Uma comunidade fechada e agarrada ao Portugal que deixou nos anos 1940 é o retrato dos portugueses residentes na Argentina capturado pelo realizador luso-argentino Fernando Moura no documentário «A Diáspora», que vai ser exibido no Festival de Cinema de Seia, o Cine Eco, que começa este sábado.

Com exibição prevista para segunda-feira, «A Diáspora» foi filmada em três períodos distintos - 1999, 2004 e 2007 - e tentou reconstruir a história desses portugueses que decidiram ir viver para a Argentina.

«O documentário trabalha essencialmente três partes: a saída de Portugal, os motivos e como se saiu; a saudade das cinco personagens fundamentais do documentário, três das quais nunca mais regressaram; e o mito do retorno, porque sempre pensaram que algum dia iriam voltar», explicou Fernando Moura, ele próprio filho de emigrantes na Argentina.

Sublinhando que pretendeu realizar um trabalho «nunca feito até agora», o realizador lamentou que «nunca ninguém tenha tentado retratar o que os portugueses fazem na Argentina». «São a sétima corrente imigratória na Argentina. Cerca de 50 mil portugueses residem naquele país, dos quais mais de 40 por cento são de Seia e quase 50 por cento do distrito da Guarda», afirmou.

Apesar de integrada, a comunidade portuguesa na Argentina sempre foi muito fechada, tendo criado jornais e rádios em português e várias associações onde promoviam a sua terra natal. Nesse sentido, Fernando Moura destacou a entrevista que fez aos embaixadores de Portugal em Buenos Aires em 1999 e em 2007, na qual ambos foram unânimes: «A comunidade continuava na mesma - muito fechada.»

O realizador explicou ainda que o grande volume da emigração de portugueses para a Argentina aconteceu na década de 1940 e 1950 porque, enquanto a «maior parte dos países fechou as portas à imigração, Buenos Aires lançou um plano estratégico para atrair imigrantes europeus» acrescentando que «muitos portugueses foram para a Argentina nessas décadas porque havia muitas regalias».

Sem grandes ilusões

A decisão de Fernando Moura de concorrer ao Festival de Cinema de Seia, o CineEco, prende-se com o facto de três das cinco principais personagens do documentário serem naturais da cidade: «Vai ser exibido na terra da maior parte dos protagonistas do filme. Tem uma vertente muito mais emotiva e forte por causa disso. Tinha de ser estreado na terra das pessoas que são protagonistas.»

A concorrer pela categoria Lusofonia, Fernando Moura não tem ilusões: «Vou concorrer com um filme de Luís Galvão Telles, onde foram investidos dois milhões de euros» contrapondo que no seu caso forma «dez anos de investimento» e que não sabe quantificar o montante que investiu: «Mas foi muito dinheiro.»

Este é o primeiro documentário de Fernando Moura, de 35 anos, natural de Buenos Aires e filho de pais portugueses. «Sou membro da sociedade que retratei», disse.
Redação