Ninguém quer vir a ser um Gary Neville

Estávamos um pouco para lá do meio de 2013, e o central Jamie Carragher, dificilmente um brilhante central, disse isto a Gary Neville, um lateral pouco mais do que satisfatório, que fez mais de 400 jogos no seu clube de sempre, o Manchester United.

Um lateral-direito era, para Carragher, um mau extremo ou um mau central, desviados para esse lado do campo.

Olho para esta frase um pouco como profecia. Mais de quatro anos depois, o último reduto do futebol mundial está em crise, umas posições mais do que outras.

A crise também depende do treinador. Para Pep Guardiola, que já usou e abusou de tantas versões ao longo da carreira, fosse uma linha de três, de quatro ou de cinco, fossem quatro laterais da direita para a esquerda ou, reflexo invertido, quatro centrais, crise será sempre palavra demasiado forte. Não para os demais.

Façam o exercício.

Digam dez centrais de topo na actualidade sem pensarem muito.

Atenção, não basta serem bons, lembrem-se que precisam ser de topo. Alguém que possa ser ídolo de uma geração de putos ranhosos, de bombazine cheias de terra e coçadas nos joelhos, e os inspire a ser desmancha-prazeres dos avançados.

Vá, força, eu ajudo!

1? Hummels, de caras. 2? Bonucci, apesar de um Milan tão instável. 3? Piqué? OK, Piqué ainda vale. 4? Varane, apesar das lesões e a ter de recuperar terreno perdido. 5? Godín. 6? 6? Thiago Silva...

Ao rapaz que gritou Sergio Ramos lembro que a um defesa ajuda saber defender.

A partir daí, o nevoeiro adensa-se entre promessas por concretizar e jogadores que ficaram curto. Não chegam a tanto, embora um ou outro ainda possa chegar.

O velho Pepe foi dos mais fortes no seu auge, Ricardo Carvalho o melhor que Portugal produziu nas últimas décadas.

O mesmo exercício agora para laterais-esquerdos, mesmo que o tempo dos Roberto Carlos já lá vá. Talvez seja mais fácil.

Alex Sandro, Jordi Alba, Marcelo, Alaba, Filipe Luís, Marcos Alonso... Lembrem-se: de topo! Com alguma estagnação, também por culpa das lesões, Raphäel Guerreiro.

Do outro lado? Kimmich, Dani Alves, Bellerín, Carvajal, Valencia... Curiosamente, aqui Portugal até tem muitos de grande qualidade, desde Cédric a Nélson Semedo, passando por Cancelo e Ricardo Pereira, com Dalot a espreitar o futuro.

O problema pode estar mesmo aí. Hoje, tal como há cinco anos, ninguém quer ser um Gary Neville. Ou um Fonte, um Pepe, um Nélson Semedo ou um Raphäel Guerreiro, ou qualquer um dos outros. Mesmo os Hummels, os Dani Alves e os Marcelos, referências de um presente que se aproxima do fim, não parecem inspirar assim tantos sucessores.

Todos querem ser Ronaldos, Messis, Neymares, Dybalas ou Coutinhos.

Apesar da evolução, de um futebol em contínua transformação, se não houver quem valha a pena imitar dificilmente haverá quem imite. A crise é um ciclo, cheio de cada vez mais avançados e menos Gary Nevilles.

Quem diria que iríamos sentir a sua falta?

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«ERA CAPAZ DE VIVER NA BOMBONERA» é um espaço de crónica, publicado na MFTOTAL. O autor usa grafia pré-acordo ortográfico.

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Luís Mateus