O Relatório e Contas do FC Porto é assustador. Não há outra forma de o dizer.

É tudo mau: o resultado negativo em 116 milhões de euros, a incapacidade em controlar os gastos, a desculpa esfarrapada de que a culpa é da pandemia.

Convém, aliás, começar por aí, pela desculpa esfarrapada de que a culpa é da pandemia. Mesmo admitindo que as rubricas dos proveitos operacionais baixaram por causa da pandemia, o custo terá sido de apenas 18 milhões de euros: é esse o resultado do decréscimo de receitas entre a época passada e a anterior nas várias rubricas ordinárias detalhadas no Relatório e Contas.

Depois, claro, há que lhe somar as receitas extraordinárias da venda de jogadores, que valeram um ganho de 77 milhões de euros, o qual não é contabilizado neste exercício por causa da pandemia.

Tudo somado, portanto, a pandemia teve um custo negativo de 95 milhões de euros.

Se não tivesse existido a pandemia, o FC Porto teria tido um resultado negativo de 21 milhões de euros. O que significa que a SAD portista teria falhado completamente o Settlement Agreement feito com a UEFA a 9 de junho de 2017 e estaria nesta altura em muito maus lençóis.

A pandemia, por outro lado, permitiu ao FC Porto ficar com mais um ano para cumprir o acordo feito com a UEFA relativo ao fair-play financeiro. Pelo caminho conseguiu também ganhar mais um ano para fazer o reembolso do empréstimo obrigacionista 17-20, no valor de 35 milhões.

Bem vistas as coisas, a pandemia acabou por favorecer as contas do FC Porto.

Ora o facto de o problema ter sido adiado por um ano, não significa que está resolvido. Bem pelo contrário. Vamos aqui fazer algumas contas, se o leitor quiser seguir-me.

O FC Porto tem a decorrer um acordo feito com a UEFA, por ter incumprido com o fair-play financeiro, que prevê, devido à pandemia, que no final desta época a SAD tenha um prejuízo acumulado nas últimas quatro temporadas de cinco milhões de euros, o qual pode ser aumentado para um prejuízo de trinta milhões de euros se a SAD registar entrada de novo capital.

Antes de mais, parece certo que o FC Porto vai ter de fazer um aumento de capital durante esta época. O que lhe permitirá apresentar um prejuízo de 30 milhões.

No entanto, e nas últimas três épocas, a SAD regista um prejuízo acumulado de 135 milhões (!) de euros. Descontando a margem de 30 milhões permitida pela UEFA, sobra que a SAD portista tem de recuperar um prejuízo de 105 milhões acumulado nas últimas quatro temporadas.

Ora só em vendas ainda não contabilizadas, o FC Porto já fez 77 milhões, os quais deverão subir para 113 milhões com as opções de compra de Vitinha e Danilo. A isto há que somar os 40 milhões garantidos com a entrada na Liga dos Campeões: o que dá um total já garantido de 153 milhões.

Há, no entanto, uma má notícia: os gastos operacionais.

O FC Porto teve na última época, mesmo com o dinheiro poupado pela paragem do campeonato, custos operacionais de 138 milhões. Na época anterior, por exemplo, foram de 150 milhões.

Enquanto isso, os ganhos operacionais (excluindo provas da UEFA, que já foram contabilizadas mais acima neste artigo) na última época foram de 77 milhões, enquanto na época anterior foram de 95 milhões. Ou seja, há um défice de cerca de 60 milhões entre custos e ganhos operacionais.

Repete-se: 60 milhões de euros.

Somando, portanto, esteve valor de 60 milhões aos 105 milhões de prejuízo acumulado das últimas quatro temporadas, chega-se ao valor de 165 milhões, o que é superior aos 153 milhões de euros já garantidos esta época com vendas e prémios da UEFA.

O que significa que o FC Porto está obrigado, para além do aumento de capital, a fazer mais encaixes extraordinários até 30 de junho, o que provavelmente implicará vender jogadores. Isto para não falhar pela segunda vez seguida com o fair-play financeiro, e ficar sujeito a penalizações mais pesadas do que uma multa e a inibição de inscrever 25 jogadores nas provas europeias.

 

Mas não é só por isto que o relatório e contas é assustador. É assustador também, por exemplo, pela incapacidade de controlar os gastos.

Mesmo sem contabilizar os prémios (para o plantel e para a administração) pelas conquistas do título da Liga e da Taça de Portugal, o FC Porto manteve gastos com o pessoal acima dos 80 milhões de euros. E continuou a gastar quase 16 milhões com trabalhos especializados como prospeção de mercado e serviços de consultadoria.

É assustador também que em cinco anos, período durante o qual o FC Porto foi campeão apenas duas vezes, o passivo tenho aumentado de 276 milhões para… 452 milhões. Já o ativo é agora de 300 milhões, o que significa que é dois terços do passivo.

As finanças do FC Porto estão, portanto, ruinosas. Independentemente dos rivais, e olhando friamente para estas contas, as finanças estão dramáticas. O passivo aumenta, a dívida aumenta, as despesas continuam elevadíssimas e tudo isto apresentará, mais tarde ou mais cedo, a fatura.

PS. O que é para mim totalmente incompreensível é que nos últimos dez anos, e segundo dados do Transfermarkt, o FC Porto somou 865 milhões de euros com vendas de jogadores. A isto há que somar 275 milhões de euros com prémios da Liga dos Campeões (sem contar Liga Europa).

Ou seja, em receitas extraordinárias a SAD portista recebeu mais de 1,1 mil milhões de euros em dez anos. Nesses dez anos, foi cinco vezes campeão. Para além disso, hoje tem um estádio, um campo de treinos para as camadas jovens e um pavilhão. Ao contrário dos rivais, não tem um centro de treinos, não tem um hotel para os jogadores, não tem uma televisão. Ou seja, não criou infraestruturas nem apresentou resultados financeiros positivos.

É possível não falar em má gestão?