A política além oceano está mais uma vez a atrair grande parte da atenção mediática. E com razão. Desta vez não são os suspeitos do costume, Estados Unidos e Brasil. O anúncio de Trump sobre a saída do acordo nuclear com a Rússia, assim como a notícia das investigações filho de Presidente Bolsonaro, por movimentos financeiros suspeitos que, por si, podiam fazer falar muito, são talvez demasiado ‘em cima da hora’ para entrar no barómetro desta semana.

A Venezuela, que já no passado barómetro tinha conquistado a segunda posição, agora passa para a primeira. As razões são evidentes: não é apenas o facto de voltarmos a assistir, naquela mesma área geográfica, a um repertório da política do século XX que esperávamos poder esquecer: golpes verdadeiros ou presumidos e acusações de golpe, dezenas de mortos em manifestações, envolvimento do exército e decisivas ingerências externas.

É também a questão de como estas dinâmicas se refrangem entre nós, aqui na Europa, reagudizando divisões latentes. No parlamento português, estas divisões concretizaram-se com quase todas as famílias políticas a propor uma resolução diferente, em apoio de um ou do outro lado ou, mais genericamente, da paz. Podemos ironizar, criticar ou ficar preocupados pela falta de coesão, pelos menos entre os partidos que estão na base do governo. Mas não esqueçamos: os parlamentos servem mesmo para isso.

As Jornadas Mundiais da Juventude, curiosamente no segundo lugar do barómetro, não parecem criar particular divisões – afinal das contas, a fé não se debate nos parlamentos - mas as investigações sobre os crimes da Caixa Geral de Depósitos prometem enfogar a discussão nos próximos meses e, suspeito, a campanha eleitoral. Entretanto, assistimos ao enfogar do Bairro da Jamaica. Para além da violência dos episódios que o tornaram protagonista e que chamou a atenção de todos, seria bom que emergisse desta situação uma reflexão sobre as condições urbanas de zonas à beira de Lisboa onde se está a concentrar a pobreza expulsa da cidade mais cool da Europa.

* “Portugrall” é o título de uma canção dos Llama Virgem que contesta o turismo indiscriminado e as suas consequências em Portugal.  

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso e António Lopes. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 409 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.