CAMINHOS DE PORTUGAL é uma rubrica do Maisfutebol que visita passado e presente de clubes dos escalões não profissionais. Tantas vezes na sombra, este futebol em estado puro merecerá cada vez mais a nossa atenção.

AD MARCO 09: AF PORTO

Época 2004/2005. Porventura, a de maior glória para o histórico Futebol Clube do Marco. Há três temporadas consecutivas na II Liga, o clube de Marco de Canaveses alcançou nesse ano a maior classificação de sempre da sua história, terminando o campeonato no quarto lugar, sendo que os primeiros três subiram ao principal escalão do futebol português.

O topo do nosso futebol ficou a um pequeno passo, mas os anos seguintes foram penosos para o emblema marcuense: desceu ao terceiro escalão logo na temporada seguinte e depois acabou mesmo por «fechar portas», devido a problemas financeiros.

Renasceu em 2009, mas os problemas teimavam em não desaparecer e, poucas primaveras volvidas, viu-se obrigado a extinguir o futebol sénior. Quis o destino que um quase ex-jogador da formação do distrito do Porto assumisse os destinos do clube e, para já, está a escrever-se história, que o próprio conta ao Maisfutebol.

«Em 2015/2016 o clube estava a passar uma má fase, para variar…»

Eduardo Felipe Godinho, ou simplesmente Edú, chegou a Portugal, oriundo do Brasil, para representar o extinto FC Marco, mas uma série de «imbróglios» impediram-no de cumprir esse objetivo, acabando no «vizinho» Penafiel.

Quase duas décadas depois, em 2016, e depois de passagens por clubes como Desp. Aves, Trofense e Boavista, por exemplo, quis o destino que Edú voltasse ao ponto de partida no nosso país, mas agora a sério, e com um cargo de responsabilidade acrescida: a de ser presidente.

E como é que, pergunta o caro leitor, Edú trocou o relvado e as chuteiras pela gravata e a pasta?

«Em 2012, quando parei de jogar, abri uma agência de viagens e estabeleci-me mesmo na cidade», começa por contar o ex-médio, acrescentando que já tinha conhecido a esposa no Marco e constituído família.

Edú (à esquerda) com José Oliveira (à direita), treinador do Marco (facebook do AD Marco 09)

«Em 2015/2016 o clube estava a passar uma má fase, para variar, e fui contactado por algumas pessoas aqui da cidade, pelo facto de saberem que eu tinha sido profissional do futebol. Pediram-me para colaborar com o clube, para ele não acabar outra vez. Como o futebol sempre foi a minha vida e estava com saudades, disse que sim, mas desde que pudesse constituir uma direção da minha confiança.»

Mal chegou ao clube marcuense, Edú virou-se para a formação: «Quando chegámos, o clube estava numa fase muito má. Não tínhamos seniores, tínhamos cerca de 40/50 atletas, não mais que isso, e uma das coisas que decidimos foi apostar na formação.»

«Montaríamos uma equipa sénior, uma coisa económica, e através da formação tentaríamos levantar o clube outra vez. E pronto, é o que tem acontecido, subimos de divisão nos dois últimos anos e se ganharmos no domingo [frente ao Caíde Rei] também fica praticamente garantida a subida este ano.»

O marketing e o «orgulho marcuense»

A verdade é que, tal como diz Edú, o Marco soma duas subidas consecutivas – da 2.ª divisão da AF Porto para a 1.ª e da 1.ª para a Divisão de Honra –  e agora prepara-se para ascender à Pró-Elite, o último degrau antes de chegar ao Campeonato de Portugal.

Mas afinal, o que mudou no clube em tão pouco tempo?

«Uma das coisas que eu notei é que havia um afastamento da cidade em relação ao clube novo [o AD Marco 09]. Notava-se mesmo que havia uma antipatia, nunca foi aceite muito bem o fim do FC Marco e o novo clube não ter um nome muito parecido, as pessoas não gostaram e estavam descontentes», argumenta.

«Então propusemo-nos logo a tentar criar simpatia com a cidade. Começámos a trabalhar muito a parte do marketing, para passar às pessoas que o clube era o mesmo, simplesmente neste momento não podemos usar o nome original por questões legais, mas que o clube continua a representar a cidade na mesma. Tentámos passar aquela coisa do orgulho marcuense e quando começámos a subir de divisão as pessoas começaram a acreditar novamente.»

O símbolo do clube (facebook AD Marco 09)

Não só a relação com os adeptos melhorou, mas também com as marcas da cidade: «Não só a nível de adeptos, neste momento já vemos o estádio bem composto, mas também a nível de apoio, hoje em dia as empresas já se querem associar a nós, somos um clube com credibilidade, uma credibilidade conquistada.»

«As pessoas estão sedentas de ver o Marco nos nacionais»

E agora, à beira de três subidas consecutivas, dá para sonhar com a quarta e o regresso aos campeonatos nacionais?

«Queríamos chegar o mais rapidamente possível à elite, que apesar de ser um campeonato distrital tem muitos clubes históricos, como o Tirsense, o Freamunde, o Lousada… queríamos chegar a esse patamar, era um objetivo da direção.»

«Chegar ao Campeonato de Portugal é um sonho. Nem posso dizer que é um objetivo, é um sonho. O Marco tem uma estrutura fantástica, há clubes na II Liga que não têm um estádio como nós temos, nem têm campos de treino como nós temos. É um clube que tem muitos recursos a nível material. Mas neste momento anda nos distritais. É pena ver um clube como o Marco, que até lutou pela subida à I Liga há cerca de 15 anos, agora nos distritais. É um sonho voltar aos campeonatos nacionais», confessa.

«É um sonho, não só meu e da direção como da própria cidade. As pessoas estão sedentas de ver o Marco nos nacionais, que é o lugar que o clube merece.»

Edú assume o sonho, mas não abdica da bandeira que hasteou desde o primeiro dia em que chegou ao clube: a da formação.

«A formação é a nossa maior aposta e vai continuar a ser. Foi isso que propusemos quando entrámos e tem dado frutos. No nosso plantel, de 28 jogadores, cerca de 18/19 são formados no clube. Tem sido muito bom, não só para o clube mas também para os jovens da cidade, sentem que o clube aposta neles», atira.

Serrinha, o capitão goleador e rosto da bandeira da formação

Ora, um dos principais rostos dessa bandeira é Bruno Filipe Soares Pinto Serra, mais conhecido por Serrinha.

Aos 23 anos, o avançado leva 15 golos em 17 jogos para o campeonato e tem sido um dos destaques do plantel orientado por José Oliveira.

«Filho» da cidade, Serrinha começa por contar que iniciou o seu percurso no Marco «por volta dos seis ou sete anos». Foi lá que cumpriu toda a formação e onde jogou quase toda a vida, com exceção da altura em que o FC Marco foi extinguido.

Ao nosso jornal, Serrinha admite que jogar no Marco é um sonho.

«É um clube muito especial, que me deu muito. Luto sempre mais um bocadinho em campo porque é o clube da minha terra… Era um sonho chegar aos seniores, concretizei-o, ainda consegui a braçadeira de capitão, claro que foi um sonho que concretizei», confessa.

«O Marco e as pessoas de Marco merecem estar nos campeonatos nacionais»

Conhecedor profundo da realidade do clube, Serrinha atribui este «renascimento» saudável às «mãos certas» de Edú.

«Já o disse várias vezes, o clube está nas mãos certas. O Edú conseguiu dar uma força muito grande, pela pessoa que é e pelo que passou, tudo isso passou para os atletas e deu-nos ainda mais força, e tem corrido muito bem.»

Para o jovem atacante, o segredo da mudança está na transparência: «O que mudou? O facto de as pessoas serem sinceras, têm muita transparência, nesse aspeto mudou muita coisa… são muito sinceros connosco, nunca nos faltou nada, as pessoas deram-nos todas as condições para sermos felizes dentro de campo e não termos preocupações.»

Serrinha a festejar um golo

Tal como o «seu» presidente, Serrinha assume que a terceira subida consecutiva está «mais perto» do que o plantel imaginava, fruto do «muito trabalho e da união dentro do balneário», mas mantém os pés no chão em relação ao Campeonato de Portugal.

«No futebol não há impossíveis, mas um passo de cada vez, foi isto que nos foi passado, devagar, lutando a cada ano pelo nosso objetivo, mas se para o ano correr bem não vamos rejeitar a subida de divisão, é o lugar onde o Marco e as pessoas de Marco merecem estar, nos campeonatos nacionais», garante.

Futebol Clube do Marco ou Associação Desportiva de Marco de Canaveses 09, a verdade é que o Marco esteve perto de alcançar o topo do futebol português em 2005, mas o anos seguintes levaram-no ao abismo. O «jovem» Marco como que renasce agora com outro nome, é certo, mas «sedento» de subidas (para já são duas) e o Campeonato de Portugal já só está praticamente um passo.

Rafael Vaz