Não há cerimónia dos Óscares que aconteça sem uma polémica. Tem sido assim nos últimos anos - com as acusações de falta de representação de negros e de mulheres e os escândalos de abusos sexuais - e 2019 não só não foi exceção como foi um ano em cheio no que toca a casos que deram que falar. Será, de resto, por causa de uma controvérsia que a cerimónia de entrega dos prémios mais conhecidos do cinema irá decorrer, este domingo, em moldes bastante diferentes dos habituais.

É que, este ano, os Óscares não terão um apresentador principal, algo que já não acontecia há três décadas. Os prémios serão apresentados por várias personalidades ligadas à indústria e não só. Entre a longa lista de personalidades convidadas estão o chef espanhol José Andrés, a tenista Serena Williams, a cantora Barbra Streisand, o músico Tom Morello, o apresentador Trevor Noah e o congressista John Lewis.

O ator e comediante Kevin Hart até chegou a ser anunciado como o anfitrião da cerimónia, mas o seu nome acabou debaixo de fogo: em causa estiveram algumas piadas antigas do humorista, consideradas homofóbicas. Como o que disse num especial de comédia de 2010: "Se eu puder impedir o meu filho de ser 'gay', eu faço-o".

A escolha de Hart motivou uma queixa de uma organização não-governamental que defende direitos LGBT ao canal ABC, a emissora dos Óscares, e à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que atribui as estatuetas. O comediante ainda se desculpou num vídeo partilhado no Instagram, alegando “que as pessoas mudam, crescem e evoluem”, mas, perante o rol de críticas que invadiu as redes sociais, acabou por desistir de apresentar a cerimónia.

A produção da gala avançou sem que tivesse sido escolhido um novo anfitrião e no início do mês a Academia confirmou algo que já não acontecia desde 1989: a 91.ª edição dos Óscares, que ocorre este domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles, não terá um apresentador principal.

Não terá apresentador e deverá ser mais curta. Depois de as audiências do ano passado terem sofrido uma quebra de cerca de 20%, desta vez a produção não quer que a cerimónia se prolongue para lá das três horas de duração – no ano passado foram perto de quatro horas, sem contar com o tempo de cobertura da passadeira vermelha.

E foi precisamente a pensar numa transmissão televisiva mais curta que a Academia anunciou que iria atribuir quatro estatuetas durante os intervalos comerciais: as categorias de Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Curta Metragem e Melhor Caraterização.

Mas a decisão caiu mal entre realizadores, atores e outros profissionais da sétima arte, que teceram duras críticas à Academia. O mexicano Guillermo del Toro, que realizou “A Forma da Água”, o filme que venceu o Óscar mais importante no ano passado, foi umas das vozes mais críticas.

Não pretendo sugerir que categorias devem se atribuídas nos intervalos da noite de Óscares, mas por favor: fotografia e montagem estão no coração do nosso ofício. Não são herdados de uma tradição teatral ou literária: elas são o próprio cinema”, vincou,

 

Também o mexicano Alfonso Cuarón, o cineasta de “Roma”, que já venceu o Óscar de Melhor Realizador com “Gravidade” (2013), mostrou a sua indignação.

Na história do cinema existiram obras primas sem som, sem cor, sem uma história, sem atores e sem música. Mas nenhum filme foi feito sem fotografia ou montagem”, escreveu o cineasta no Twitter.

A onda de críticas acabou por ter o efeito pretendido: a Academia voltou atrás e decidiu que, afinal, todas as categorias teriam direito a transmissão televisiva. O que pode comprometer o objetivo da organização de que a gala não se prolongue madrugada dentro.

Mas no rol de polémicas que pairaram sobre os Óscares deste ano importa ainda lembrar aquela que foi uma das primeiras: a ideia de um Óscar para Melhor Filme Popular, que surgiu no verão do ano passado.

A sugestão desta nova categoria, que terá partido da ABC, não só não agradou a todos os membros da Academia como gerou muitas opiniões negativas e piadas nas redes sociais por parte de várias personalidades. E também aqui, a Academia deu o braço a torcer, neste caso decidindo não avançar com a ideia e estudá-la melhor antes de a pôr em prática em futuras edições.

Polémicas à parte, no que toca às estatuetas propriamente ditas, as apostas dividem-se entre “Roma”, o filme de Alfonso Cuarón cujos direitos de distribuição foram adquiridos pela Netflix, e “A Favorita”, do grego Yorgos Lanthimos. Os dois filmes lideram a corrida aos galardões com dez nomeações cada, incluindo a categoria de "Melhor Filme". Mas não é certo que não haja interferências de terceiros neste duelo.

Se por um lado, os triunfos de “Bohemian Rapody” e "Green Book - Um Guia Para a Vida" nos Globos de Ouro e de “Black Panther” nos prémios do Sindicato de Atores deixaram o aviso de que tudo pode acontecer, por outro, edições anteriores têm mostrado o quão imprevisíveis podem ser as escolhas da Academia – como em 2017, quando “Moonlight” levou a melhor sobre “La La Land”, ou como em 2006, ano em que “Colisão” bateu "O Segredo de Brokeback Mountain".