O filme-sensação do ano, "Parasitas", foi o grande vencedor dos Óscares ao vencer quatro estatuetas douradas em categorias principais, incluindo a mais desejada, a de Melhor Filme. A obra fez história: foi o primeiro filme de língua estrangeira a vencer o Óscar de Melhor Filme, foi o primeiro filme a ganhar nas categorias de Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro simultanemante e foi o primeiro filme da Coreia do Sul a vencer nestes prémios.

Depois de ter sido aclamado pela crítica, de ter vencido a Palma de Ouro no Festival de Cannes, de ter estado presente em quase todas as listas de melhores filmes do ano, "Parasitas", a obra que reflete sobre as desigualdades e os efeitos nocivos do capitalismo, num registo que oscila entre o drama e a comédia negra, conquistou os prémios mais mediáticos da sétima arte.

Na 92.ª gala dos Óscares, que decorreu este domingo no Dolby Theatre, em Los Angeles, o filme de Bong Joon-ho ganhou as estatuetas de Melhor Filme, de Melhor Filme Estrangeiro (categoria que agora é designada de Melhor Filme Internacional), Melhor Realização e Melhor Argumento Original.

Ao agradecer a vitória na categoria de Melhor Realização, Bong Joon-ho, que falou sempre em coreano, fez toda a plateia levantar-se para aplaudir Martin Scorsese, o realizador veterano que também estava nomeado pelo filme "O Irlandês". 

Quando estava na escola estudava os filmes de Scorsese, só o facto de estar nomeado já era uma grande honra."

Antes, quando recebeu a estatueta pelo Melhor Argumento Original, o cineasta já tinha destacado o facto de este ser o primeiro Óscar para a Coreia do Sul.

Nunca escrevemos só a pensar no nosso país, mas este é o primeiro Óscar para a Coreia do Sul”, assinalou.

Se "Parasitas" foi o grande vencedor da noite, "1917" foi o grande derrotado: o filme de Sam Mendes, que se perfilava como favorito à estatueta de Melhor Filme e que tinha dez nomeações só venceu em três categorias: Melhor Mistura de Som, Melhor Direção de Fotografia e Melhores Efeitos Visuais. "Joker", de Todd Phillips, era o mais nomeado, em 11 categorias, e venceu apenas duas estatuetas: Melhor Ator e Melhor Banda Sonora.

No que toca aos atores, a entrega dos prémios decorreu sem surpresas, consagrando todos os nomes que partiam como favoritos nas respetivas categorias. 

Joaquin Phoenix, que venceu o seu primeiro Óscar com o filme "Joker", protagonizou um dos grandes discursos da noite, salientando que os atores têm a oportunidade de usar as suas intervenções para defender "os que não têm voz"

Quer estejamos a falar de igualdade de género, de racismo, de direitos queer, de maus tratos de animais, estamos a falar de injustiças. (...) Estamos a falar da luta contra a crença de que uma nação, um povo, uma raça, um género, uma espécie pode explorar outra sem impunidade. (...) Quando usamos o amor e a compaixão como princípios podemos criar sistemas de mudança bons para todos os seres e para o ambiente."

O ator, que já tinha sido nomeado aos Óscares por "The Master", "Walk The Line" e “Gladiador”, continuou: “Eu fui uma pessoa difícil. Muitos de vocês deram-me uma segunda oportunidade. Acho que é assim que atingimos o nosso melhor: quando nos ajudamos a todos, quando nos guiamos em direção à redenção.”

O discurso terminou de forma emocionada, com Phoenix a lembrar uma mensagem deixada pelo seu irmão, River, também ator, que morreu em 1993: "Run to the rescue with love and peace will follow".

Renée Zellweger viu confirmado o seu favoritismo na categoria de Melhor Atriz, pela sua interpretação como Judy Garland no filme “Judy”.

Também como era esperado, Brad Pitt venceu o prémio de Melhor Ator Secundário com o seu papel em “Era Uma Vez em... Hollywood”, de Quentin Tarantino. Pitt conquistou, assim, o seu primeiro Óscar como ator – já tinha vencido o de Melhor Filme como produtor de “12 Anos Escravo” em 2014. Este domingo, aproveitou para deixar uma nota política, numa alusão ao processo de impeachment de Donald Trump.

Disseram-me que só tinha 45 segundos aqui, o que já é mais do que o Senado deu ao John Bolton esta semana.”

Laura Dern, por sua vez, foi distinguida na categoria de Melhor Atriz Secundária pelo seu desempenho no filme “Marriage Story”, de Noah Baumbach. A atriz conquistou, assim, o seu primeiro óscar à terceira nomeação e agradeceu aos pais, também atores, Diane Ladd e Bruce Dern.

"Tivemos grandes mudanças, em 1929 não havia nenhum ator negro e em 2020 temos um"

Steve Martin e Chris Rock foram os primeiros anfitriões de uma gala que voltou a não ter um apresentador principal. E os dois comediantes não perderam tempo, tocando logo nas duas grandes "feridas" desta edição: a ausência de mulheres na categoria de Melhor Realização e o facto de haver apenas um ator negro nomeado, neste caso uma atriz. 

Martin começou por dizer que este ano houve muitos bons realizadores nomeados, mas que achou que estava a faltar qualquer coisa. “Vaginas?”, questionou logo Chris Rock, o que suscitou um grande aplauso da plateia.

A ausência de mulheres na categoria de Melhor Realização já tinha sido lembrada na passadeira vermelha pela atriz Natalie Portman, que escolheu levar uma capa onde estavam bordados os nomes das realizadoras esquecidas pela Academia.

O papel das mulheres na indústria cinematográfica de Hollywood esteve, de resto, em grande destaque na cerimónia. As atrizes Brie Larson, Gal Gadot e Sigourney Weaver subiram ao palco para dizerem, em tom de brincadeira, que iam formar um clube de luta. “Homens vão poder entrar, mas têm de responder à pergunta ‘como é ser uma mulher em Hollywood?’”.

Todas as mulheres são super-heroínas”, disse Sigourney Weaver para depois anunciar que, este ano, pela primeira vez uma mulher ia conduzir a orquestra que ia tocar as músicas dos filmes nomeados a Melhor Banda Sonora Original.

O Óscar de Melhor Banda Sonora foi para Hildur Guðnadóttir, pelo filme "Joker", e na sua intervenção, a artista deixou um apelo... às mulheres precisamente:

Para as raparigas, para as mulheres, para as mães, para as filhas, por favor façam-se ouvir, precisamos de ouvir as vossas vozes.”

O facto de só haver um ator negro nomeado, neste caso uma atriz, Cynthia Erivo - pelo seu desempenho como a ativista negra Harriet Tubman - foi outra das polémicas que marcou esta edição e que também não passou em branco na cerimónia. Foi outra das "feridas" abordadas no diálogo entre Steve Martin e Chris Rock.

"Pensem o quanto os Óscares mudaram nos últimos 92 anos. Em 1929 não havia nenhum ator negro nomeado", afirmou Martin. Ao que Chris Rock respondeu, em tom irónico: "Sim, e em 2020 temos um.”

 Cynthia Erivo fez um trabalho tão bom a esconder pessoas negras em Harriet que a Academia a escolheu para esconder todos os nomeados negros!”, atirou Chris Rock.

A cerimónia começou com um momento musical protagonizado por Janelle Monáe e Billy Porter, marcado por várias referências aos vários filmes nomeados, com os próprios bailarinos a vestirem-se como personagens, desde “Joker” às “Mulherzinhas”. 

Uma das surpresas da noite foi a atuação de Eminem, que levou ao palco a música “Lose Yourself”, do filme que protagonizou em 2002, “8 Mile”. O momento gerou várias reações inusitadas que se tornaram memes nas redes sociais.

 

Houve o tradicional momento de homenagem às figuras do cinema que morreram ao longo do último ano e espaço para uma novidade: a abertura de um museu da Academia de Hollywood, que será a 14 de dezembro de 2020. 

A gala começou com o desfile das estrelas na passadeira vermelha, que é sempre um dos momentos mais aguardados do evento. Já aqui falamos da capa de Natalie Portman, mas há outro visual que merece ser destacado: o de Spike Lee, que aproveitou para homenagear o basquetebolista Kobe Bryant, que morreu num desastre de helicóptero há cerca de duas semanas. O realizador vestiu-se com um fato lilás e amarelo, as cores do equipamento dos Lakers, que tinha nas golas os números 2 e 4 (24 era o número de Kobe).