São oitenta anos de gratidão”, é assim que Eunice Muñoz descreve uma carreira nos palcos e que, conta em entrevista a José Alberto Carvalho, a alimenta.

Eunice explica que o trabalho como atriz leva-a a debruçar-se muito sobre as pessoas e que, para isso, é preciso correr muitos riscos. Como aquele que a levou a desempenhar o papel da criada Zerlinda, escrito por Hermann Bosch, ou o da Mãe Coragem que a levou a fazer algo “que um ator nunca deve fazer”.

Foi uma personagem que foi tão forte, que fiquei com problemas. Saí de mim própria”, descreve.

Após ter terminado a peça “Mãe Coragem e os seus Filhos”, encenada por João Lourenço, conta que estava de férias e que começou a ver imagens em duplicado. “O ator é um fingidor, aí não fingi, excedi-me”, diz entre sorrisos.

Muñoz estreou-se nos palcos aos 12 anos e afirma que ainda se consegue imaginar com essa idade. Questionada sobre o que diria de si própria se pudesse viajar ao futuro, Eunice crê que a criança ficaria orgulhosa da adulta. 

Sempre amei os meus maridos, que todos eles me deram filhos. Sempre os amei muito. E sempre amei o teatro, voltamos à mesma coisa. Alimenta-me”.

Ainda sobre o teatro, revela algo que diz achar estranho. Sempre se sentiu segura na profissão, “Um sentimento muito estranho porque é uma profissão que faz medo em tudo”.

Ainda que se tenha despedido dos palcos este ano, Eunice diz que tenta sempre entusiasmar os mais novos e fica satisfeita quando encontra grandes talentos que existem no teatro. “Na televisão, gostaria que existissem mais”.

Suspira também um certo descrédito por parte dos ecrãs nos dias de hoje e insiste que deviam de ser dadas mais oportunidades a quem tenha feito o curso superior. Porque, lamenta, “verifico tristemente que são escolhidos quem não tem nada disso”.

Eunice Muñoz aponta para uma valorização do supérfluo: o número de seguidores nas redes sociais, o corresponder a um padrão de beleza. “É um erro total”.

A memorável atriz lembra ainda os vários instantes antes do precipício, isto é, o compasso de espera na última cena da peça, a seguir à última frase e após o último gesto. 

Eu já tenho 80 anos de observar essas coisas e de sentir e sinto sempre que o público está com o texto que estou a transmitir. Há como que uma comunicação. Uma alegria muito profunda. E uma felicidade. São oitenta anos muito felizes. Sempre que pressinto esse prazer que eu lhes dei. Fico grata sempre”, conclui.