciárias com meios muitos potentes e eficazes de investigação criminal ou será entendido como cúmplice da nebulosa de corrupção que mantêm o interesse público agrilhoado às mãos de interesses privados. 

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.