Não é que toda a gente não soubesse que Donald Trump podia ganhar as eleições norte-americanas, mas os investidores antecipavam uma vitória de Hillary Clinton. A vitória do candidato republicano baralhou os mercados, sempre os primeiros a reagir, a quente. Os primeiros a poder servir de barómetro para o sentimento geral, embora o seu humor também mude facilmente da noite para o dia. Trump também mudou de forma inesperada o tom do seu discurso quando subiu ao palco para cantar vitória: de apelos à divisão na campanha passou a falar em união. Resultou: acalmou um pouco o pessimismo inicial dos mercados.

Tudo fogo de vista para o norte-americano Paul Krugman, prémio Nobel da Economia. Diz que Donald Trump é um “ignorante irresponsável” que vai agravar a crise económica mundial. Com ele, teme mesmo uma “recessão global sem fim à vista”, lê-se num artigo online do jornal The New York Times.

 O desastre para a América e para o mundo tem tantas variantes que as ramificações económicas estão no fundo da minha lista de receios. Mesmo assim, creio que as pessoas querem respostas e se a pergunta é: quando é que os mercados vão recuperar, à primeira vista, a resposta é – nunca- “.

Trump não foi a tempo de conter o abanão sentido na bolsa de Tóquio, com uma queda de 5%, que já tinha fechado por hoje. Mas falou pouco antes das bolsas europeias abrirem e a hecatombe que alguns poderiam prever não se verificou. Longe do que aconteceu em junho, com o Brexit, em que as bolsas chegaram a afundar 8%. Desta vez, na abertura, foram até aos 3% e rapidamente começaram a atenuar as perdas. Até ao final da manhã, oscilaram apenas para os valores da abertura.

"Não há reação de choque, há uma reação negativa"

Quem olha para os quadros do mercado de ações vê tudo pintado de vermelho. Mas daí a falar em onda de choque vai uma longa distância, segundo explicou à TVI24 o analista Filipe Garcia, da IMF.

O termo de comparação é o Brexit, não há dúvida. O choque está a ser muito menor do que naquela altura. Se há um ano atrás fôssemos perguntar o que teria mais choque diríamos que seria este resultado das eleições norte-americanas”, disse à TVI24 o analista.

Mas o mercado mais preparado em termos de liquidez. Não há reação de choque, há uma reação negativa. O Brexit mostrou as pessoas que as surpresas podem acontecer”.

Bob Takai, presidente da Sumitomo Corp Global Research em Tóquio, também usa esse termo de comparação, citado pela Reuters, mas mostra-se mais apreensivo. "Este é o déjà vu do momento Brexit, muito preocupante”.

Como explicar a diferença face ao Brexit?

No imediato, há dois motivos que podem estar a atenuar um pouco os receios dos investidores para o susto não ser tão grande como foi em junho com o Reino Unido. Por um lado, os resultados falam por si: a “vitória tripla dos republicanos”, com a maioria no Senado e nas duas câmaras do Congresso. Isso envia um sinal de estabilidade, ainda segundo o analista Filipe Garcia.

Foi bastante mais ponderado do que aquilo que se poderia esperar. O grande desafio agora é tentar perceber até ao início do ano que tipo de mandato vai tentar fazer. Não sei se vai ter quer a vontade quer a possibilidade de cumprir todos os pontos do seu programa”.

Henrique Dias, gestor da corretora XTB, destacou à TVI24 que a incerteza deverá “continuar enquanto não for definida estratégia por trás da máquina de Donald Trump. Enquanto não for tudo posto em claro. Aí acredito que os mercados possam voltar a bons momentos. Por agora, o que acabará por bilhar são os ativos de refúgio, como os metais preciosos e as obrigações”.

O ouro, que está a valorizar, e as Obrigações do Tesouro, sobretudo as alemãs. A Alemanha é a maior economia europeia, podendo tirar no que toca aos mercados proveito desta nuvem cinzenta que paira sobre a maior economia mundial.

E agora, Trump e Fed?

Como diz o outro analista, Filipe Garcia, a pergunta que os investidores fazem é: “Ok, ele ganhou, o que é que isso quer dizer para o negócio?”. Trump acenou com um “grande plano económico” e quer “duplicar o investimento” mas será preciso esperar para ver.

Há essa pergunta, por um lado, e outra que já estava iminente: se a Reserva Federal norte-americana sempre vai, como sinalizou, subir as taxas de juro no final do ano perante o clima de incerteza que é expectável que paire pelo menos até Trump tomar posse, a 20 de janeiro.

 “Com a possível atuação da Fed para o fim do ano poderá por desviar um pouco as atenções da incerteza politica e focar-se na certeza macroeconómica e monetária, caso haja aumento de taxas de juro, é previsível grande aumento da procura de dólares e grande apreciação”, antecipa Henrique Dias.

O analista faz notar que é suposto que o banco central seja independente do novo Presidente nas suas decisões. De qualquer modo, “pode não haver tanta margem para aumentar” as taxas de juro, já que há dados económicos piores do que o esperado. Seja como for, ainda é preciso aguardar outros, como a inflação, para perceber como está a economia e se é capaz de lidar bem com esse aumento dos juros. O Nobel Paul Krugman declara-se pessimista:

Agora, vem aí a ‘mãe de todos os efeitos adversos’ – e o que vem aí é um regime que vai mostrar-se ignorante e hostil sobre políticas económicas perante todos os esforços para fazer funcionar soluções. Podemos esperar apoio efetivo à Reserva Federal? Nem pensar nisso. Podem mesmo apostar que a Reserva Federal vai perder independência e que vai ser atacada por vários mecanismos”.

A Jefferies corrobora que  "o principal risco é a incerteza política monetária”, cita o Business Insider. Antecipa que as taxas de juro poderão não subir já em dezembro, tal como a Nomura: “As expectativas do mercado têm vindo a diminuir rapidamente”.

Os fantasmas das guerras mundiais à espreita

O economista do HSBC Kevin Logan antecipa uma mudança de forças no tabuleiro orçamental, com “impostos mais baixos, défices mais elevados, restrições ao comércio e o fluxo internacional de capitais e, potencialmente, uma redução considerável na força de trabalho se Trump os planos de deportação de entrarem em vigor". Até pode vir a não aplicar tudo aquilo que apregoa, mas o mercado paga um preço pelas possibilidades.

E há quem não tenha dúvidas que o candidato vencedor vai reforçar a reação contra a globalização. Caso do Deutsche Bank e do estratega Jim Reid, que sublinha outro ponto.

“É muito fácil dizer que este é muito negativo para a economia global, mas as políticas atuais de todo o mundo estão a perpetuar a recuperação soporífera pós-GFC [crise financeira global]. Uma sacudidela é um mal necessário, se Trump é ou não a versão correta disso é uma questão aberta ao debate”

A Fidelity antecipa também ao Business Insider que estamos a caminhar para “um mundo de risco político sem precedentes que põem em causa os pilares do acordo do pós-Segunda Guerra Mundial”.

A queda de 12% do peso mexicano é prova do medo instalado para algumas economias. Muita da retórica geopolítica de Trump concentrou-se no México e nas trocas comerciais com o país onde disse querer construir um muro na fronteira, pago pelos próprios mexicanos.

Tudo em aberto, por agora. O 45º Presidente dos Estados Unidos só toma posse a 20 de janeiro do próximo ano. Será preciso esperar para jogar às diferenças Trump Presidente / Trump candidato.