A coordenadora do BE, Catarina Martins, alertou esta quarta-feira que "a violência como arma política" é o "contrário da democracia", considerando que "quem não diz ao que vem" e só despeja raiva tem um programa "contra a generalidade".

O ex-deputado federal brasileiro Jean Wyllys esteve esta quarta-feira na Assembleia da República, a convite do BE, para um encontro com deputados, onde também estiveram presentes parlamentares do PS e do PSD.

À saída, Catarina Martins deixou o alerta de que "a violência como arma política serve sempre e só para esconder um programa de violência contra toda a gente e de violência social", sendo "o contrário da democracia"

Quem vai a eleições - ou quem ganha eleições como aconteceu no Brasil - tendo a violência como instrumento político, o que faz é nunca debater o seu programa e, ao mesmo tempo em que foram cavando o ódio e raiva de minorias e fazendo apelos à violência contra minorias, está um programa político, económico a desenrolar-se que ataca os direitos de toda a gente", condenou.

Para a líder bloquista, "quem não diz ao que vem e só é capaz de despejar raiva no seu discurso político é porque tem vergonha do seu próprio programa", agenda essa que, mesmo que "diga que é contra as minorias, acaba sempre por ser contra toda a gente, contra a generalidade, contra a maioria que vive do seu trabalho".

Jean Wyllys é alguém que foi eleito e que não pôde ocupar o seu cargo no Brasil porque as ameaças à sua vida e o facto de o Estado brasileiro ter recusado a dar-lhe a proteção que lhe era devida e que ele devia ter direito o obrigaram a sair do país", relatou.

Catarina Martins reconheceu que "generosamente deputados de vários partidos estiveram com Jean Wyllys, prestando essa solidariedade de quem acredita que a democracia é o mais importante".

Este é um caso em que a mentira e a propagação da mentira são ataques à democracia. É preciso acusar a mentira e dizer onde a mentira está porque ela mina a democracia e acho que o papel da comunicação social é também muito importante por isso", apontou.

Em declarações aos jornalistas, no final do encontro, o político brasileiro alertou que Portugal "corre o risco de ter uma extrema-direita mais muscular se a imprensa der espaço a pessoas da extrema-direita", apelando por isso à "responsabilidade" da comunicação social.

No momento, eu vejo a extrema-direita daqui como patética, inexpressiva, sem autoridade moral, intelectual nem política. Mas, a extrema-direita no Brasil é hegemónica hoje, venceu as eleições [Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil]. Acho que a extrema-direita no Brasil está de alguma maneira em contacto, por causa da mesma língua, com a extrema-direita daqui, tentando insuflá-la, tentando usá-la como bucha de canhão para as suas ações lá”, apontou o político brasileiro.

Crítico da liderança de Jair Bolsonaro, que assumiu em janeiro as funções de Presidente do Brasil, Jean Wyllys mostrou também preocupação com as relações entre as extremas-direitas dos dois países.

A extrema-direita aqui, que talvez se reduza a 12 pessoas, lamentavelmente ela está se dispondo a fazer isso. Quando a imprensa dá espaço a essas pessoas, ou quando a imprensa não desmascara essas relações, aí sim a extrema-direita pode-se tornar muscular e acho que Portugal tem que se orgulhar, se orgulhar mesmo, de na Europa ser um lugar onde a xenofobia não é tão expressiva", salientou.

Jean Wyllys, deputado federal do Rio de Janeiro, anunciou, em 24 de janeiro, que ia desistir do novo mandato e deixar o Brasil, após receber ameaças de morte, situação que se arrasta desde o homicídio da vereadora Marielle Franco, também pertencente ao partido de Wyllys, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Portugal é uma ilha de acolhimento. Tem que ser um motivo de orgulho”, disse Jean Wyllys.

A líder do BE destacou igualmente que a matéria da "violência enquanto política" é também "muito importante".

Quando alguém que é eleito tem de sair do seu país porque é vítima de violência, de ameaça à sua vida, não há democracia. A violência e a violência como arma política é o contrário da democracia", lamentou.

A violência que está a ser feita no Brasil "contra grupos que são identificados como minoritários" é, na perspetiva de Catarina Martins, "uma violência contra toda a gente".

Porque um país em que alguém, seja pela sua orientação sexual, seja pelo seu género, seja pela sua religião, seja pela cor da sua pele, se sente em ameaça é um país em que não há liberdade para ninguém. A liberdade de todos nós depende da segurança de todos nós também", afirmou.