"Conto direto" é a rubrica do Maisfutebol que dá voz a protagonistas dos escalões inferiores do futebol português. As vivências, os sonhos e as rotinas, contados na primeira pessoa.

Diego Galo, 37 anos, defesa da União de Leiria

«Por norma, acordo por volta das 7h45 para levar o meu filho à escola. Em Leiria, tenho o meu barco com o Babanco e com o Kuca e quando é a minha vez de levar o carro, apanho-os. Outras vezes espero na escola do meu filho por eles. O treino começa às 10h30 e acaba por volta das 12h30, mas temos de estar lá às 9h30. 

Regresso a casa, almoço e passo algum tempo com o meu bebé e com a minha mulher. Vou buscar o meu filho à escola às 16h20. Durante a pandemia habituei o meu corpo a correr e gosto. Costumava correr às 16h00, agora corro mais ao final da tarde. As pessoas até comentam: 'Se o velhinho anda, eu também tenho de andar'. Trabalho sempre certinho, quem me conhece sabe.

Após a minha corridinha volto para casa, janto e gosto de assistir a jogos de futebol sejam do Campeonato de Portugal ou da Liga dos Campeões. A minha mulher até fica brava comigo (risos). Antes de dormir ainda dou banho ao meu bebé e assim acaba o meu dia.

Aceitei o convite da União de Leiria em 2020. Estive em Chaves no ano anterior, mas a pandemia de covid-19 levou à interrupção do campeonato. Voltei para o Brasil e estive lá durante três meses e meio. Antes de regressar a Portugal, recebi chamadas do Torreense, do Estrela da Amadora e do V. Setúbal.

No entanto, um amigo em comum perguntou-se se tinha interesse em assinar pela União de Leiria. Tive receio pelo passado do clube, mas aceitei. Recentemente até renovei contrato. Podia ter ido para um clube da II Liga para dizer que estava naquele patamar, mas preferi um probjeto bom para subir de divisão. 

Há muitos anos que a União de Leiria não sobe e se conseguirmos, vai ser top. É um clube histórico, no qual já passaram várias figuras do futebol português. Por exemplo, trabalhei aqui com o Helton, algo que jamais tinha imaginado ser possível. É um tipo humilde, cinco estrelas. 

A saída do mister Filipe Cândido foi muito boa para ele. Já estávamos adaptados à filosofia dele e nos primeiros dias estranhámos, mas já passou. O mister Bino assumiu e os seus métodos são parecidos. A malta não tem de pensar na mudança de treinador. 

Estou desde 2008 em Portugal. Já era profissional no Brasil quando me ligaram para fazer testes em Portugal. Pensei: 'Sou profissional e vou fazer testes a Portugal'. Mas aceitei. Fui uma semana para Tondela e fiquei numa casa com vários jogadores. Sabia que tinha de dar a vida durante uma semana.

Entretanto o meu filho Guilherme nasceu e decidi voltar ao Brasil. Além disso, foi a minha primeira vez que deixei o Brasil. O presidente Gilberto Coimbra pediu-me para voltar no início da época seguinte e aceitei. O pessoal ficou um pouco chateado comigo (risos).

Estive dois anos no Tondela e fiz amizade com o Bruno Sousa, antigo guarda-redes. Ele já tinha jogado na Oliveirense e falou de mim ao presidente Godinho. Já tinha 27 anos e ele ficou com dúvidas. Ainda assim, assinei pela Oliveirense. O problema foi que também tinha assinado pelo Tondela. Como resultado fiquei castigado e um mês sem jogar.

O Banjai e o Laranjeira tinham estatuto na Oliveirense e achei que iria ser complicado jogar. No entanto, num jogo contra o Trofense, o Laranjeira foi expulso e eu joguei. Joguei tão bem que nunca mais deixei de ser titular. 

É verdade que comecei tarde, mas sempre acreditei que podia chegar ao alto nível. Não é preciso ser o craque, basta ser regular. Um belo dia o presidente do Arouca, o Carlos Pinho, ligou-me e perguntou-me se tinha interesse em jogar no clube. Assinei por dois anos e joguei quase sempre. 

Conseguimos a manutenção nos dois anos em que estive em Arouca. Estava bem no clube, era uma cidadezinha pequena, mas acolhedora, e todos gostavam de mim. O presidente já tinha falado comigo antes de eu ir de férias. Porém, o Lito chegou e não sei se foi ele, mas o clube decidiu remodelar tudo. 


 

O defesa brasileiro jogou duas épocas no Arouca.


Era inexperiente e quando o Tondela me ligou disse que ia. No entanto, acabei por ir para o União da Madeira aconselhado pelo meu empresário. E acabou por ser o melhor para mim tal como ele tinha dito. Pelo meio saíram notícias de que tinha roído a corda por me ter decidido pelo União da Madeira e o clima entre mim e o Tondela ficou estranho.

Fui totalista na Madeira, mas infelizmente descemos. Deixámos a decisão para a última jornada e perdemos 2-1 com o Rio Ave. Fiquei triste, porque o União da Madeira tinha excelentes condições. O clube queria que continuasse, ainda tinha mais um ano de contrato, mas o Pepa, que tinha sido adjunto do Filipe Moreira no Tondela, queria-me no Moreirense. 

O presidente do Moreirense ligou-me e perguntou-me a minha vida toda: se bebia, se fumava, se era casado, se tinha filhos, etc. Paguei do meu bolso para sair da Madeira, mas fui recompensado no futuro. Ganhei a Taça da Liga pelo Moreirense e pelo caminho batemos o FC Porto, o Benfica e o Sp. Braga. A nossa equipa era muito boa e só tínhamos motas na frente: o Podence, o Boateng e o Dramé. 


 

Galo venceu a Taça da Liga pelo Moreirense na final contra o Sp. Braga, na época 2016/17. 



Foi tudo mágico. Há muitos clubes que não valorizam a Taça da Liga, mas para quem nunca tinha vencido... Foi histórico. Acabei por sair para o Desportivo das Aves. Fui dos primeiros a ser contratado juntamente com o Nildo Petrolina e com o Facchini. Tinha chegado o investidor chinês, mas nesses dois anos correu tudo bem.

E ganhei a Taça de Portugal! A Taça da Liga foi importante por ter sido pelo Moreirense, mas a Taça de Portugal... Foi incrível. Já tinha visto como era aquele domingo no Jamor com o estádio cheio e com as famílias presentes.

Acho que o Sporting não queria jogar. Os jogadores estavam chateados e com razão, mas ainda bem que jogaram (risos). Tivemos mérito independentemente do que aconteceu. Os jogadores do Sporting como o Bas Dost, o Bruno Fernandes, o Coates ou o Mathieu pagavam todo o plantel do Desp. Aves. 

Foi uma caminhada incrível. Fomos de Lisboa a festejar até à Vila das Aves. E a festa não durou só aquele dia! Não é todos os anos que uma vila ganha uma Taça de Portugal. Nessa altura, recebi várias chamadas. É assim quando estás lá em cima. 


 

O Desp. Aves, clube pelo qual fez história ao ganhar a Taça de Portugal, foi o último que representou na Liga.


Recebi um convite do Farense através do Sérgio Vieira. Nunca tive quem me ajudasse nas minhas decisões e quando decidimos sozinhos, precipitámo-nos. Mais tarde, o André Geraldes ligou-me e acordámos valores. Estava tudo certo, mas no dia seguinte ia de férias para o Brasil. Entretanto ligou-me um empresário com uma proposta da Arábia Saudita. Tinha 30 e a poucos anos e pensei: 'Aqui vou ganhar um enquanto lá vou ganhar trinta'. 

Comecei tarde e não tinha ganho muito dinheiro. Fiquei a pensar, porque o contrato era muito bom. No final não acabei nem por ir para o Farense nem para a Arábia. O Lenho, que tinha jogado comigo, disse-me que queria que fosse para o Desp. Chaves. Gostei muito de lá estar, joguei 24 jogos até à pandemia. Entrou um treinador novo e trouxe outros jogadores. Segui a minha vida e acabei na União de Leiria. 

Digo aos centrais que quem joga comigo é sempre vendido. O Galo é que fica sempre (risos). O Ponck jogou dois anos comigo e foi vendido para a Turquia. O Jorge Fellipe também foi para a Arábia Saudita e recentemente sagrou-se campeão da Tailândia. Todos os que jogam comigo vão embora. Já avisei aqui na União de Leiria (risos). Se tivéssemos subido na época passada, muitos jogadores teriam saído. 

Há dois jogadores que me marcaram: o Nildo Petrolina e o Ângelo Neto. Ainda assim, gosto de fazer amizade com todos. Fiz amizade, por exemplo, com dois treinadores: Pepa e João de Deus. Ganhei intimidade, até brincava com eles. O João de Deus é muito bom treinador e ao mesmo tempo, é muito bom adjunto. Ele gosta muito da análise de vídeo. Depois dos jogos mostrava um vídeo com o que tínhamos feito e dizia: 'Galo, é com este posicionamento que queres jogar na Liga?'. Ele cobrava dessa forma. Eu também brincava e dizia: 'Ó treinadorzinho, sem ganhares não vais a lado nenhum' (risos). 

A minha ambição é subir à II Liga e quem sabe, chegar à Liga. Quem quiser contratar o Galo, sabe que o Galo está por aqui. Não é pelo dinheiro. O Zé Roberto era milionário e jogou até aos 42 anos. Não penso em deixar de jogar enquanto acordar bem-disposto para ir treinar.»

 

Vítor Maia