Ninguém sabe onde está a atriz mais famosa da China. A última vez que se soube de Fan Bingbing foi em junho, quando publicou algumas imagens da visita que fez a um hospital pediátrico no Tibete. A estrela, de 36 anos, que ganhou fama internacional com papéis em produções como “A Dinastia da Espada”, “Homem de Ferro 3” e a saga “X-Men” e também em campanhas publicitárias para marcas como a Cartier e a Louis Vuitton, não dá sinal de vida há três meses. Um desaparecimento que os órgãos chineses de comunicação têm atribuído a uma possível investigação das autoridades por fraude fiscal, algo que o Partido Comunista chinês não tem perdoado.

Fan Bingbing é uma das presenças assíduas em grandes prémios e cerimónias de moda e foi nomeada, em 2015, pela revista norte-americana Time, como a "atriz mais famosa" da China. Em 2017 foi novamente capa da publicação, como exemplo de como "A China está a tentar conquistar Hollywood", o título do artigo principal do mês de fevereiro.

Presença regular em eventos mediáticos, Fan Bingbing já não é fotografada em público desde maio, depois de ter posado na passadeira vermelha do Festival de Cannes. De acordo com a CNN, Fan Bingbing tinha sido recentemente escolhida para participar no filme “355” e contracenar com as atrizes Marion Cotillard, Jessica Chastain, Lupita Nyong’o e Penélope Cruz, mas tem estado incontactável desde então.

A atriz, que tem 62 milhões de seguidores na Weibo (equivalente chinês do Twitter), também não tem partilhado nada nas redes sociais.

Apanhada num contrato "yin-yang"?

Os alegados problemas judiciais de Fan Bingbing começaram em maio, quando surgiram nas redes sociais o que se dizia serem cópias de um contrato de um filme que a atriz assinou para uma produção chinesa. 

De acordo com o tabloide Global Times, a atriz terá assinado dois contratos para o mesmo filme: um no qual recebia 10 milhões de yuan (cerca de 1,2 milhões de euros) e outro no qual receberia 50 milhões de yuan (6,2 milhões de euros). A prática é conhecida na China como os "contratos yin-yang", uma forma de evasão fiscal em que o primeiro contrato, de menor valor, é comunicado às autoridades fiscais, e o outro acaba por ficar livre de impostos.

O desaparecimento da modelo e atriz coincide com o momento em que foi acusada pelo apresentador chinês de televisão Cui Yongyuan de fugir aos impostos. Em junho, Yongyuan pediu desculpas a Fan por ter sido o responsável pela publicação das cópias dos contratos. No mesmo mês, a Administração Tributária da China ordenou uma investigação à indústria cinematográfica do país, conta a CNN.

De acordo com um artigo publicado a 6 de setembro pelo jornal estatal Securities Daily, entretanto apagado, a atriz estaria “sob custódia estatal e prestes a receber um julgamento legal”, mas não há nenhuma declaração oficial sobre o paradeiro nem uma acusação criminal contra a atriz.

Um estudo recente da Universidade Normal de Pequim e da Academia Chinesa de Ciências Sociais revelou que o escândalo de fraude fiscal, embora ainda não comprovado, afetou em muito a reputação da atriz. Num inquérito em que as estrelas chinesas foram classificadas segundo a "responsabilidade social", Fan Bingbing ficou em último lugar, com uma pontuação de 0 em 100.  

O espectro do “perfil público inofensivo”

A CNN sublinha que é sabido que, na China, as celebridades são incentivadas a manter um perfil público inofensivo, para que caiam nas boas graças do Partido Comunista. Em 2011, o artista chinês Ai Weiwei também desapareceu durante três meses e soube-se, mais tarde, que tinha sido detido e depois libertado, após assinar uma confissão relacionada com crimes de evasão fiscal.

Jonathan Landreth, antigo editor na Ásia da revista Hollywood Reporter, disse à CNN que é possível que o Partido Comunista Chinês considere que, ao colocar um holofote na evasão fiscal de figuras públicas, acabe por desviar a atenção dos esquemas de corrupção que podem existir no Governo. Há muito que o partido tem uma relação desconfortável com as celebridades do país, porque quer que elas divulguem “energia positiva” na Internet. A ameaça de que problemas com as autoridades lhes possa pôr fim à carreira leva as estrelas do país a estarem atentas aos desejos do partido.

O analista australiano Fergus Ryan disse à CNN que a explicação para o desaparecimento de Fan Bingbing pode ser muito simples: “Ela, possivelmente, fez algo de errado… As evidências eram públicas e isso fez com que as autoridades se vissem obrigadas a agir".

Removida dos cartazes

De acordo com a revista norte-americana Forbes, em 2017, Fan Bingbing arrecadou mais de 300 milhões de yuans (cerca de 37 milhões de euros) em receitas. Agora, a atriz foi removida dos cartazes de uma produção chinesa protagonizada por Bruce Willis, conhecido em inglês como “Unbreakable Spirit”, sobre o bombardeamento japonês à capital da China durante a II Guerra Mundial. O lançamento do filme, originalmente agendado para agosto, foi adiado até outubro. Não é claro se o adiamento está relacionado com o desaparecimento da atriz.

De acordo com a base de dados online Internet Movie Database (IMDB), a atriz tem vários projetos na agenda, entre os quais “The King's Daughter” e o já referido “355”, filme que a reuniria no grande ecrã com Marion Cotillard, Penélope Cruz, Lupita Nyong'o e Jessica Chastain, num projeto que foi promovido em Cannes. Projetos sobre os quais paira agora a incerteza sobre se Fan Bingbing irá participar.