Aos 80 anos de carreira, Eunice Muñoz define-se como “uma pessoa como outra qualquer”, uma “mulher simples”, e é assim que gostava de ser lembrada, embora admita que “não podia deixar de ser” atriz.

“Sou uma pessoa como outra qualquer”, mulher, mãe de seis filhos, com netos e bisnetos, mas, “em princípio, só podia ser atriz”, afirmou, numa entrevista à agência Lusa, lembrando que descende de uma família de atores.

 

“São os pais, são os avós, são as tias”, disse a atriz nascida em 30 de julho de 1928, na Amareleja, numa alusão à companhia teatral ambulante da família, a Troupe Carmo, com a qual, aos 5 anos, já realizava pequenos números musicais.

Tímida - na altura, como hoje -, Eunice chegava a inventar dores de barriga para não ter de subir ao palco: “Eu inventava essas coisas porque não queria representar”. “Era engraçado”, acrescentou, a sorrir.

A estreia deu-se aos 13 anos, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, com a peça “Vendaval”, de Virgínia Vitorino, em novembro de 1941, na companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, concessionária daquela sala no Rossio, onde partilhou o palco com figuras como Amélia Rey Colaço e João Villaret.

A atriz não hesitou em considerar Amélia Rey Colaço – que reparara nela e a convidara para interpretar Isabel naquela peça - a sua “grande mestra” no teatro, sem lhe poupar elogios à grandeza como atriz, nem à “gentileza e ao carinho” com que sempre a tratou.

“Foi a Sra. D. Amélia Rey Colaço que me ensinou, digamos, a pisar o palco. […] Dirigia-me, e eu aprendia tanto com isso”, frisou.

Do D. Maria II e da companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, Eunice Muñoz não se “esquece mais da Maria”, a personagem que encarnou dois anos depois da estreia, na peça “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, e com a qual conquistou a atenção do público e da crítica.

“Eu estava na altura com o casal [Amélia Rey-Colaço e Robles Monteiro] e então era uma confusão, uma coisa… e eu ficava apavorada”, confessou, lembrando que Robles Monteiro lhe dizia: “Se ainda não chorou tudo, vá, então, para o camarim chorar. Depois venha”.

A “Sra. D. Amélia, que não era tão dura”, dizia para o marido: “Não faças isso, não faças isso, coitadinha da miúda”, recorda Eunice Muñoz, esboçando novo sorriso.

Na conversa com a Lusa, Eunice Muñoz volta a mencionar a já conhecida pausa que decidiu fazer dos palcos após o primeiro casamento e o nascimento da primeira filha, entre os 23 e os 27 anos, quatro anos que foram “ótimos, foram muito bons”, porque conheceu “outra gente”, de fora do teatro.

“Conheci outra realidade. Foi muito agradável, foi muito bom. Foi como se nascesse outra vez”, indicou, sublinhando, porém, que ao longo de toda a carreira profissional todos foram “muito generosos” para consigo, tanto o público, como os colegas de profissão ou as várias pessoas com quem se foi cruzando ao longo da vida.

As pessoas compreenderam que era esse o seu caminho, numa alusão ao afastamento dos palcos durante aqueles quatro anos.

Até porque, só ao fim desse tempo teve a certeza de que o teatro era o seu “futuro”, realçou, lembrando também o regresso aos palcos, em 1955, com “Joana d´Arc”, de Jean Anouilh, no Teatro Avenida, em Lisboa.

Ao longo da carreira, Eunice Muñoz deu vida a personagens em “muito mais de 100 peças” de teatro, cruzando quase todos os géneros dramáticos, participou em, pelo menos, 16 filmes, com múltiplos prémios no historial.

O filme de estreia, “Camões” (1946), de Leitão de Barros, com o qual arrebatou o prémio do Serviço Nacional de Informação para a Melhor Atriz Cinematográfica do Ano, levou-a ao Festival de Cannes, na sua primeira edição no pós-Segunda Guerra Mundial.

Eunice Muñoz deu ainda voz a quatro discos de poesia, tem sido presença assídua em novelas e séries televisivas, entre as quais “A banqueira do povo” (1993), um trabalho inspirado na história real da banqueira Dona Branca e na qual “vestiu” a pele da protagonista.

Nada disso faz dela uma diva. Não se assume como tal, nem é assim que quer ser recordada, com o mesmo olhar de quando é confrontada com a sugestão de que o seu nome personifica o teatro em Portugal.

Sobre os atores, encenadores, realizadores com quem trabalhou ao longo da vida, a atriz agradece a todos e a cada um por igual. Tal como é grata a poetas, pintores e escultores, entre as inúmeras personalidades da cultura portuguesa de quem foi amiga e fonte de inspiração.

Eunice Muñoz considera que foi “uma mulher com sorte”. Reservada e discreta, confessou ainda que não foi “nada” fácil conciliar a vida profissional com a pessoal. Casou três vezes e é mãe de seis filhos.

Quando questionada sobre se há alguma personagem preferida a que tenha dado corpo ao longo da carreira, ou alguma que gostasse de ter representado sem o ter feito, Eunice Muñoz aludiu às que a Censura “lhe roubou”, bem como aos seus colegas de profissão.

A rainha Gertrudes, num “Hamlet” que, apesar de ensaiado não chegou ao palco, antes do 25 de Abril de 1974, foi uma das que nomeou. Mas houve “tantas outras”, voltando a reiterar que tanto ela como a geração a que pertence foram “profundamente roubados”, até porque depois “já era tarde”.

Apesar de ter gostado de todas as peças que representou, Eunice Muñoz indicou ter gostado “especialmente da 'Mãe coragem'”.

“Mãe coragem e os seus filhos”, uma encenação de João Lourenço, do Teatro Aberto, para o palco do D. Maria II, em 1986, foi um trabalho com que conquistou vários prémios de interpretação, incluindo o Garrett para Melhor Atriz.

Não por desprimor para qualquer das outras personagens que interpretou, ressalvou, mas talvez porque encarnava um papel de mãe. Ou porque, na altura, a idade ainda lhe permitia protagonizar aquele texto escrito por Bertolt Brecht, no início da Segunda Guerra Mundial, que só podia ser posto em palco após o derrube da ditadura.

De uma carreira de 80 anos, Eunice volta a lembrar que a única coisa que sempre a moveu foi a “determinação” de fazer sempre melhor.

“Na repetição que é o teatro, efetivamente, mesmo quando pensava que ia ter mais uma representação, mais um dia, transformava esse dia numa entrega”, indicou. “Isso esteve sempre comigo, sempre, sempre”, acentuou.

Numa sala repleta de memórias, onde as paredes se tornam exíguas para acolher livros, pintura, escultura, desenho, poesia, ou cartazes de peças que Eunice Muñoz foi guardando “muito bem guardados, tudo muito bem estimado”, como refere a neta Lídia Muñoz, a atriz sorriu sempre, reconhecida e grata à vida que lhe “deu tanto”.

Numa casa onde cada recanto carrega vida e memórias, Eunice tem apenas um “lugar especial”: o seu sofá, onde se senta sempre e onde concedeu a entrevista.

Sobre a atriz, pendurado na parede, sobressai um desenho que a retrata da autoria do escultor Lagoa Henriques, datado de 26 abril de 1976. A atriz, que foi grande amiga do artista, soergueu o olhar e as sobrancelhas, esboçou novo sorriso enquanto juntou as mãos num gesto de gratidão e voltou a remeter-se ao silêncio.

Eunice Muñoz é uma mulher que lê, vê televisão, estende a roupa, às vezes lava a loiça, uma tarefa de que admite gostar muito, que gosta de dar comida aos pombos, na rua ou à janela, e que “aos fins de semana está sempre de serviço” numa casa onde as tarefas são repartidas por todos.

“Está sempre a arrumar alguma coisa”, sublinhou a neta, que acompanhou a entrevista, acrescentando que “a avó é a arrumadeira da casa”.

E quando questionada se era muito caseira, Eunice Muñoz respondeu: “Sim, conforme me dava na telha”.

Enquanto o tique-taque do relógio continua a marcar o compasso do tempo e da poesia que atravessaram toda a conversa com Eunice Muñoz, a atriz tornou a voltar-se de frente para a neta – que a trata por “linda”, “princesa” e sobre a qual diz “com orgulho, que é a maior atriz do mundo” – a quem quer deixar uma palavra.

“Amor”, disse Eunice para Lídia, ao que a neta respondeu com o mesmo termo, enquanto apertavam as mãos e trocavam sorrisos coniventes.

Para Eunice Muñoz, “amor” é mesmo “o mais importante” na vida. Mais importante do que o teatro e do que todos os prémios e condecorações que conquistou ao longo da vida.

Com a sabedoria assente numa vida e carreira longas, e a consciência de que a condição humana e a felicidade jamais se esgotarão em carreira profissional alguma, por mais brilhante, premiada ou condecorada pela Presidência da República, como a sua tem sido.

Agência Lusa / BMA