«O Estranho Caso de Angélica» teve a estreia mundial nesta quinta-feira no Festival de Cannes 2010 e Manoel de Oliveira apresentou em pessoa o filme que abriu a secção «Un Certain Regard».

«O Estranho Caso de Angélica» conta a história de Isaac (Ricardo Trêpa), um judeu que foge do massacre da II Guerra Mundial. Ao chegar a uma cidade da região do Douro, o jovem é chamado para fotografar Angélica (Pilar Lopez), que tinha acabado de falecer.

Aos 101 anos, o realizador mais velho do mundo finalmente concretizou o sonho de trazer para o grande ecrã um argumento que está na sua posse há quase 60 anos: «Pensei em fazer este filme logo a seguir à II Guerra Mundial. Hitler tinha morto seis milhões de Judeus e eles estavam a ir para Portugal e para os Estados Unidos. Agora é a mesma coisa, mas com os muçulmanos», referiu Manoel de Oliveira, citado pelo site do jornal «The Guardian», na conferência de imprensa que antecedeu a exibição do filme.

Apesar de decorrer nos anos 50, o realizador explicou que a película foca em temas contemporâneos, como a crise económica ou o desequilíbrio ambiental: «A crise económica é um assunto muito sério. Vejamos o caso da Grécia. Além disso, eu juntei ao filme a poluição, as chuvas que destruíram a Madeira e o Rio de Janeiro. Eu achei que não ia conseguir chegar ao Festival por causa da história do vulcão».

Num filme onde a morte é o tema central, Manoel de Oliveira refere que não tem medo de morrer: «Quando nascemos, a única coisa que podemos ter a certeza é a de que um dia morreremos. Só tenho medo é de sofrer. Felizmente, até agora, ainda não passei por nada de grave. A morte, para mim, é mais uma saída. Como Tolstoi dizia, é uma porta, uma porta de saída».

A ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, assistiu à estreia de «O Estranho Caso de Angélica». Em declarações à Agência Lusa, a Ministra mostrou-se «absolutamente encantada» com o mais recente filme de Manoel de Oliveira: «Ele não recorre a altas tecnologias, recorre a uma doçura e a uma poesia no tratamento de imagem que me fez lembrar rendas de bilros».

«Eu diria que o único defeito do filme é a música ser boa demais, no sentido em que nos transporta para a música e quase nos faz esquecer o lado pictórico que o acompanha», acrescentou Gabriela Canavilhas sublinhando que o filme «foi muito aplaudido» pela audiência.

Manoel de Oliveira continua inspirado e encontra-se já a planear um novo projecto, do qual não revelou nenhum detalhe.