Com 23 milhões de seguidores no Instagram e no Tik Tok, a marca de roupa chinesa Shein está a ter um boom nunca antes visto.

A Internet está cheia de vídeos que mostram camisolas coloridas e saltos altos por menos de dez euros. 

Mas que a marca de roupa online tinha roupa barata já todos sabíamos. E que está a ser um sucesso, também... só não sabemos é à conta do quê ou de quem.

A marca chinesa, que vende exclusivamente online, não divulga publicamente dados sobre as condições de trabalho exigidos, tanto em Inglaterra como na Austrália, segundo noticia a agência Reuters.

A empresa chegou a declarar que as condições de trabalho nas fábricas eram certificadas por organismos internacionais, com documentos falsos, segundo a Reuters. 

Nunca se questionou sobre como é que a marca consegue praticar preços tão baixos?

Em Inglaterra já.

Na terra da rainha Isabel II, as empresas com determinado tamanho como é o caso da Shein, são obrigadas a divulgar, nos seus sites, todos os passos a tomar para combater o trabalho forçado como faz parte da lei da escravidão moderna do país desde 2015.

Mas a marca chinesa, que vende desde vestidos e sapatos até artigos para a casa e animais, omite alguns dados no que toca à responsabilidade social. Afirma que nunca, "jamais" se involveu em trabalho forçado ou de crianças... contudo não fornece as informações da cadeia de abastecimento impostas e obrigadas pela lei britânica. 

Esta lei determina que as empresas que faturem mais de 36 milhões de libras (cerca de 42 milhões de euros) em mercadorias por ano, sejam obrigadas a fornecer uma declaração com um link, de forma a que seja acessível a todos, e num local de destaque na sua página. Este destaque deve ser acompanhado por um resumo financeiro, assinado por um diretor e descrevendo as etapas tomadas para combater a escravidão laboral. 

A empresa sediada na China recusou-se a fornecer a receita anual à Reuters, afirmando que não o faz publicamente, apesar de analistas estimarem que a empresa esteja avaliada em 15 mil milhões de dólares (cerca de 12 mil milhões de euros). E com uma receita anual de pelo menos cinco mil milhões (mais de quatro mil milhões de euros).

Na Austrália também há uma lei semelhante que exige que as empresas com lucros a cima dos 100 milhões de dólares australianos anuais, submetam uma declaração anual sobre a escravidão moderna à Força de Fronteira Australiana (ABF),

Esta entidade (ABF) confirmou à Reuters que ainda não tinha recebido essa declaração.

A falta de transparência da marca e os preços baixos têm despertado a atenção dos vigilantes de trabalho Worker Rights Consortium e do Business & Human Rights Resource Center, que se questionam como consegue a retalhista produzir com valores destes. 

Os concorrentes diretos, como a H&M, Zara-parent Inditex, ASOS, têm padrões de conduta bem mais rígidos e, publicam regularmente nos seus sites declarações e listas de fábricas. 

Num comunicado no site da Shein, consultado pela agência Reuters, a 26 de julho, a marca afirmava que as fábricas com as quais trabalhava eram certificadas pela Organização Internacional de Padronização (ISO, na sigla original) e que tudo estava em conformidade com os rígidos padrões de trabalho justos estabelecidos por organizações como a SA8000.

Acontece que a SA8000 é uma organização que gere os princípios básicos dos direitos humanos como trabalho infantil, trabalho forçado, saúde e segurança, e a ISO apenas estabelece padrões com os quais se deve trabalhar e não tem capacidade de certificar nada nem ninguém. 

Para além disso, a gerente garantiu à Reuters que nunca tinha estado em contacto com a marca descrita. 

Depois destas declarações e confrontada com a situação, a Shein retirou o comunicado do site. 

Contudo, sem os documentos oficiais e sem a colaboração e boa vontade da empresa, não é possível averiguar as condições de trabalho na empresa nem ter acesso aos salários pagos aos trabalhadores. 

Redação / IM