Um, dois, três, quatro… Quem viu Sebástien Haller aparecer uma e outra vez na cara de Adán para atirar para o fundo da baliza do Sporting acreditaria com dificuldade que o avançado franco-marfinense fez na noite de ontem, em Alvalade, a sua estreia na Liga dos Campeões.

Mais: no primeiro jogo que fez com a camisola do Ajax nas competições europeias, que terminou com uma retumbante vitória por 5-1 em casa dos leões, o goleador de 27 anos igualou um feito de uma lenda do clube neerlandês.

Em novembro de 1992, Van Basten, então ao serviço do Milan, fez frente aos suecos do IFK Gotemburgo um póquer na estreia na Liga dos Campeões – nessa que foi a primeira época da competição com a nova designação, após substituir a Taça dos Campeões Europeus.

Haller nem era nascido, mas quase 29 anos volvidos tornou-se no segundo jogador a conseguir marcar quatro golos na estreia na principal competição europeia de clubes.

Em janeiro, o Ajax bateu o recorde transferências ao contratá-lo por 22,5 milhões de euros ao West Ham, que um ano e meio antes havia pago 50 milhões ao Eintracht Frankfurt.

Haller ao serviço do Eintracht Frankfurt

Apesar do investimento, um erro de secretaria impediu a inscrição de Haller para disputar a Liga Europa. Ainda assim, o seu impacto na equipa de Erik ten Hag foi imediato: em 29 jogos desde a sua contratação fez 21 golos e nove assistências.

Depois de ter despontado no Auxerre, onde fez a formação, e de três boas épocas no Utrecht, onde venceu o troféu de jogador do ano (2015), Haller destacou-se nas duas épocas na Alemanha pelo Eintracht Frankfurt – onde conquistou a Taça da Alemanha ao Bayern, em 2017/18 – até à transferência milionária para a Premier League, em 2019.

Os 14 golos em época e meia pelo West Ham acabaram por não convencer depois de um investimento de 50 milhões e o goleador acabou por rumar a Amesterdão, a tempo de vencer campeonato e taça dos Países Baixos na última época.

Fã de Henry comparado a Trezeguet

Haller nasceu em 1994 em Ris-Orangis, um subúrbio 20 quilómetros a sul de Paris. Filho de pai francês e mãe costa-marfinense, o jovem começou por praticar judo, desporto que era mais do agrado da dona Simone Kuyo, a mãe com quem tem uma relação muito próxima, tal como com a irmã Armelle e o irmão Sery Tessia.

A sua paixão, porém, era o futebol. Os pais acabaram por ceder e acompanhá-lo quando começou a dar os primeiros pontapés na bola, passando a infância e adolescência em duas academias: começou no Vigneux e passou Bregtiny Foot, antes de assinar um contrato de três épocas pelo Auxerre. Essa oportunidade surgiu após uma boa prestação no Mundial de sub-17 de 2011, ao serviço da seleção francesa.

Haller representou os «Bleus» em todos os escalões de formação, exceto na seleção principal.

Avançado possante, com 1,90m, era visto como uma possível alternativa a Giroud. Por ser ambidestro e mostrar atributos técnicos aliados à capacidade física houve quem o comparasse a David Trezeguet, apesar de o seu ídolo ser Thierry Henry.

Deschamps, no entanto, nunca lhe deu uma oportunidade na seleção principal de França e em novembro do ano passado Haller decidiu aceder ao convite para representar a Costa do Marfim, onde já leva três golos em seis jogos.

É tido como um jogador low profile: não tem tatuagens e revela poucos pormenores da sua vida em família nas redes sociais.

Uma das raras exceções foi em 2017, aquando do nascimento de Ciara.

«Bem-vinda, Ciara. Estou tão orgulhoso da minha mulher, que me deu a oportunidade de ser pai pela primeira vez», partilhou no Twitter, juntamente com uma foto da filha recém-nascida.

O estilo descontraído fez com que desde jovem fosse conhecido por «The Cool Bird» – o pássaro fixe, em tradução livre. Niko Kovac, seu treinador no Eintracht Frankfurt, tinha para o seu goleador outra alcunha: chamava-lhe «Bulldozer».

A julgar pela exibição de Alvalade, o epíteto parece apropriado.

No final da goleada ao Sporting, ainda assim, o Ajax «rebatizou-o» com o nome que na língua inglesa é dado aos craques.

Numa foto com a bola do jogo e o prémio de MVP o clube de Amesterdão legendou: Sébastien «Baller».

Sérgio Pires