Esta semana ficou marcada pela tragédia provocada pela passagem do Ciclone Idai em Moçambique, no dia 17, causando mais de duas centenas de mortos, 350 mil pessoas em risco e milhares resgatadas. Depois da emergência do resgate e salvamento apoiado por vários países vizinhos e por Portugal, seguir-se-á o penoso esforço de limpeza e reconstrução de vias, casas, infraestruturas elétricas, água, saneamento, comunicações, equipamentos públicos, empresas, mas sobretudo a necessidade de cuidados de saúde, de alimentação e de segurança, a todas as pessoas e em particular as que ficaram desalojadas ou isoladas. Como em tantas outras circunstâncias verifica-se que as alterações climáticas são para todos, mas sofrerão mais os mais fracos e mais impreparados. Desta vez tocou ao povo nosso irmão de Moçambique.

O estado Português e a denominada sociedade civil empenharam-se na ajuda, estando em curso diversas acções de apoio. Por causa da proximidade que todos sentimos a Moçambique esta tragédia toca-nos como se tivesse acontecido no Alentejo e por isso este foi de longe o tema mais importante da semana, para os media portugueses, ocupando o primeiro lugar no top.

As notícias das alterações climáticas que parecem amiúde referir-se a um outro Mundo, distante e alheio, como se tivéssemos todo o tempo e oportunidade de lidar com ele lá mais à frente, por vezes batem-nos à porta com grande estrondo, lembrando-nos que a emergência climática do planeta está aqui e agora. Quem também acha mesmo isso são os promotores e os participantes no movimento global "SchoolStrike4Climate", criado pela jovem sueca Greta Thunberg, que trouxe para as ruas a juventude exigindo medidas em defesa do clima. Em Portugal as escolas não deram folga, mas houve atividades em 28 cidades. Este tema ocupou o 11.º lugar no top de notícias da semana.

Na nova Zelândia e na Holanda, uns sujeitos loucos fizeram mal a outros. Não pactuando ou alimentando terroristas, não dedicarei ao tema mais do que esta chamada, assim fazendo uma crítica aos media portugueses que lhe emprestaram importância suficiente para serem, respetivamente, o 2.º e o 5.º tema com mais exposição da semana.

No 10.º lugar do top está a boa notícia política do momento. O Passe Social Único entra em vigor a 1 de abril. É a mais inteligente medida política de que me lembro nos últimos tempos. De uma assentada redistribui riqueza nacional entre os que têm menos recursos, estimula a utilização dos transportes colectivos versus os privados, assim retirando milhares de carros do centro das cidades, diminui significativamente as emissões de carbono, aumenta bastante a mobilidade dentro das áreas metropolitanas e, por fim, mas não menos importante, reduz os custos das famílias, muito em particular as economicamente mais desfavorecidas, com os transportes, assim lhes abrindo oportunidades de trabalharem, estudarem ou simplesmente socializarem em qualquer lugar da cidade a preços razoáveis. Com tudo isto tornam-se suportáveis as operadoras de transportes, nomeadamente as públicas, financia-se a renovação e o aumento das frotas de material circulante, permite-se a substituição de veículos velhos e poluentes por novos e mais sustentáveis, e assim se melhora a vida nas cidades. Brilhante ideia tornada pública por Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, que em boa hora recolheu apoio do governo, alargando o seu efeito não apenas às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, mas a todo o pais.    

Enquanto isso a Europa que se prepara para disputar eleições no dia 23 de Maio, continua à deriva, refém de um Reino cada vez menos unido sobre que lugar ocupar. A saída do Reino Unido da União Europeia, já não se verificará a 29 de Março, como inicialmente definido pelo respetivo governo, nem a 30 de Junho como entretanto a Primeira-Ministra May solicitara, mas até 22 de Maio, como o Conselho Europeu anuiu, de modo a resolver o assunto antes das eleições Europeias. Este foi o 6.º tema do top da semana. Por cá, e apesar de só agora termos entrado na Primavera, parece Verão. Todos nós já fomos à praia, as esplanadas estão cheias e há filas na ponte de regresso a Lisboa, nos finais das tardes de ócio. Quando chegarmos a casa vamos lembrar-nos que não chove há tanto tempo que um destes dias não há água nem para beber quanto mais para o banho. Será a natureza a mandar-nos com a porta à cara.

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.