Conta-se que a Idade Média ficou também conhecida como o tempo das fogueiras. Foi das épocas mais sombrias da nossa História, tisnada de guerras, doenças e torturas, e em particular, numa segunda fase, todos aqueles a quem se levantavam estranhas suspeitas que colocavam em causa o poder vigente, a autoridade da Igreja dominante e a sua impiedosa tenaz inquisitória, arriscavam morrer pelo fogo.

A verdade é que ao longo da nossa história, o fogo tem estado presente, nas mais variadas formas e contextos, e foi fundamental para a nossa evolução. Desde o momento em que primeiro ser humano o ‘descobriu’, nada mais foi igual. E encontrámos inúmeras maneiras de o usar, e muitas formas de fazer fogueiras, seja de forma construtiva ou maliciosa. Percebemos também que nada é mais poderoso que a Natureza. E que se não seguirmos certos princípios e normas aprendidas, podemos arriscar demasiado.

Há pouco mais de um ano esta questão reemergiu de forma dramática, após os arrasadores incêndios que nos assolaram, matando várias pessoas, estilhaçando famílias e destruindo inúmeras vidas (fauna, flora).

Há situações que não podemos prever nem evitar, mas há coisas que podemos fazer. E nenhum governo tem conseguido tomar medidas profundas sobre questões fundamentais, que têm facilitado acontecer tragédias, ano após ano, culminando agora em consequências de dimensão incomensurável e catastróficas (até a nível económico).

Em 2017 foi conosco, agora na Grécia... Na Idade Média, após séculos de obscurantismos, o Renascimento abriu novos caminhos. Na atualidade, apesar dos notáveis avanços sócio-tecnológico-científicos a que assistimos, há ainda muita dificuldade em compreender e aceitar o que se tornou óbvio. Se antes havia órgãos repressores, que direta ou indiretamente travavam o progresso, agora muitas forças de poder se impõem ao reconhecimento do que a Ciência evidencia, nomeadamente no que se refere às Alterações Climáticas.

Seja por negligência, crime ou causas naturais inevitáveis, os fogos florestais volveram-se em focos de inferno, que nada poupam à sua passagem. A Europa (e não só) está a arder! Agora o fogo devastou uma zona vasta à volta de Atenas, na Grécia.

Entretanto, outros fogos grassam em redor do círculo Ártico, e imagine-se que até na Escandinávia se tornaram incontroláveis, face a temperaturas que chegam aos 40 graus, e mesmo em vários outros locais do planeta, como Canadá, Japão... as temperaturas atingiram este nível arrasador. As ondas de calor extremo têm-se acentuado cada vez mais, e intercalam-se com outros fenómenos climáticos extremos (como inundações repentinas, períodos de seca, furacões, tempestades...).

Os desastres naturais quadriplicaram desde 1970. E estima-se que até 2040 cerca de 140 milhões de pessoas tenham que ser deslocadas em função disso. O clima está desregulado, mas nós fomos alertados para isso, e para a urgência de tomarmos medidas a curto, médio e longo prazo. Voltando aos fogos, é claro que a Grécia, tal como já foi Portugal, tem de ser notícia. Importa agora, ajudar a combater os incêndios com todos os meios, e apoiar todas as pessoas que precisam de auxílio imediato. E não parar por aqui.

Há que finalmente trabalhar-se verdadeiramente na prevenção, alertar os governos, ultrapassar interesses mesquinhos que só olham para o imediato, educar, reaproximar e ajudar na proteção de pessoas, valorizar o património e a Natureza, revitalizar muitas zonas e atividades, construir de forma sustentada e regulada, fazer o reordenamento do território, a limpeza e vigilância das matas, a reflorestação adequada. As catástrofes, na medida do possível, evitam-se.

Por vezes parece-me uma afronta andarmos p.e. a jogar com orçamentos, indicadores, acordos financeiros e medidas avulsas centradas (só) na economia, enquanto um país arde, literalmente, ceifando, devastadoramente, demasiadas vidas humanas, flora e fauna! Estamos de luto, sim, por todas as vidas ingloriamente sacrificadas, pelo sofrimento causado, e por tudo o que se sabe mas não se faz. Urge tomar as medidas vitais para evitarmos, ao menos, algumas situações, e não termos tanta razão para lamentar!

Face a isto, o que dizer de outras notícias associadas com greves, corrupção (até no caso dos fogos, e na sequência dos mesmos, aparecem situações muito duvidosas, de quem se aproveite dos mesmos para lucrar com isso, mesmo a nível da utilização indevida de verbas para reconstrução) ou futebol?

Por cá, os professores prosseguem o braço de ferro com o Governo, não abdicando de lutar pelos direitos que lhes estão associados. Outras greves, na área da saúde, ameaçam deixar em risco muitas pessoas por eventual falta de cuidados. E há quem veja em risco alguma viagem por falta de meio aéreo.

É preciso saber escutar, dialogar e cooperar, para alcançar acordos justos. Mas o futebol promete compensar tudo, com o retorno das grandes emoções.

O mundo arde! Mas que venha algo mais que nos distraia, enquanto se vão discutindo meros acordos multilaterais... É tempo de vivermos um novo Renascimento, ampliarmos a consciência e tomarmos medidas inadiáveis que, na medida do possível, previnam os fogos!

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e conta com a colaboração de Leonor Cardoso e Carla Mendonça. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.