«A Vingança de uma Mulher» fez neste domingo a estreia no Lisbon & Estoril Film Festival. Integrando a Competição do festival, o filme de Rita Azevedo Gomes recebeu «bravos» e aplausos de pé num Centro de Congressos do Estoril, que não esteve cheio - longe disso -, mas que deixou muito satisfeito quem viu a primeira projecção desta obra.

O filme não encheu a sala, mas realizadora, elenco e produtores estiveram presentes nesta primeira apresentação (que vai repetir) de «A Vingança de uma Mulher». «Não tenho muita coisa para dizer. Estamos aqui para ver o filme», disse Rita Azevedo Gomes antes da projecção (acompanhada pela Nabiça, cadela que entra no filme). Mas a sua reacção depois dos «bravos» e aplausos foi de grande satisfação: «Houve pessoas que gostaram. Foram as primeiras pessoas que viram o filme e isso é bom.»

Adaptado pela realizadora portuguesa do conto homónimo de Barbey D`Aurevilly (inserido na obra «Les Diaboliques»), «A Vingança de uma Mulher» é a história da «Duquesa de Sierra Leone» (Rita Durão) que revela a sua tragédia e vingança a «Roberto» (Fernando Rodrigues). É uma adaptação assumidamente própria, com uma estética cuidadíssima, assim como a banda sonora é requintada, tudo conjugado para acompanhar no seu ritmo (também próprio) um texto condizente no seu impacto com a violência de uma história que praticamente não vê o exterior.

«Apeteceu-me filmar num estúdio», disse Rita Azevedo Gomes explicando a intenção: «Eu não sei o que é a realidade. Sempre adivinhei e vi este filme num estúdio. E o texto era fortíssimo e ia mandar nisto tudo.» «Precisava de uma enormidade de uma actriz», disse a realizadora, que escolheu Rita Durão, actriz do teatro, para quase, às vezes, declamar este tal texto cuja descrição da autora diz tudo sobre o seu peso.

É um filme poético e são várias as manifestações artísticas que este «A Vingança de uma Mulher» sugere. A realizadora concede as extrapolações. Mas é, de facto, uma sua concessão, não uma total concordância, como ficou explícito na resposta à sugestão apontada na sala: «É teatro, sim, é o que vocês quiserem. Mas é cinema.» «Não vi o estúdio como teatro», frisou Rita Azevedo Gomes aceitando, no entanto, que «pode haver teatralidade, sim, teatro, música, texto, pintura».

E há, sim, tanta arte que nos é sugerida por quadros autênticos resultantes da sua mise-en-scène, pela representação do tal texto fortíssimo da tal forma às vezes quase declamada, por momentos em que a música é a fala dos actores que representam, como se de uma ópera se tratasse.

«Foram 14 ou 15 anos em que fui pensando nisto», revelou Rita Azevedo Gomes assumindo que não queria dar um tratamento cronológico ao conto de D`Aurevilly e que também evitou as alternâncias temporais com recurso ao flashback. É o cenário que muda dentro do estúdio e a acção (pros)segue no seu período temporal respectivo. «Pensei algumas vezes: isto nunca se vai fazer. Estou contente por não ter sido por outro caminho», confessou Rita Azevedo Gomes: «Vale a pena ser uma mula teimosa.»

A realizadora portuguesa revelou também que tem dois próximos projectos já em preparação. O conto de Robert Musil adaptado por Agustina Bessa-Luís, «A Portuguesa»; e também a correspondência entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. Por enquanto, prossegue a competição no LEFF com a estreia comercial de «A Vingança de uma Mulher» já prevista.

«A Vingança de uma Mulher»

Rita Azevendo Gomes

100m, Portugal 2011

Competição Oficial do Lisbon & Estoril Film Festival

Repete terça-feira, dia 8, às 14h00, no Cinema Monumental