As pessoas em geral e os/as jornalistas em particular ganhariam bastante em ter presente no seu quotidiano e no seu trabalho a noção de liminaridade. Os dicionários definem o termo como “um estado subjetivo, de ordem psicológica, neurológica ou metafísica, consciente ou inconsciente, de estar no limite ou entre dois estados diferentes de existência”. A Neurologia e a teoria antropológica do ritual elaboraram e continuam a elaborar sobre este estado. Estudos experimentais têm mostrado porque razão muitas vezes nos esquecemos de qualquer coisa que íamos fazer ou buscar ao transpor uma porta.  Transpor uma porta, ao que parece, tem efeitos na nossa capacidade de recordar, uma vez que, de alguma maneira, o nosso cérebro lê esse gesto como um “limite de evento”, isto é, separa o que aconteceu antes e depois e “arquiva” o acontecimento anterior. Ora, tendo em conta que uma parte não despicienda do trabalho de muitos jornalistas consiste em aguardar pacientemente por sujeitos da notícia precisamente junto a portas (de casa, da esquadra, do tribunal, do escritório, etc.), esta noção de liminaridade (e seus efeitos na memória) deve ser levado em conta. Ao longo desta semana várias notícias em destaque remetem para esta dinâmica de entradas e saídas (através de portas físicas ou virtuais) e não podem deixar de nos fazer refletir sobre os efeitos que esse tipo de atividade humana (transpor limiares) acarreta para a memória dos sujeitos e, também, para os efeitos perturbadores e até transformadores da liminaridade.

A prisão de Bruno de Carvalho (BdC) e do presidente da Juve Leo é um bom exemplo do que estou a sugerir. Dezenas de horas de emissão ao pé de portas (da esquadra, do tribunal e de casa); a prisão para posterior audição frente a um juiz, configurando uma situação de liminaridade que deixou, durante quatro dias, dezenas de comentadores a tentar adivinhar se a decisão seria deixá-los dentro ou devolvê-los à liberdade. Finalmente saíram. Para BdC a situação de extrema liminaridade a que se viu sujeito parece ter tido um efeito transformador: na chegada à porta de sua casa, rodeado de câmaras e microfones, anunciou que a experiência o tinha transformado e que agora era um “novo Bruno”. Certamente porque tinham atravessado já muitas portas nesse dia, os/as jornalistas esqueceram-se de que tinham combinado uma declaração sem direito a perguntas e desataram a questioná-lo sobre o processo e a sessão com o juiz. BdC aproveitou para repetir o quão transformado se sentia e é filmado a atravessar a porta do prédio onde vive. Se, entretanto, se esquecer do que disse pode sempre atribuir a culpa à porta.

Na Inglaterra, a braços com o Brexit, é mais saídas. Já vai em cinco o número de ministros que batem com a porta e saem do governo liderado por Teresa May. Apesar do acordo entre a União Europeia e Reino Unido, há muito por resolver, nomeadamente a sensível questão da fronteira com a Irlanda. Enquanto sai e não sai, a Europa vive um estado confuso de liminaridade. Do outro lado do Atlântico o sr. Trump esfrega as mãos e aproveitou a vinda a Paris (comemorações do Armistício) para terminar o namoro com Macron.

Um avião da Air Astana entra nas oficinas da Embraer, em Alverca, para uma revisão e reparação profundas e sai de lá com os principais comandos de voo avariados. Durante horas a aeronave voou erraticamente e só graças ao sangue frio dos pilotos e à ajuda da Força Aérea não se despenhou. O estado liminar (entre a vida e a morte) e o stresse levaram elementos da equipa do avião ao hospital.

E, finalmente, uma última nota para os terríveis efeitos amnésicos que essa atividade tão humana de entrar e sair de locais físicos ou virtuais pode acarretar: uma deputada andou a entrar e a sair da conta eletrónica do deputado José Silvano e a marcar-lhe presenças no plenário da Assembleia da República. Soubesse ela um bocadinho de liminaridade e seus efeitos na memória e em vez de dizer que foi “inadvertidamente” poderia ter dito “precisamente”. Precisamente porque entrei e saí, esqueci-me do que fiz quando entrei.

 

 

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho e a codificação das notícias é realizada por Carla Mendonça com o apoio de Leonor Cardoso. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Atualmente fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.