É difícil escrever este comentário de forma objetiva agora, quando já se sabe como acabou, com o chumbo do ‘diploma dos professores’. É fácil, por outro lado, olhar retrospetivamente para as notícias da semana e a sua saliência no país e pensar: afinal eu sabia que nada ia acontecer! Como sempre foi uma exageração! Mas qual crise política!

Será mesmo assim? Podíamos já saber, durante os dez dias passados, qual teria sido o êxito deste processo? Foi a hipótese de demissão do primeiro ministro e de eleições antecipadas assim irreal? De facto, uma crise é exatamente isso: um processo cujo êxito é imprevisível. Acho importante manter presente esta perspetiva e não dar por assumidos os resultados à luz do que aconteceu depois: no fim de contas, é essa mesma incerteza que cria mudança.

Deste ponto de vista, parece-me também oportuno levar a sério o que aconteceu e o facto que se podia chegar a outro resultado. Mas ainda que afinal não se tenha dado uma rutura maior e o processo político está, agora, no caminho da continuidade, algo mudou com certeza. O facto de os aliados do PS na geringonça terem votado a favor da reposição total – arriscando a demissão de Costa – e a oposição ter votado contra poderá provocar, e muito provavelmente provocará, um realinhamento das forças políticas, cuja forma ainda é difícil prever. Será este processo a fase final da parábola da nova aliança pós-austeritária das esquerdas, ou será mais uma transformação desta aliança em vista a algo diferente?

Com certeza, há algumas cartas ainda para descobrir até às eleições e a etapa das consultações europeias poderá dar-nos alguma indicação. Entretanto, um desafio talvez ainda mais difícil vem aí para o governo, com o anúncio de uma nova greve dos camionistas de combustíveis, que já estiveram, uma vez, à beira de parar Portugal. E isso sim, seria uma grande rutura na continuidade da vida do país.

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.