No dia em que a Federação Dinamarquesa anunciou que Christian Eriksen vai passar a ter um cardiodesfibrilhador implantável, o Maisfutebol contactou um cardiologista para perceber o que isso poderá significar na carreira e na vida do dinamarquês.

Rui Plácido, cardiologista, explica que, no dia a dia, Christian Eriksen pode ter uma vida «sem limitações», mas frisa que «o conjunto de doenças que leva à colocação do cardiodesfibrilhador implantável (CDI) no âmbito de uma morte súbita cardíaca abortada contra-indica o desporto de alta intensidade porque este pode precipitar as arritmias malignas».

Recorde-se que Christian Eriksen caiu inanimado no relvado durante o Dinamarca-Finlândia, tendo de ser reanimado em campo e levado para o hospital, onde ainda se encontra.

«Não sei o que esteve na base da paragem cardíaca do jogador, mas existe uma multiplicidade de possibilidades para justificarem o quadro clínico», diz o médico, apontando que «a principal causa de morte súbita em atletas é cardíaca e, dentro das principais doenças que afetam o coração, a mais comum é a miocardiopatia hipertrófica, que se caracteriza por um aumento anormal da espessura da parede do coração.»

«Essa doença pode ter como manifestação a insuficiência cardíaca, um conjunto de sinais caracterizados por cansaço, falta de ar, inchaço nas pernas, que limitam a vida diária, mas muitas vezes a apresentação inaugural é sob a forma arritmias malignas que podem causar morte súbita. E essas arritmias são muitas vezes precipitadas pelo exercício físico, por isso é que no caso de miocardiopatia hipertrófica com critérios de risco o exercício físico de elevada intensidade está contraindicado», explica o cardiologista, que destaca «a importância de haver campanhas de sensibilização para a população em geral e ensino massivo das manobras de suporte básico de vida. Porque este jogador teve a sorte de ter tido uma paragem cardíaca prontamente assistida e abortada. Se tivesse acontecido noutro contexto, poderiam não estar ao dispor métodos que pudessem evitar a a morte.»

«As doenças cardíacas que causam morte súbita nos atletas dividem-se em formas com base genética/congénitas ou adquiridas. As principais causas genéticas/congénitas são a miocardiopatia hipertrófica e as anomalias coronárias. Nas formas adquiridas destaca-se a miocardite, que é uma inflamação das paredes do coração, cuja causa mais frequente é uma infeção viral, que pode inclusive ser causada pelo novo coronavírus. São normalmente transitórias e, nesses casos, não se aplica o CDI», aponta o médico.

O médico aponta a doença cardíaca estrutural (ex.: miocardiopatia hipertrófica) ou outra de causa genética como a causa mais provável do problema de Eriksen.

«O CDI é um dispositivo que tem como objetivo prevenir a morte súbita. Deteta a presença de arritmias malignas e consegue tratá-las, muitas vezes com a aplicação de um choque elétrico. Está indicado quando é detetada uma arritmia ventricular maligna, por vezes sob a forma de uma morte súbita abortada, em que se prove que não é causada por uma situação clínica reversível», explica Rui Plácido.

«Esse aparelho é colocado por baixo da pele/músculo e tem uns elétrodos colocados dentro do sistema venoso até ao coração. Há também outros que são dispositivos colocados abaixo da pele, mas sem elétrodos dentro do coração», acrescenta, apontando: «Tendo em conta que a causa de perda do estado de consciência do jogador foi uma arritmia cardíaca de causa não potencialmente reversível, pois sabemos que irá ser submetido à implantação de um CDI, duvido que haja indicação para que volte a retomar a atividade física de alta intensidade.»

«Na maioria dos casos, as arritmias podem ser revertidas pelo CDI, mas pode não acontecer», acrescenta o cardiologista, apontando outro motivo.

«Este aparelho deteta frequências cardíacas muito elevadas e interpreta como sendo uma arritmia de origem ventricular. Várias manifestações disrítmicas de doenças cardíacas que justificam a colocação de CDI podem ser precipitadas pelo exercício físico de elevada intensidade.

Além disso, segundo o médico, «movimentos extremos podem inclusive causar fraturas no cateter do CDI.»

Questionado sobre o caso de Daley Blind, jogador holandês do Ajax, que tem um CDI e continua a jogar, o médico afirmou que «esta deve ser uma exceção.»

«No dia-a-dia, não há limitações. As normas de orientação internacionais especificam que, passadas umas semanas da morte súbita abortada e colocação de CDI, na maioria dos casos, o doente pode retomar atividade física que não seja de alta de intensidade», acrescentou.

Antigo médico da seleção reticente

Também Henrique Jones, antigo médico da seleção, falou sobre o tema. Em declarações à TVI, se mostrou renitente quanto ao regresso do jogador dinamarquês à competição, ainda que refira também não ser totalmente impossível.

«Uma situação destas deixa sérias dúvidas quanto a um possível regresso à alta competição. No entanto, é muito cedo para perceber as causas desta paragem, tentar corrigi-la e decidir sobre a prática desportiva», começou por dizer.

«Sabemos que muitas pessoas com desfibrilhadores implantáveis podem praticar desporto, mas a alta competição tem outras implicações», acrescentou, conforme pode ouvir no vídeo associado a este artigo.

Sara Marques