Ronaldo e Quaresma, mas também Pepe, o Sporting, naturalmente, e a Seleção Nacional.

Laszlo Boloni está em Budapeste a acompanhar o Euro 2020 e juntou os jornalistas portugueses à conversa num hotel no centro da capital húngara.

Bem-disposto, disponível e num português bastante percetível, o último técnico a ser campeão pelos leões antes de Ruben Amorim, recordou como foram esses tempos em que lançou Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma.

«Quando lancei Ronaldo ninguém sabia onde ele ia chegar. Antes dele, lancei o Quaresma. Fizemos um jogo contra a equipa B, para os sócios, e chamei o Quaresma. O seu marcador direto foi o Dimas. “Bem… o que Quaresma fez com Dimas nesse dia…” O público gostou, eu também. E não o deixei mais regressar à equipa B. Chamei-o de “Mustang” e ficou. Os dois são maravilhosos. São como os meus meninos. Gosto de ambos. O Quaresma não tem a mesma maturidade do que o Ronaldo. Não tem a mesma velocidade, nem o pé esquerdo ou o jogo de cabeça do Ronaldo. Mas estou feliz pela carreira que os dois fizeram», começou por dizer o treinador romeno, dizendo que CR7 está no patamar dos melhores de sempre: «Todos os desportos têm um rei, mas o futebol tem mais do que um. O Brasil tem o seu, Pelé, Alemanha também, Beckenbauer, os húngaros têm Puskás. E Portugal também tem dois ou três reis. Um deles é Ronaldo. Agora, dizer que Ronaldo é melhor do que Cruyff, Pelé, Eusébio, Maradona é delicado. Temos de respeitar. E ser felizes por vermos jogar os dois reis da atualidade: Ronaldo e Messi.»

Antecipando o encontro entre Portugal e França, a que vai assistir na Arena Puskás, Boloni não enjeitou fazer a comparação entre as maiores estrelas das duas equipas: «Mbappé não vai ser o novo Cristiano Ronaldo, mas vai ganhar algumas Bolas de Ouro. Nas próximas épocas, não acredito que vá aparecer um novo Ronaldo.»

Sobre o duelo de quarta-feira, para o Euro 2020, Boloni encontra um defeito nos campeões do mundo: «Os franceses querem encontrar soluções fantásticas. O bom tem de ser maravilhoso e o futebol às vezes não é assim. Por vezes, é preciso um jogo mais simples, direto, agressivo.»

Sobre Fernando Santos, que curiosamente foi seu sucessor no Sporting, afirmou que «ele já provou que é um grande treinador» e acredita que o selecionador nacional vai fazer algumas alterações no onze: «Ele viu o jogo contra a Hungria e sabe que o meio-campo de França também foi perturbado pela velocidade de alguns jogadores do meio-campo húngaro. Acho que vai mexer no meio-campo para colocar mais velocidade no jogo.»

Como o Sporting perdeu Pepe

Sobre o seu Sporting, Boloni confessou que não conhecia Ruben Amorim e que da nova geração de treinadores portugueses costuma de falar sobretudo com Rui Jorge. «Não conseguimos decidir quem tem melhor pé esquerdo: ele ou eu… [risos]»

Revela que vê, porém, Rui Jorge mais perto de treinar a Seleção do que um clube como o Sporting: «Ele é muito inteligente…»

De seguida, dá os parabéns pelo título, 19 anos depois, e salienta a fidelidade dos adeptos ao clube.

Recuando no tempo, o técnico de 68 anos lembra João Vieira Pinto, o seu «Napoleão», «um grande jogador e grande amigo», e também Jardel, com quem uma vez ficou durante dez dias em Alcochete decidido a recuperá-lo: «À segunda semana, ele começou a ficar mais nervoso e ninguém o conseguia convencer a ficar […] O Jardel teve muitos problemas e fizemos muitos compromissos. Não foi à seleção do Brasil no Mundial 2002 [Scolari não o convocou] e aos poucos agravaram-se os problemas com a bebida e com outras coisas. O seu empresário era o José Veiga, que foi diretor do Benfica. Isso não é normal. Semana após semana ele ia sair para Inter, Real Madrid, Barcelona, Bayern…»

Boloni aproveitou a conversa para esclarecer que nunca dispensou Pepe, que no início da carreira esteve a treinar à experiência no Sporting.

«O Pepe chegou com o Danny, do Marítimo, e mal ele começou a dar nas vistas nos jogos de preparação eu perguntei aos dirigentes do Sporting se o podíamos contratar. A resposta foi “Há aqui algumas dificuldades, mas ele fica.” Quando ouvi “dificuldades” disse aos jornalistas que não queria o Pepe, mas sim um central romeno, que ia ser melhor. Porque, lá está, as pessoas do Marítimo também liam os jornais… A verdade é que o Pepe entrou, jogou bem e o Marítimo já pedia muito dinheiro por ele. Quando ele foi ao meu gabinete, ficámos só os dois e ele mostrou-se triste, zangado, nervoso… Eu disse-lhe que ainda íamos tentar resgatá-lo. Mas não conseguimos, porque o Sporting não tinha dinheiro para o fazer. Mais tarde tentei contratá-lo para o Rennes. Mas depois apareceu o FC Porto e levou-o», concluiu o romeno que mostrou ter saudades de Portugal: «Amava a vida lá. O café, o vinho verde, o robalo grelhado...»

Sérgio Pires / Enviado especial do Maisfutebol ao Euro 2020