A petição para uma nova versão portuguesa do filme da Disney "Soul", pedindo a inclusão de vozes negras na dobragem, encerrou na terça-feira, com mais de 17.500 assinaturas, e foi entregue à Disney, que continua em silêncio.

No dia 2 de janeiro, foi lançada uma petição, assinada por diversas personalidades da cultura e da sociedade portuguesa, a exigir uma nova adaptação em português da recente produção da Pixar, estúdios pertencentes à Disney, "Soul - Uma História com Alma", filme de animação sobre jazz e a comunidade afro-americana nos Estados Unidos, disponibilizada na plataforma Disney+, que, na versão portuguesa, não tem qualquer ator negro a dar voz aos personagens negros. Enquanto a versão original conta com a participação de atores como como Jamie Foxx e Angela Bassett, em Portugal é Jorge Mourato que dá voz à personagem principal. 

Em dez dias, a petição foi assinada por mais de 17 mil pessoas e, no dia 19 deste mês, encerrou com 17.512 assinaturas.

O documento “foi entregue fisicamente e por via digital", disse à Lusa o músico Pedro Coquenão, autor da petição. "Foram impressas quase 400 páginas com assinaturas validadas e enviadas para a Disney Portuguesa e Americana. Só resta ter uma resposta da Disney”.

Junto com as assinaturas, foi entregue uma missiva, que sublinha a razão por que é exigida uma nova dobragem portuguesa de “Soul”: “as vozes podem não ter cores, mas há cores que precisam ter mais voz”.

Nunca esteve em causa o habitual bom trabalho em dobragens feitas em Portugal, a qualidade ou a índole dos atores da versão portuguesa ou sequer a necessidade de ser literal em cada tradução, mas há uma expectativa particular pelo que este filme representa e pela oportunidade histórica que ele nos dá de corrigir um problema reconhecido pela vossa companhia”, lê-se na carta.

A terminar, os promotores da petição lançam um repto à Disney: “Que papel querem assumir nesta história? O de promover uma melhor representatividade, dando seguimento à intenção original ou o de contrariar o bom espírito e a Alma deste filme? Por um final feliz, assinamos. Estas assinaturas foram também encaminhadas para a Disney Internacional”.

O músico, nascido no Huambo, em Angola, afirmou que foram feitas várias tentativas de contactar a Disney e de obter uma resposta, mas que, até ao momento, não houve qualquer reação. Segundo Pedro Coquenão, foram enviadas mensagens por diversos canais, inclusivamente alguns signatários fizeram contactos pessoais, mas “nunca houve nenhuma resposta”.

A única palavra que a Disney teve sobre esta polémica foi um comunicado divulgado ainda antes de a petição ser lançada: “Esforçamo-nos por ser inclusivos nos nossos 'castings', contudo reconhecemos que há trabalho a fazer e estamos comprometidos em diversificar os talentos nas nossas dobragens, independentemente da geografia onde atuamos”.

A Lusa tentou também, por diversas vezes, contactar a Disney e obter algum comentário, mas nunca obteve resposta.

A polémica chegou à imprensa internacional, com o jornal The New York Times a noticiar o debate que a escolha do elenco gerou, sobre racismo, estereótipos e preconceitos “nas locuções em línguas europeias, mesmo quando os filmes têm personagens principais de cor”, apontando Portugal e Dinamarca como os dois países da Europa que não respeitaram o espírito original do filme. Para Pedro Coquenão, o caso da Dinamarca não é tão gritante como o português, porque historicamente é um país que não tem as mesmas ligações a África e onde não é tão fácil encontrar atores negros para fazerem a dobragem. O mesmo não se pode dizer de Portugal, um país multicultural, com raízes fortes em África e com uma grande população afrodescendente.

A petição – assinada por personalidades como Ana Sofia Martins, Dino D´Santiago, Mamadou Ba, Mayra Andrade, Nástio Mosquito e Sara Tavares – sustenta que o filme tem o "propósito assumido de querer retratar a cultura musical e a comunidade afro-americana", sendo que "todo o processo foi muito rigoroso na escolha de argumentistas, equipe técnica e, claro, dos atores que dariam vida a este filme assumido como um manifesto contra a iniquidade na indústria do entretenimento".

Pedro Coquenão está convencido de que a Disney não vai dizer nada e vai esperar que o caso caia no esquecimento, mas acredita que não foi em vão "o trabalho que foi feito" e que pôs as "pessoas a falar e a discutir", porque "acho que, pelo menos, foi aberta uma janela de possibilidades para o futuro".

. / MJC