Sem água quente e só não passaram fome graças à solidariedade de um amigo, que lhes foi levando bens alimentares. Assim ficaram sete jogadores estrangeiros da AD Oliveirense desde que a insolvência ordenou o encerramento de portas no final de fevereiro.

Os atletas, maioritariamente argentinos, com idades entre os 19 e os 23 anos que estão instalados em duas casas de Santo Tirso em que a administração da SAD os colocou, receberam este sábado uma ajuda do Sindicato dos Jogadores (SJPF).

«Eles só não passaram necessidades sérias alimentares porque felizmente uma pessoa, por caridade, os foi apoiando, uma amizade que fizeram cá em Portugal e que os apoiou com géneros alimentares. Não têm água quente, a comida era pouca... O que fizemos ontem foi levar-lhes alguns géneros alimentares e acionar o fundo de garantia salarial com uma quantia muito residual, de 350 euros a cada um deles, só para terem um fundo de maneio para a questão alimentar», disse ao Maisfutebol fonte do (SJPF).

«A casa não tem muitas condições, mas estamos a resolver a questão da água quente, tem eletricidade… agora o objetivo é dar-lhes condições de subsistência, que nada lhes falte, e ver com as embaixadas e os que puderem e o desejarem, regressarem ao seu país», adiantou a mesma fonte.

Segundo o sindicato, «por exemplo, um dos jogadores não chegou a assinar contrato profissional. Assinou um contrato promessa de trabalho e quando chegou a Portugal, o contrato nunca chegou e foi inscrito como amador», por isso é preciso «analisar ao pormenor, em termos jurídicos, o caso de cada um» para se poder resolver a situação.

O sindicato diz que estes são alguns dos jogadores que já tinha encontrado quando foi chamado em outubro por causa do pré-aviso de greve ao jogo da Taça de Portugal devido aos salários em atraso. «Eles já tiveram muitos problemas no início da gestão desta administração», frisa a fonte sindical.

«Quando foi declarada a insolvência, foi com base em muitos indícios de uma gestão que não era propriamente lícita. Desde que o argentino Sebastian Diericx assumiu a SAD os fluxos financeiros não passavam pela conta do clube propriamente dita», aponta o sindicato, dizendo que esta foi a causa para uma insolvência invulgar.

«Não é muito normal termos um processo de insolvência com esta rigidez em fechar portas. Não me lembro de nenhum clube a quem isto tenha acontecido. Para nós também foi muito difícil de encarar porque o administrador foi muito incisivo. Não só encerrou a atividade, como cessou todos os contratos e trabalho. Desde 28 de fevereiro, todos os jogadores ficaram desempregados e estes jogadores estrangeiros que já estavam numa situação de maior fragilidade, pior ficaram.»

Um grupo de 12 jogadores estrangeiros, maioritariamente argentinos, ainda antes deste caos do fecho da SAD foi enviado pela administração da AD Oliveirense para a região de Bragança e tem lá permanecido com ligação a outro clube. Outros conseguiram celebrar contrato com outras formações porque a Federação Portuguesa de Futebol autorizou a que fossem inscritos excecionalmente, dado o prazo já ter findado, mas uma grande parte do plantel, que incluía jogadores com contrato profissional e outros inscritos como amadores, continua sem emprego.

Leandro Albano, um dos capitães de equipa, é um dos jogadores que cairam no desemprego. A notícia de que os companheiros de equipa estrangeiros estão a passar dificuldades foi uma novidade - «porque achava que eles já tinham voltado a casa» -, mas a atitude da SAD para com eles não o surpreendeu.

«O que eles estão a fazer é desumano, mas não me surpreende. Desde o início que sofremos muito com alguns atrasos de salário, chegou a três meses, houve promessas que não foram cumpridas… treinadores foram embora, jogadores foram embora… já tinha havido jogadores a passarem dificuldades em termos de alimentação, sem luz, sem água quente em casa…», relata o jogador.

«Eu tenho sorte porque tenho cá a minha família, mas agora vou ter de ficar este meio ano parado, a minha sorte é que tenho uma casa com jardim, posso fazer algum exercício para não ficar parado à espera de uma solução porque a SAD nem descontos fez sobre o meu contrato. Eu nem subsídio de desemprego estou a receber. Estou a falar com o sindicato a ver o que se consegue resolver, porque a pandemia também complicou isto tudo», conta Leandro Albano.

«A resposta imediata para os jogadores é o Fundo de garantia da Segurança Social que é altamente burocrático, demora muito tempo e exige bastantes documentos, mas vamos dar todo o apoio para que o que se venceu possa ser recuperado nesse fundo. E, felizmente, como para a maior parte dos casos foram celebrados contratos profissionais, com contribuições para a Segurança Social, ainda que em dívida, estamos tranquilos até aí. Mas temos aqui uma série de meses em que há jogadores profissionais desempregados e sem grande hipótese de resolver», diz o sindicato, que adianta que, «se for necessário para um caso de maior emergência», vai acionar o Fundo de Solidariedade.

Sara Marques