A atriz Carmen Dolores morreu na segunda-feira, com 96 anos, confirmou à Lusa fonte da família. Morreu em sua casa, onde morava com o filho.

"Era uma pessoa extraordinária", diz à TVI24 a atriz Manuela Maria. "Como atriz, como pessoa, como amiga e como companheira na nossa luta durante 18 anos para pôr de pé esta casa", conta, referindo-se à Casa do Artista, de que as duas atrizes fizeram parte do grupo fundador.

Carmen Dolores!

Publicado por Jorge Silva Melo em Terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 

Foi o realizador António Lopes Ribeiro que a descobriu por acaso na rádio, onde recitava poesia, e a levou para o cinema e teatro. "Mas que extraordinário nome de cartaz!", terá comentado Lopes Ribeiro sobre o seu nome "espanholado". A atriz de voz doce manteve ao longo da vida o gosto por dizer e divulgar a poesia.

Filha de mãe espanhola e pai português, nasceu a 22 de abril de 1924 e viveu num ambiente cultural rico, cheio de livros e onde já se dizia poesia. O pai, jornalista de profissão, era também crítico de teatro, tradutor e tinha chegado a ser comissário do governo junto do Teatro Nacional. Daí que os irmãos, mais velhos cerca de 15 anos, quisessem ser atores. Carmen Dolores não tinha esse sonho. Mas quando a vida a encaminhou para lá, já o pai tinha falecido, foram eles que influenciaram a mãe para deixar a filha seguir uma carreira que a sociedade da época rotulava de "pouco recomendável".

Foi a Teresa de "Amor de Perdição"

Aos 19 anos estreou-se no cinema, como protagonista de Amor de Perdição (1943), adaptação de António Lopes Ribeiro do romance de Camilo Castelo Branco. 

Seguiram-se Um Homem às Direitas (1945) de Jorge Brum do Canto, A Vizinha do Lado (1945) de Lopes Ribeiro e Camões (1946) de José Leitão de Barros.

Em 1945, chegou ao teatro integrada na Companhia Os Comediantes de Lisboa, sediada no Teatro da Trindade, com a peça Electra, a mensageira dos deuses, de Jean Giraudoux, encenada por Francisco Ribeiro (Ribeirinho). Depois foi somando sucessos. Passou pelo Teatro Nacional D. Maria II, sob a direção de Amélia Rey Colaço, onde fez, por exemplo, Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

Esteve na Fundação do Teatro Moderno de Lisboa, em 1961, com Fernando Gusmão, Armando Cortez, Rogério Paulo e Armando Caldas.

Antes de entrar em cena era horrível. Sempre fui muito preocupada. Era um sofrimento", contou numa entrevista em 2018. 

 

E acrescentava: "Gostei de ter vivido as épocas todas, umas mais fáceis, outras mais difíceis. Tive a sorte de viver várias épocas muito diferenciadas, o antes do 25 de Abril, o depois do 25 de Abril, o muito antes. Tenho muitas memórias de infância. E isso dá-me prazer. Eu vinha de um meio muito diferente e muito fechado, tudo era uma surpresa para mim. Gosto de lembrar e nunca é com saudosismo. É bom lembrar como foi bom."

"Parei quando quis"

Fez televisão, entrando por exemplo nas telenovelas PasserelleA Banqueira do Povo A Lenda da Garça. E abandonou os palcos em 2005 com a peça Copenhaga, de Michael Frayn, encenada por João Lourenço. 

Parei quando quis, quando achei que devia parar e queria ter tempo para mim. Acho que parei na altura certa. Fiquei no meu cantinho, a escrever as minhas coisas, como eu gosto. No silêncio", diria. 

Recatada e até um pouco tímida, Carmen Dolores tinha um sorriso aberto e estava sempre disponível para partilhar as suas suas histórias. Deixou muitas das suas memórias escritas em livros, o último dos quais, lançado em 2017, com o título Vozes dentro de mim. "Sempre escrevi, desde criança, era a minha maneira de desabafar", contava. "Lembro-me de uma coisa e escrevo, tenho imensos papéis escritos por aí, escritos à mão, com aquelas canetas verdes, grossas."

O extraordinário talento de Carmen Dolores andava de mãos dadas com uma enorme dignidade e elegância. Marcou as nossas...

Publicado por Tiago Rodrigues em  Terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

"No teatro, no cinema, na televisão, em recitais, em livros, em conferências, Carmen Dolores transformou a carreira pessoal numa obra de abertura aos outros, de acrescentamento dos outros, ajudando a despertar para a cultura várias gerações de nós, gerações que lhe são para sempre devedoras", comentou Fernando Dacosta na apresentação do livro.

Em 2018 foi alvo de uma homenagem, levada a cabo pelo encenador Diogo Infante e pela atriz Natália Luiza (que interetava o papel de Carmen), no Teatro da Trindade. Na altura Diogo Infante contou aos jornalistas como a tinha conhecido, em 1986, era ainda um jovem aspirante a ator: "Vim a Lisboa fazer audições para o Conservatório e aproveitei para ir ao teatro. Lembro-me de ter ficado muito tocado pela energia de duas atrizes, a Carmen e a Natália". 

A Carmen é muito transparente", disse nessa altura Diogo Infante. "Ela é generosa e franca e fala com clarividência e sensibilidade sobre temas delicados, fala da vida e da morte com uma simplicidade quase tocante. Há um sentido de humor fino, envolvente. É uma mulher com uma grande consciência de si própria."

Natália Luiza confirmava: "Às vezes, com a idade, as pessoas vão-se amargurando, mas esse não é o caso da Carmen, que é uma pessoa solar e que fez o caminho inverso. Caminha para a claridade."

Na altura da estreia dessa peça, intitulada Carmen, a atriz foi condecorada pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Mérito. Entre outros prémios, foi ainda distinguida com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, atribuído pelo Presidente da República Jorge Sampaio, com a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Lisboa, o prémio Sophia de Carreira, da Academia Portuguesa de Cinema, e o Prémio António Quadros de Teatro.

Maria João Caetano