A 71.ª cerimónia dos prémios Emmy coroou esta madrugada "A Guerra dos Tronos" como Melhor Série Dramática do ano, fechando em 59 a soma das estatuetas entregues pela Academia de Televisão durante as oito temporadas da saga.

"Fleabag" recebeu o Emmy de Melhor Série de Comédia e "Chernobyl" conquistou o prémio de Melhor Minissérie, sendo que ambas levaram várias outras estatuetas nas respetivas categorias, emergindo como grandes vencedoras da noite.

Durante as três horas da cerimónia, que este ano não teve apresentador, ficou claro que "A Guerra dos Tronos" não teria a noite de apoteose que se poderia prever por ser a última temporada.

Quando o ator Michael Douglas anunciou a distinção de Melhor Série Dramática, a quarta vez que este Emmy foi entregue aos criadores do título da HBO, foi desfeita a dúvida que pairou no ar do Microsoft Theater, em Los Angeles, durante toda a noite: apesar de ter batido o recorde de mais prémios para uma série, "A Guerra dos Tronos" perdeu quase todas as estatuetas para que estava nomeada em 2019.

A série recebeu apenas dois prémios Emmy, com Peter Dinklage ("Tyrion Lannister") a ser o único ator a vencer na categoria de representação para que estava nomeado, Melhor Ator Secundário numa Série Dramática.

Entre Emmys de representação, realização e argumento, a série criada por David Benioff e D.B. Weiss perdeu para "Killing Eve", "Pose", "Ozark" e "Succession", respetivamente, depois de uma temporada final que suscitou reações mistas por parte da crítica e dos espectadores.

Ainda assim, "A Guerra dos Tronos" bateu a competição na categoria mais cobiçada, onde concorria com "Better Call Saul", "Bodyguard", "Killing Eve", "Ozark", "Pose", "Succession" e "This Is Us".

A somar aos 10 prémios entregues na semana passada durante os Creative Arts Emmy, a oitava e última temporada da série recebeu um total de 12 estatuetas, tendo sido a mais premiada da 71.ª edição dos prémios.

No discurso de vitória, David Benioff agradeceu a George R.R. Martin por ter criado este universo e ter apostado em dois produtores que nunca tinham feito isto antes.

É incrível que vocês ainda estejam todos vivos", disse D.B. Weiss, depois de elogiar o esforço da equipa de produção e dos atores, que filmaram a última temporada em condições muito difíceis, com 70 dias consecutivos em temperaturas extremamente baixas em Belfast, Irlanda.

Os últimos dez anos foram os melhores da nossa vida, e para todos os que trabalharam nisto, não consigo acreditar que terminámos, não consigo acreditar que o fizemos", disse Benioff.

Na maior noite da televisão em Hollywood, a série "Fleabag", criada e protagonizada por Phoebe Waller-Bridge, foi uma das grandes surpresas pela consistência das distinções: quatro Emmy nas categorias de comédia.

O título da Amazon Prime Video levou para casa a estatueta de Melhor Série de Comédia, ultrapassando "Barry", "The Good Place", "The Marvelous Mrs. Maisel", "Russian Doll", "Schitt's Creek" e "Veep".

Phoebe Waller-Bridge também venceu o Emmy para Melhor Atriz numa Série de Comédia e Melhor Escrita para uma Série de Comédia, com Harry Bradbeer a levar a estatueta de Melhor Realização numa Série de Comédia por "Fleabag".

Nas categorias de Minissérie ou Filme para Televisão, foi "Chernobyl", da HBO, que levou os prémios mais cobiçados, vencendo Melhor Escrita para Minissérie ou Filme e Melhor Realização em Minissérie ou Filme, além de Melhor Minissérie. A seguir a "A Guerra dos Tronos", foi segunda série mais premiada nas duas noites de entregas de Emmy, com um total de 10 estatuetas,

Seguiu-se "The Marvelous Mrs. Maisel", com oito, "Free Solo", com sete, e "Fleabag", com seis.

Os Emmy, devido ao número elevado de categorias, são habitualmente entregues em duas cerimónias, com a segunda a ser transmitida ao vivo a partir de Los Angeles.

"Last Week Tonight With John Oliver" levou o Emmy de Melhor Série de Variedades – ‘talk show’ e "Saturday Night Live" recebeu o prémio de Melhor Série de Variedades – ‘sketch’. "Bandersnatch (Black Mirror) foi o Melhor Filme para Televisão.

Apelos pró-transexuais, igualdade salarial e imigração

As atrizes Patricia Arquette, Michelle Williams e Alex Borstein usaram o seu discurso de vitória nos prémios Emmy da Academia de Televisão para fazerem apelos em prol de causas e justiça social.

Borstein defendeu os imigrantes, Arquette apelou para o fim da perseguição dos transexuais e dos preconceitos em relação a esta comunidade e Williams pediu igualdade salarial entre homens e mulheres.

Alex Borstein foi a primeira a usar o palco para tomar uma posição em relação à imigração, um dos temas que mais divisão tem causado na política e sociedade norte-americana.

A minha mãe e avó eram imigrantes, sobreviventes do Holocausto", disse Borstein, que venceu o Emmy de Melhor Atriz Secundária em série de comédia pelo papel de Susie Myerson em "The Marvelous Mrs. Maisel".

A minha avó estava na linha de tiro para ser morta e atirada numa vala. Ela perguntou: ‘o que acontece se eu sair da linha?', ele disse: ‘não tenho coração para te alvejar, mas alguém o fará', e ela saiu da linha", contou Borstein. "Por causa isso, eu e os meus filhos estamos aqui. Portanto, saiam da linha, meninas", afirmou.

Também Jesse Armstrong fez uma referência à imigração quando subiu ao palco para receber o Emmy de Melhor Escrita para série dramática, pelo trabalho feito no episódio "Nobody Is Ever Missing" de "Succession", da HBO. A série é alegadamente inspirada na família Murdoch, responsável pela ascensão do império da Fox e Fox News.

[Há] bastantes vencedores britânicos", disse Armstrong, ele próprio britânico. "Talvez demasiados, talvez vocês devessem pensar nessas restrições aos imigrantes", sugeriu. A frase que disse a seguir foi censurada pela Fox, que retirou o som à transmissão.

Antes disso, Patricia Arquette já tinha usado o palco para chamar a atenção para a perseguição de que as pessoas transexuais ainda são alvo, ao vencer o Emmy para Melhor Atriz Secundária em minissérie ou filme, pelo papel de Dee Dee Blanchard em "The Act".

Estou grata por trabalhar e porque aos 50 estou a fazer os melhores papéis da minha vida, mas no meu coração estou muito triste", disse a atriz. "Perdi a minha irmã Alexis e as pessoas trans continuam a ser perseguidas", afirmou.

Arquette disse que é necessário "mudar o mundo" para acabar com a perseguição e dar empregos aos transexuais.

Temos de nos livrar deste preconceito que existe em todo o lado", frisou, dizendo que estará para sempre em "luto" pela sua irmã Alexis, mulher transexual que morreu em 2016 devido a complicações relacionadas com o VIH.

Também Michelle Williams usou o seu discurso de vitória no Emmy de Melhor Atriz em Minissérie ou Filme, pela interpretação de Gwen Verdon em "Fosse/Verdon", do canal FX, para mais do que os habituais agradecimentos à família e equipas.

A atriz chamou a atenção para a necessidade de paridade salarial entre homens e mulheres, referindo que a FX Networks lhe deu o mesmo salário que o protagonista masculino da série, Sam Rockwell, algo que é quase inédito em Hollywood.

Obrigada por me pagarem o mesmo", afirmou, dizendo que os produtores perceberam que "quando se dá o valor devido a uma pessoa" isso permite-lhe interiorizar a sua autovalorização e colocá-la no esforço de trabalho.

Michelle Williams esteve no centro de um escândalo de desigualdade de pagamento em abril deste ano, quando se soube que tinha recebido apenas mil dólares para regravar cenas no filme "All the Money in the World", enquanto o outro protagonista, Mark Wahlberg, recebeu 1,5 milhões de dólares para fazer o mesmo.

Por isso, da próxima vez que uma mulher – e em especial uma mulher de cor, que ganha 52 cêntimos por cada dólar que um homem branco com o mesmo emprego recebe – vos diz do que precisa para fazer o seu trabalho, ouçam o que ela está a dizer", apelou a atriz.

O discurso de Michelle Williams foi dos poucos que suscitou uma ovação de pé por parte da plateia, a par de Alex Borstein e Patricia Arquette, numa noite em que houve poucas intervenções politizadas e nenhuma menção direta ao Presidente dos EUA, Donald Trump.

Billy Porter: primeiro gay afro-americano a vencer Emmy de Melhor Ator

O ator Billy Porter tornou-se esta madrugada o primeiro gay afro-americano a receber o Emmy de Melhor Ator em série dramática pela Academia de Televisão dos Estados Unidos, na 71.ª edição dos prémios Emmy.

Na mesma categoria feminina, não houve a vitória histórica que se esperava: se Sandra Oh tivesse vencido, seria a primeira atriz de ascendência asiática a levar para casa a estatueta de Melhor Atriz em série dramática.

No entanto, foi Porter quem fez história, ao ser distinguido pelo papel de Pray Tell que interpreta na série do canal FX "Pose", cuja ação mostra a subcultura da comunidade LGBTQ na Nova Iorque do final dos anos oitenta.

Tantas pessoas me ajudaram a chegar aqui ao longo do caminho", notou Billy Porter no discurso de vitória, depois de afirmar que "todos têm o direito" de andar no mundo e sentir que pertencem.

Nós, como artistas, somos aqueles que mudam a estrutura molecular dos corações e mentes das pessoas que caminham nesta Terra", afirmou, terminando com um pedido que foi reiterado por outras personalidades ao longo da cerimónia: "por favor, não parem de dizer a verdade".