Morreu Bernardo Bertolucci. A notícia foi avançada pelo jornal La Repubblica e entretanto confirmada pela assessoria de imprensa do realizador, num email enviado à Associated Press. Vítima de doença prolongada, aos 77 anos, o realizador italiano de obras-primas como o Último tango em Paris (1972) e o O Último Imperador (1987) despediu-se dos ecrãs da vida, em Roma, rodeado pela família, segundo a televisão pública italiana RAI.

Os seus filmes de estilo visual colorido, movimentos de câmara longos e complexos, e a sua fama de poeta deram-lhe reconhecimento internacional como um mestre do cinema. Produtor, guionista e cineasta, Bertolucci também realizou outros filmes icónicos como Um Chá no Deserto (1990), Os Sonhadores (2003) e Io e Te (2012).

Marxista autoproclamado, também incorporou política e ideologia nos seus trabalhos, como em "O Conformista". Alguns críticos consideram esta a sua obra-prima.

Apesar de trabalhar com estrelas americanas e internacionais, Bertolucci sempre defendeu um estilo cinematográfico próprio contra o que dizia ser a pressão da indústria cinematográfica norte-americana. Foi idolatrado pela crítica durante a maior parte de sua carreira, resistindo às controvérsias relativamente à exploração de relações sexuais entre as personagens, por um lado, e a alguns fracassos comerciais, por outro. Ao jornal italiano Corriere della Sera, em 1990, disse algumas palavras que bem o definiam:

Quando se trata de cinema comercial, tenho o estranho prazer de sentir que sou de outra tribo, um infiltrado".

Literatura Modernaassistente de direção de Pier Paolo Pasolini no filme Accattone (1961) e dirigiu La commare secca (1962). 

O seu segundo filme, Antes da Revolução (1964), lançado em 1971, foi nomeado para o Oscar de melhor argumento. O mesmo aconteceu com O Último Tango em Paris (1972), para melhor realizador. Em 1976, dirigiu o épico “1900”, que contava com um elenco de luxo com nomes como Robert de Niro, Gérad Dépardieu, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Sterling Hayden e Dominique Sanda.

Foi, porém, O Último Imperador (1987) que lhe deu o galardão de melhor realizador e melhor filme, entre nove óscares atribuídos a esta longa-metragem.  "Talvez eu seja um idealista, mas ainda penso no cinema como uma catedral onde todos entramos juntos para sonhar o sonho juntos", disse ao receber o prémio de realizador da Guild of America precisamente por este filme.

Recebeu, em 2011, o prémio de carreira no festival de cinema de Cannes.

Há dois anos, em dezembro de 2016, o realizador foi alvo de uma polémica por causa de uma cena de O Último Tango em Paris. Protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider, ele tinha 48 anos e ela 19, numa das cenas o ator viola a jovem. Voltou a ser debatida depois de a imprensa internacional ter revelado uma entrevista onde o realizador admitiu ter decidido a utilização da manteiga naquela manhã de filmagens e em conjunto com Marlon Brando. Maria Schneider chegou a acusar o ator de a ter feito sentir que tinha sido violada.

Eu especifiquei, mas se calhar não fui claro, que decidi com Marlon Brando não informar a Maria que utilizaria manteiga. Queríamos que a reação dela fosse espontânea àquela utilização imprópria”,

Foi o que explicou Bertolucci, na altura, classificando toda a polémica em torno da cena como um “mal-entendido ridículo”.

As cenas de nudez nos seus filmes eram frequentes, bem como a referência a filmes clássicos e a pintores famosos ou movimentos artísticos. Tinham, também, a marca das suas experiências em psicanálise. 

Bertolucci era casado com a escritora e realizadora inglesa Clare Peploe. Não tiveram filhos.