Existe a perceção pública de que o Presidente da República intervém, ou melhor, tem algo para dizer sobre todos os assuntos. A análise do Barómetro desta semana dá razão a essa perceção, dado que apenas em três temas não ocorreram contribuições do Presidente da República para a construção de destaques - eles são o futebol, o estado do tempo e os incêndios urbanos.

Também nesta semana no programa de comentário televisivo, a Circulatura do Quadrado, o Presidente da República referiu-se à sua atuação como passível de ser caracterizada como “autoridade com afeto, mas não afeto sem autoridade” a propósito do tema da greve dos enfermeiros. No entanto, embora a afirmação seja interessante do ponto de vista da ciência política e da doutrina da prática presidencial portuguesa à luz da Constituição da República, não é particularmente interessante do ponto de vista de estudo das ciências da comunicação e da comunicação política.

O que é mais interessante ao analisar a presença do Presidente da República ao longo de três anos de exposição mediática é a forma como o passado de comentador do Presidente da República moldou a forma como a comunicação social construiu uma narrativa política do seu mandato e como, por sua vez, o ex-comentador domesticou, na aceção do sociólogo Roger Silverstone, a televisão e as redes sociais para criar uma nova prática de comunicação.  

Se por momentos imaginarmos olhar para 2019 a partir de 2021 poderíamos arriscar dizer que a comunicação política presidencial foi caracterizada, entre 2016 e 2021, como estando assente no seguinte triângulo: a personalização do cargo de Presidente da República; uma agenda gerida segundo um formato para televisão; e, por fim, na individualização do instrumento de altos patrocínios.

Uma curta justificação argumentativa poderia seguir os raciocínios a seguir expostos. Todos sabemos que o cargo de Presidente da República é unipessoal, uma mulher ou um homem são eleitos para o cargo e o poder daí constitucionalmente avalizado deriva de uma só pessoa. A Presidência é o Presidente. No entanto, de tal forma o cargo unipessoal tem sido personalizado neste atual mandato que o leitor ao ter lido este texto deve ter achado estranho não ter encontrado até agora o nome "Marcelo Rebelo de Sousa". Essa estranheza decorrerá do facto de, normalmente, nas notícias ouvirmos falar e ler quase tantas vezes os nomes próprios e de família do titular do cargo, Marcelo Rebelo de Sousa, como a referência ao cargo ocupado pelo próprio. Tal deriva da notoriedade prévia do nome e da personalidade mas também do facto de a presença no cargo continuar a ser gerida como se o Presidente da República atual fosse e não fosse, simultaneamente, Presidente.

A essa prática narrativa de "continuar-se a ser o que se era antes de ser Presidente da República e, simultaneamente, ser o Presidente da República" junta-se a gestão da agenda do Presidente segundo um formato para televisão. O que quer isto dizer? Tão só que do mesmo modo que um Reality Show é um formato onde a ação ocorre num território delimitado, com um argumento que enfatiza as características pessoais dos participantes, ao ponto de ir ao encontro dos nossos estereótipos sociais, e permitindo-nos ter acesso ao que é, normalmente, da esfera de reserva íntima dos sujeitos, também a agenda do Presidente da República é gerida como se de um formato televisivo se tratasse.  O território é o Palácio de Belém e nós tanto somos "convidados" a nele entrar pelo programa de comentário político que de lá é transmitido ou a entrevista que lá é filmada, como somos "convidados" a imaginar o Presidente a fazer, a partir de Belém, a chamada telefónica para um programa televisivo ou sabermos o que o Presidente faz a partir dos assuntos a que permanentemente dedica comentários, mesmo que não tenham a ver com a razão da sua deslocação - inclusivamente, o que não é coberto em direto, como a visita ao Bairro da Jamaica, surge como um extra através da notícia da crítica policial à visita sendo nós convidados a imaginar a visita, que não vimos, com a sensação de termos perdido algo. No entanto, a intenção era precisamente a de nos criar esse sentimento de perda por quem organizou a agenda da visita do Presidente, mesmo que igualmente exista o mito que o próprio Presidente tudo organiza e tudo decide sozinho - o que constituiu mais um elemento de similitude com os programas de realidade televisiva onde o telespectador é levado a pensar que não existe argumento para as ações dos participantes.

Por fim, o triângulo completa-se com a inovação simbólica na concessão de altos patrocínios. A prática comunicativa das "selfies com Marcelo Rebelo de Sousa" tem uma dupla lógica. Por um lado, se "Belém na TV" serve o propósito de ligar a Presidência e o Presidente com as gerações mais velhas, aquelas que cresceram com a televisão, a prática das selfies destina-se a criar um laço com as gerações que cresceram (e crescem) com as redes sociais e a Internet. Na realidade, as selfies são uma atualização do  instrumento simbólico de concessão de "Alto Patrocínio" como manifestação de interesse do Presidente da República na importância de um dado evento, agora aqui transposto para a prática e a ideia de que todos os locais onde o Presidente da República se desloca são importantes e todos aqueles com quem se cruza merecem ser simbolicamente destacados como importantes. As fotos/selfies são assim a distinção simbólica que pode ser generalizada a todos os portugueses que se cruzem com o seu Presidente, ao contrário das condecorações,  e que dado que as redes sociais são locais de partilha com os amigos, dão um alcance comunicacional pelas partilhas muito maior do que o número de pessoas que o Presidente poderá "tocar" presencialmente.

No entanto, as estratégias comunicacionais não estão isentas de perigos, tal como a resposta dada pelo Presidente da República no contexto de um dos temas da semana, a visita ao bairro da Jamaica, deixa entrever: "Sou Presidente de todos os portugueses, quando ando na rua em contacto com os portugueses não peço o cadastro criminal, o cadastro fiscal nem o cadastro moral para falar com eles ou tirar selfies, é com todos".  De qualquer modo, há uma probabilidade elevada de a comunicação política presidencial contemporânea deixar uma herança que influenciará as práticas de qualquer nome e sobrenome que venha a ter o próximo Presidente da República, seja um homem ou uma mulher.

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça, Leonor Cardoso e António Lopes. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 409 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.