Com o ano quase a terminar, é tempo de rever a “fita” de 2018 e listar os filmes que marcaram o ano.

Há diferentes motivos que levam determinadas obras a destacarem-se: o impacto na crítica, o sucesso nas bilheteiras e os galardões conquistados são três desses fatores.

Mas numa altura em que os serviços de streaming têm colocado em causa o modelo tradicional da distribuição de filmes, há também cada vez mais produções que dão que falar por desafiarem os padrões convencionais da sétima arte. Este ano, por exemplo, tivemos casos de filmes que foram diretamente para serviços de streaming sem chegarem às salas e outros que causaram "atritos" em festivais de cinema por não terem, precisamente, distribuição no cinema.  

De uma forma ou de outra, que é como quem diz de uma forma mais tradicional ou com a ajuda de novos meios e de novas plataformas (como a Netflix), o certo é que 2018 foi um ano repleto de cinema.

Reunimos dez filmes que marcaram o ano e que até lhe podem ter passado ao lado.

 

"No Coração da Escuridão", Paul Schrader

O último filme de Paul Schrader (realizador de “American Gigolo” e argumentista de “Taxi Driver”, “Obsessão”) é um thriller psicológico que se move em torno da fé, da moralidade e da dúvida existencial.

Ernest Toller (Ethan Hawke) é um antigo militar que se tornou pastor numa pequena igreja, numa comunidade do interior dos Estados Unidos, após a morte do filho durante a Guerra do Iraque. Foi ele que convenceu o filho a alistar-se nas forças armadas norte-americanas.

É neste contexto que Ernest conhece Mary (Amanda Seyfried), uma jovem que procura o reverendo em busca de auxílio, e o marido desta, Michael (Philip Ettinger), um ambientalista radical, que atravessa um momento complicado. Com a aproximação a este casal, Ernest vai descobrir ligações e interesses entre a Igreja e as empresas da região e, com isto, pôr em causa a sua própria fé.

"No Coração da Escuridão" ("First Reformed") tem sido considerado por muitos críticos como o melhor filme de Schrader e conta com uma fabulosa interpretação de Ethan Hawke, a piscar o olho à nova temporada de prémios. 

 

 

"Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões", Hirokazu Koreeda

“Shoplifters”, um drama realizado pelo japonês Hirokazu Koreeda ("Andando", "Tal Pai, Tal Filho"), foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes.

O filme conta a história de uma família pobre - pai, mãe, um rapaz pequeno, uma rapariga adolescente e a avó – que, para sobreviver, tem de realizar pequeno delitos como furtos em lojas e supermercados. Apesar das condições precárias em que vive – uma pequena casa, quase uma barraca para cinco pessoas - esta família não hesita em acolher uma criança que é maltratada pelos pais.

Este é um filme comovente, que toca em questões sociais, mas que vive sorbetudo dos afetos e dos sentimentos que evidenciam o melhor da natureza humana.

 

"BlacKkKlansman: O Infiltrado", Spike Lee

Realizado por Spike Lee, "BlacKkKlansman" trouxe para o grande ecrã uma história real que se desenrola entre o género dramático e a comédia. Esta é a história do agente da polícia negro Ron Stallworth, que se infiltrou no Ku Klux Klan, uma organização norte-americana de supremacistas brancos.

O enredo passa-se no Colorado, nos anos 70, num período de importantes movimentos de direitos civis dos negros norte-americanos. Grupos como o “Black Power” e as “Panteras Negras” defendiam nesta altura, e por contraponto à política de integração de não violência de Martin Luther King, que era preciso enfrentar a violência de organizações como o Ku Klux Klan através da violência.

Apesar do contexto histórico, o filme aborda questões que nos transportam para a América da atualidade: a América de Donald Trump, a América que foi palco de uma marcha de supremacistas brancos em Charlottesville.

 

"Assim Nasce uma Estrela", Bradley Cooper

É uma nova versão de uma história bem conhecida e por várias vezes testada no grande ecrã. Tem um músico que é uma grande estrela do rock a apaixonar-se por uma jovem cantora. Ele ajuda-a a construir a sua carreira e, à medida que também ela se torna uma estrela, a carreira dele, influenciada pelo abuso do álcool e de drogas, começa a entrar em declínio.

O original, realizado por William A. Wellman, data de 1937 e tinha Janet Gaynor e Fredric March nos principais papéis. Depois houve o remake de George Cukor com Judy Garland e James Mason, em 1954 (que mereceu grandes elogios da crítica) e ainda uma terceira versão com Barbra Streisend e Kris Kristofferson em 1976 pela mão de Frank Pierson.

Agora, os protagonistas são Lady Gaga e Bradley Cooper (que além de ator é também realizador). Uma nova versão que vale a pena espreitar que consegue escapar aos clichés do género mais melodramático e adquire os contornos do tempo e da sociedade em que se insere.

 

"Roma", Alfonso Cuarón

O último filme de Alfonso Cuarón (realizador de “Gravidade”) é uma homenagem ao seu país, o México, que vai beber das próprias memórias do realizador.

O filme, cujo enredo se passa nos anos 70, acompanha a rotina de uma família de classe média através do ponto de vista da empregada, Cleo (Yalitza Aparicio). É um retrato intimista, filmado a preto e branco, do bairro de Roma, na Cidade do México.

Com a chancela da Netflix, Roma deu que falar por diferentes motivos. Se por um lado foi retirado do Festival de Cannes - a organização proibiu filmes sem distribuição nos cinemas gauleses de competir à Palma de Ouro -, por outro, em Veneza, o filme conquistou o mais importante galardão, o Leão de Ouro, tornando-se no primeiro filme produzido para um serviço de streaming a vencer um grande festival de cinema.

A obra tem merecido elogios da crítica e perfila-se como forte candidato às nomeações ao Óscar de Melhor Filme.

 

"Black Panther", Ryan Coogler

A história de "Black Panther" gira em torno de T'Challa, príncipe do reino de Wakanda, que, após a morte do pais, vê o seu reinado ameaçado por Killmonger, um adversário de longa data.

Este é um filme de super-heróis e, ao mesmo tempo, é muito mais do que isso: é o primeiro filme da Marvel com um herói negro (Chadwick Boseman), o elenco é maioritariamente constituído por atores negros (Michael B. Jordan, Lupita Nyong'o, Danai Gurira, Angela Bassett, entre outros) e é ainda realizado por um cineasta negro (Ryan Coogler).

Estas caraterísticas conferiram ao filme uma carga simbólica enorme. Tanto que a imprensa norte-americana escreveu que desde “Malcom X” que um filme não suscitava tanto entusiasmo na comunidade afro-americana.

O filme recebeu boas críticas e acabou por ser um sucesso de bilheteira, incluindo em Portugal, figurando nos 20 filmes mais vistos do ano nas salas nacionais.

 

"The Incredibles 2: Os Super-Heróis", Brad Bird

O segundo filme da saga de animação “The Incredibles” trouxe ao grande ecrã novas aventuras desta família de super-heróis.

Uma animação da Disney-Pixar que foi bem recebida pela crítica e um sucesso em sala.

Este foi o filme mais visto do ano nas salas portugueses, com mais de 600.000 espetadores.

 

"Suspiria", Luca Guadagnino

"Suspiria" é um remake de um filme de culto do conhecido mestre do terror italiano Dario Argento. Esta nova versão é-nos trazida pela mão de outro italiano, Luca Guadagnino (realizador de “Chama-me Pelo teu Nome”), e tem a chancela dos estúdios da Amazon.

O filme de terror conta a história de Susie Bannio (Dakota Johnson), uma jovem bailarina norte-americana que se muda para Berlim para integrar uma prestigiada companhia de bailado. Mas logo que chega à escola, há uma série de acontecimentos estranhos que vão criar uma atmosfera obscura e ameaçadora.

Tilda Swinton interpreta a diretora da escola, Madame Blanc, num filme que estreou no Festival de Veneza, dividindo o público e a crítica.

 

"Aniquilação", Alex Garland

Este filme de ficção científica, realizado por Alex Garland (Ex Machina) foi diretamente para a Netflix (só foi exibido em sala nos EUA, no Canadá e na China). Isto aconteceu depois de os estúdios da Paramount terem considerado o filme “demasiado intelectual” e “demasiado complicado” e terem pedido alterações, que o realizador e o produtor recusaram.

Natalie Portman encarna a bióloga Lena, que procura respostas que expliquem o desaparecimento do marido, interpretado por Oscar Isaac. Lena decide então integrar um grupo de cientistas militares que vão numa expedição para uma zona selada pelo governo norte-americano. Ali, o grupo vai encontrar uma realidade surpreendente, diferente de tudo o que já viram, fascinante, por um lado, e ameaçadora, por outro.

Cheio de efeitos especiais e com um grande cuidado ao nível da cinematografia, em "Aniquilação" Alex Garland procura novamente, através da ficção científica, abordar temas tão complexos como a natureza humana, a criação e a evolução das espécies. 

 

"Bohemian Rhapsody", Bryan Singer

Foi um dos filmes mais falados do ano. O filme que retrata a história dos Queen, uma das maiores e mais populares bandas de rock do mundo, foi esperado com grande expectativa pelos inúmeros fãs do grupo, em todo o mundo.

Por outro lado, teve um incidente de percurso: a meio da rodagem, o realizador Bryan Singer acabou despedido por causa do seu comportamento instável e foi quem terminou a obra foi Dexter Fletcher, que, no entanto, não recebeu créditos. 

Rami Malek, conhecido por ser o protagonista da série Mr. Robot, dá vida a um dos maiores nomes e ícones da música de sempre, o vocalista e líder do grupo, Freddie Mercury. 

Apesar do entusiasmo que envolveu a sua estreia e da entrega de Malek ao papel, o filme não caiu nas graças da crítica e acabou por desiludir alguns fãs.