“Green Book – Um Guia Para a Vida” foi o grande vencedor da cerimónia dos Óscares deste domingo, levando para casa três importantes estatuetas, incluindo a mais desejada, a de Melhor Filme. Numa edição que não teve um apresentador principal, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood celebrou a cultura afro-americana como nunca tinha acontecido até aqui, com um recorde de vencedores negros.

O filme de Peter Farrelly, que retrata a relação entre o pianista negro Don Shirley (Mahershala Ali) e o seu motorista, Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), venceu ainda nas categorias de Melhor Argumento Original e Melhor Ator Secundário (Mahershala Ali). Mahershala Ali, que voltou a vencer esta estatueta após “Moonlight”, há dois anos, tornou-se, assim, o segundo ator negro – depois de Denzel Washington - a vencer dois Óscares.

“Roma”, que era um dos filmes mais nomeados (em dez categorias), também conseguiu três Óscares importantes: Melhor Filme em Língua Estrangeira, Melhor Realizador e Melhor Fotografia para Alfonso Cuarón.

Alfonso Cuarón, que em “Roma” não contou com aquele que é, habitualmente, o seu Diretor de Fotografia, Emmanuel Lubezki, tornou-se o primeiro realizador a ganhar um Óscar como Diretor de Fotografia e “Roma” o segundo filme a preto e branco a vencer nesta categoria, depois de “A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg, em 1994. 

No palco do Dolby Theatre, em Los Angeles, onde decorreu a cerimónia, o cineasta mexicano, que já tinha vencido o Óscar de Melhor Realizador com "Gravidade" (2013), sublinhou que “Roma” é fruto das suas memórias e agradeceu ao México.

Cresci a ver filmes estrangeiros como Citizen Kane, Jaws, Godfather, Breathless. Quando lhe perguntaram sobre a nouvelle vague (nova onda) Claude Chabrol disse que não há ondas só o oceano, acho que os nomeados desta noite provaram que fazem parte do mesmo oceano. Quero agradecer à minha família e ao México por serem a praia de onde é este filme”, frisou.

Outro vencedor foi “Bohemian Rhapsody”, que conquistou quatro estatuetas, embora três tenham sido em categorias técnicas - Melhor Montagem, Melhor Montagem de Som, Melhor Mistura de Som. O principal Óscar do filme sobre os “Queen” foi o de Melhor Ator, que distinguiu, sem surpresas, a interpretação de Rami Malek como Freddie Mercury.

“Black Panther” conseguiu três prémios: Melhor Banda Sonora, Melhor Guarda-Roupa e Melhor Direção de Arte. Estes dois últimos carregados de grande simbolismo pois premiaram pela primeira vez duas mulheres negras, Ruth E. Carter e Hannah Beachler, respetivamente. Quando subiu ao palco, Ruth E. Carter lembrou um dos primeiros realizadores com quem trabalhou: “Espero que o Spike Lee esteja orgulhoso”.

A Marvel pode ter criado o primeiro super-herói negro mas nós, através do guarda-roupa, fizemos dele um rei africano”, sublinhou.

Por falar em Spike Lee, à quinta nomeação o realizador recebeu o seu primeiro Óscar, competindo com outros profissionais, isto é, excluindo o Óscar honorário que já recebeu: foi o de Melhor Argumento Adaptado pelo seu "BlacKkKlansman - O Infiltrado". Lee aproveitou o momento para homenagear a avó que, segundo o cineasta poupou a vida toda para o ajudar nos estudos, e para deixar uma mensagem política, já com as presidenciais de 2020 no horizonte.

 As presidenciais de 2020 estão quase aí. Vamos mobilizar-nos, vamos estar do lado certo da História. (…) Façam a coisa certa!”, apelou.

Quanto às melhores interpretações femininas, Olivia Colman foi considerada a Melhor Atriz, levando a melhor sobre Glenn Close. Nos habituais agradecimentos, Colman não esqueceu a colega, que era apontada como a vencedora mais provável. "Glenn Close tens sido o meu ídolo por muito tempo e isto não está a ser como eu queria", frisou. Colman deu a “A Favorita” o único Óscar da noite. O filme do grego Yorgos Lanthimos foi o grande derrotado da cerimónia pois era um dos mais nomeados, em dez categorias.

Já a Melhor Atriz Secundária foi, sem surpresas, Regina King pela sua interpretação em “Se Esta Rua Falasse”. King fez um discurso muito emocionado logo no início da gala, durante o qual agradeceu a James Baldwin, o autor do livro que serviu de base ao filme de Barry Jenkins.

Longe vai o tempo em que a hashtag #OscarsSoWhite (Óscares tão brancos) dominava as redes sociais em noite de prémios da Academia. A 91.ª edição dos Óscares fica para a História como a gala em que houve um maior número de vencedores negros, com as conquistas de Mahershala Ali, (Melhor Ator Secundário), Regina King (Melhor Atriz Secundária), Spike Lee e Kevin Willmott (Melhor Argumento Adaptado), Ruth E. Carter (Melhor Guarda-Roupa), Hannah Beachler (Melhor Direção de Arte), Peter Ramsey (Melhor Filme de Animação).

A cerimónia não teve um anfitrião principal, mas contou com vários convidados como o congressista John Lewis, veterano da luta pelos direitos civis dos negros, que recebeu uma ovação de pé, a tenista Serena Williams ou o chef José Andrés.

Tudo começou com uma atuação dos Queen e Adam Lambert, mas foi a “Shallow” de Lady Gagy e Bradley Cooper que hipnotizou a plateia e ficou como um dos momentos da noite. De resto, a canção de "Assim Nasce Uma Estrela" venceu o Óscar de Melhor Canção Original e levou Lady Gaga às lágrimas. 

Nota ainda para um Óscar que teve influência portuguesa: o prémio de Melhor Documentário distinguiu “Free Solo”, que conta na ficha técnica com dois nomes portuguesesJoana Niza Braga e Nuno Bento, da equipa de som.