Numa semana marcada pela Jamaica e Venezuela e em que o futebol é arredado do pódio, também percebemos que há uma excecionalidade televisiva. Essa excecionalidade foi dar um quarto do total de destaques aos incidentes relativos ao bairro da Jamaica e ao tema racismo enquanto nos outros media a atenção foi menor.

Para perceber a televisão importa relembrar que comentário, notícias e política não são o mesmo, embora na voragem da velocidade dos dias muitas vezes tudo pareça igual – em parte porque são os políticos que se comentam uns aos outros nas televisões, nas rádios ou nas páginas dos jornais.

O resultado dessa prática foi evidente na passada semana. O que começou com imagens de um post nas redes sociais com polícias e outros cidadãos, rapidamente foi relegado para segundo plano sendo ocupado pelo comentário de um político, assessor do Bloco de Esquerda, seguido pelos comentários de outros políticos de outros partidos. Estava dada a partida para a corrida que desembocou na meta da Assembleia da República, ou melhor, na resposta de António Costa a Assunção Cristas sobre a “cor” da sua pele.

Na realidade o que se assistiu foi a mediatização de algo que não se diz publicamente mas que se diz quando não há câmaras nem microfones, seja nos partidos da oposição seja no próprio partido socialista. Ou seja, António Costa não tem a pele da mesma cor que Assunção Cristas e esse é um argumento político utilizado em privado contra Costa e que agora o próprio decidiu usar publicamente a seu favor.

Se há ou não racismo em Portugal é uma pergunta inconsequente. Pois, se há racismo em todo o lado, pelo menos é o que os media nos mostram em todos os países quando tal é tema, porque havíamos nós de não ter racismo em Portugal?

Há acontecimentos todos os dias, houve fogos e os fogos foram mediatizados e apropriados politicamente através da sua mediatização, houve armas furtadas em Tancos e tal foi apropriado politicamente, há racismo em Portugal e tal foi e será apropriado politicamente. Em ano de tantas eleições é impossível não esperar que tudo o que possa, no quotidiano mediático, ser apropriado por uns contra outros não seja feito.

O campo da mediatização dos temas e da sua transformação em arma política pelos comentadores políticos é uma normalidade da nossa democracia mediatizada. O que é novidade é o racismo ter chegado só agora à mediatização e à apropriação política.

O que, mediaticamente, importa assegurar é que o comentário seja mais democrático nas televisões, nas rádios e nos jornais e que o argumentário que não se diz mas que está no manual de criação de vantagem política de muitos políticos comentadores da esquerda ao centro e do centro à direita  (i.e., se criticas a polícia não és um bom cidadão, se defendes a polícia és um racista) não cresça no seu uso porque então é que teremos um problema de racismo mediaticamente induzido para ganhos de curto prazo, ou seja, por mais alguns votos vale tudo.

Na semana de notícias os acontecimentos sobre racismo e a “descoberta” pública das condições de vida no bairro da Jamaica (que, embora episodicamente notícia, nunca foram até hoje tema escolhido por jornalistas) duraram quatro dias até serem substituídos pela Venezuela, o Papa, Marcelo e Medina. Resta saber quantas vidas mais terá a apropriação política do racismo para fins eleitorais este ano?

 

 
 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso e António Lopes. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 409 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.