«O Barão» de Edgar Pêra faz esta terça-feira a antestreia nacional no IndieLisboa. E será com certeza um dos filmes mais diferentes para ver. Os espectadores que o digam. Por tudo aquilo a que se (não) está habituado nos dias de hoje e porque o realizador português fez questão de criar um campo (muito) aberto para a interpretação; uma interpretação, mais do que permitida, sugerida, que começou por ele próprio.

O contexto comum a todos é anunciado logo no início: «O Barão» escrito por Branquinho da Fonseca em 1942, a adaptação ao cinema que foi feita na época e que foi destruída pelo regime - utilizando a descrição de uma sinopse do realizador, o Barão é «um tiranete, um vampiro marialva que aterrorizava os habitantes de uma região montanhosa» e estas parecenças não sobreviveram à censura da época.

Edgar Pêra faz renascer o que desapareceu. E a sua criação surge, nas suas palavras, na forma de um «remake neuro-gótico de um filme fantasma». Marcos Barbosa é o «Inspector» que vai até aos domínios do «Barão» (Nuno Melo) para avaliar o comportamento da professora (Marina Albuquerque). Se a carruagem que transporta o Inspector nos leva já a nós também no ambiente e para terras de Nosferatu,pouco tempo demoramos então a lá chegar e a conhecer essa figura de quem só o nome assusta e a sua governanta e também figura central «Idalina» (Leonor Keil).

E então essa viagem fantástica e fantasmagórica começa verdadeiramente, depois de todos os prenúncios.

Todas as apreciações que têm acompanhado este bem recebido filme vão tomado o posto de lugares-comuns pela sua frequência - como o filme gótico, que bebe no expressionismo alemão, e assim...; no fundo, porque é incontornável pensá-lo e associá-lo. Edgar Pêra fez um filme nos dias de hoje como os da época de então.

«Quando comecei a ler Branquinho da Fonseca percebi que ele sugere mais do que impõe na sua leitura. Para a minha ideia de cinema é óptimo porque podia eu próprio fazer a minha interpretação», assumiu Edgar Pêra ao Cinebox.

A viagem nos domínios daquele vampiro de outros tempos (re)criado nos tempos modernos acaba por não ser longa temporalmente. «A personagem do Barão encarna as características do ditador, do tiranete», mas ele será também em sucessão «o vampiro desdentado, sem sangue» e cujo mote Quem manda aqui sou eu! vai tendo cada vez menos credibilidade como o estertor ( anunciado(?)) da sua condição.

A preto e branco - como não podia deixar de ser para evocar o que é -, a jogar com a luz numa técnica que o realizador toma emprestada do teatro, compondo as legendas em inglês como complemento do jogo estético realizado por si, com todo este revivalismo (recuperando o conceito) «neuro-gótico» concentrado numa personagem que remete para as primeiras delas na história do cinema, o cineasta português assume que fez um filme em que «as pessoas podem projectar a sua cinefilia».

«O filme, ao contrário de muitos outros que fiz, é um ecrã para a cinefília do espectador», reforça Edgar Pêra explicando que, no que respeita aos espectadores, «cada um foi buscar o seu stock pessoal de referências para identificar o que tinha ali». «Jogo com esses níveis todos», confessa o realizador dando como exemplo a banda sonora (As Vozes da Rádio) que «entra em confronto contemporâneo com a imagem» que é esteticamente criada.

O papel da banda sonora estende-se até mesmo ao fim - e convém não ter pressa. É mais um exemplo do jogo que Edgar Pêra faz em direcção a um espectador que o cineasta convida, mas a quem não impõe; somente sugere: «Todos os filmes que fiz são à espera dos espectadores. Mas não tenho a veleidade de achar que [este filme] é para todos. Os espectadores têm de ir ter com o filme.»

«O Barão», Edgar Pêra, Portugal, 2010, 95`

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